Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

sexta-feira, agosto 24, 2012

Eros e confissões no feminino ou divagações numa noite de Verão. Come away with me.


Come away with me


Norah Jones

*



Dispo-me, abro os braços, viro-me para a luz. Exponho-me. Exponho-me assim perante ti, entrego-me ao teu olhar. Nu frontral. E digo-te: Olha, agora olha. Esta sou eu. Toda carne, toda coração. Vê os meus seios, vê, vê todos os meus órgãos, vê, vê tudo. Esta sou eu. Entrego-me assim, inteira, fecho os olhos para que me vejas sem pudor. Esta sou eu, a que olha a luz, o céu, a que vive na cidade, a que se esconde nas paredes que envelhecem devagar, a que entra céu adentro, a que entra na terra, no mar, que se confunde com as árvores, que sobe ao cimo dos prédios e se atira a voar, que sai, pela noite, pela beira dos cais, que se deita com os gatos, que se deixa ir nos braços das gaivotas, que se enrola nas velas dos veleiros e depois, quando os marinheiros as desdobram, vai, nas asas dos navios, e vai, e vai, solta no vento. Olha-me, olha-me. Esta sou eu. Repara, na base do meu pescoço há uma janela; por ela entra o céu, por ela entra também o mar e também a luz. De corações, de luz, de mar, de sonhos, de amanhãs: é disso que sou feita. Esta sou eu, sem mágoas, sem passado, cheia de segredos. Esta sou eu, livre. Mulher.




E agora anda, entra comigo na penumbra, atravessa comigo a sombra, a seda, o tempo. Anda. Vem tentar desvendar os meus segredos, vem adivinhar os meus sonhos, vem. Deixa que as cores tingidas pela doce paixão sejam as cortinas que nos escondem, deixa que os recantos atrás das janelas sejam a passagem, a ante-câmara, o santo e a senha. Vem, encosta-te a mim, diz-me devagar palavras de amor, diz-me que nem todo o corpo é carne, diz-me que a minha língua tem a consistência da rosa e o sabor da madrugada, sussurra baixinho, muito baixinho, ao meu ouvido que o teu olhar desce como um íman ao centro mais ardente do meu corpo, diz que o meu corpo sabe ao cheiro das plantas vivas, diz, diz, e beija-me, e toma-me, e faz-me voar, e faz-me ser bicho sem lei, bicho sem tino, sem medo, sem vergonha, uma ave louca e livre, e a seguir não digas nada, não digas, sente o teu corpo e escuta, espera por um sinal. E quando eu te falar numa uma flor dourada, de longa e firme haste, sabe que é contigo que estarei a falar, que esse é o sinal e, então, faz o que tens a fazer.




Haverá, ah sempre haverá, quem diga que eu voo sem regras, que entro dentro da terra sem preceitos, que mergulho carregando demasiados adjectivos, que sou louca, que me deito com a música, que vivo como se vivesse numa terra sem lei, que tenho corações a mais, que não respeito as escalas, que não venero os clássicos, que os meus ardores são excessivos, que as minhas vozes são demasiado plurais, que não respeito as leis da escola, que violo com o meu riso os recantos amargos onde as velhas se escondem, que o meu riso é desbragado, que o prazer é excessivo, que devia envolver-me em pudor, que tanta cor é pecado. Dirão de ti que te envolves com uma ave sem lei, que te corrompes com a temperatura do meu corpo, dirão que te previnas, que te protejas, que um bicho ardente assim pode queimar as raízes e, as mãos como garras, ciciando, babando-se, avisar-te-ão, cuidado, cuidado com ela, cuidado - dirão, dirão, sempre dizem tantas coisas as pessoas medrosas, que consomem a vida desfiando cuidados, enunciando preceitos. Dirão, sempre dirão. Mas que me interessa isso? Que te interessa isso? Deixa. Vem. Fica comigo. Hoje. Chega-me hoje, um hoje de cada vez. Meu amor. Vem.

**

As imagens são fragmentos de pinturas minhas.

As expressões em itálico no segundo bloco de texto pertencem a poemas respectivamente de David Mourão-Ferreira, M. S. Lourenço, Alberto de Lacerda e João Rui de Sousa.

**

E já é sexta-feira, ante-câmara, portanto, de mais um fim de semana. E que sejam, para vós, dias memoráveis, bons, felizes, é o que vos desejo.

15 comentários:

Maria disse...

Amiga:
Gostei muito das suas pinturas, gostei destas "confissões".
As suas obras têm traço, cor e força.
Tocaram-me muito. As palavras emocionaram-me.
Obrigada por esta dádiva.
Abraço
Mary

A Matéria dos Livros disse...

Que belo texto!

Gostei também das pinturas, vivas, cheias de cor e sensualidade. Combinam.

Há uma grande unidade nos seus textos, pinturas, tapetes, decoração da casa e olhares sobre a paisagem que nos revela em fotografia. Reconhece-se a vitalidade, a sensualidade, a alegria de viver e o prazer do convívio com o Outro, seja um pinheiro bravo (manso?), seja um transeunte de uma rua qualquer, uma boneca, sejam livros, livros e mais livros... etc.

Bom fim-de-semana!

Bartolomeu disse...

Todavia... da vida faz parte integrante, uma dose de PlayBoy (quem diz "uma", diz muitas; as que desejarmos e a vida for pródiga em nos proporcionar e permitir que se realizem).
Mas, na verdade, não estamos perante um texto da play boy, e sim, perante uma obra dos sentidos. Uma obra que expressa o mais íntimo de cada um de nós e que por isso, tem a qualidade de nos transportar com ela, sonho dentro, relidade afora, numa vertígem recoberta de plasticidade sem deixar de ser impressionista e... deliciosa, em simultâneo.
E que não fiquemos nunca, surdos, aos sinais emitidos por uma flor dourada, de longa e firme haste (não sei se "longa e firme haste" é susceptível de mais que uma leitura, mas opto pela que for a mais ingénua).
;)))))))

Um Jeito Manso disse...

Olá Querida Mary,

Há alturas em que as palavras saem sem eu saber bem o que está a ser escrito. As palavras v~em à rédea solta. Sabe como é porque já me conhece há algum tempo e já tem assistido a estes destemperos. No entanto, despemperada ou não, é uma coisa que me dá prazer escrever e conjugar com imagens e com músicas.

Quanto ao que pinto é outra forma de liberdade. Aí é que não sei mesmo a que propósito vêm as coisas. O que sei é que me sinto completamente livre, livre, quando pinto.

E, Mary, eu é que agradeço (mesmo!) as suas palavras e a sua visita. A nossa Mary, aos poucos, vai regressando com as suas palavras que nos estavam a fazer falta a todos.

Tété disse...

Pois é, as suas pinturas traduzem-na em estilo, côr e consegue ver-se o sentimento com que foram feitas.
Assertiva, imparável, carinhosa.
Parabéns mais uma vez por tanto "SER".
Boas vindas à Mary. Queremo-la connosco, sempre.
Beijinho

Um Jeito Manso disse...

Olá Leitora de A Matéria dos Livros,

As suas palavras soam-me sempre tão bem. Acha mesmo que eu me revelo em tudo o que faço? Eu, como sou muito eu, não tenho o distanciamento para me ver por fora e poder concluir isso. Mas, se assim for, fico contente.

De facto, em tudo o que faço, sou eu sem disfarces. Mesmo se ficciono, sou eu que ficciono e faço-o quase sem pensar e a minha imaginação também sou eu, não é?

(Tenho sempre algumas dúvidas sobre esta coisa do 'eu', do 'id', sobre o que se pensa que é, o que os outros pensam que somos, e o que será de facto).

O meu alter-ego (adorei essa do outro dia, Leitora!), o meu grande pinheiro, é uma variedade de pinheiro que é o pinheiro de Flandres, um pinheiro que há na Serra da Arrábida. Pelo que sei, antes de meados do século passado, quando se estava a construir a fábrica da Sécil, os equipamentos vinham de fora em caixotes feitos com madeira de pinheiro e, nos caixotes, vinham ainda frequentemente pinhões, uns pinhões muito pequeninos envoltos numa membrana, como se fosse uma asa. Esses pinhões teriam voado e começado a povoar a Serra da Arrábida. Nessa fábrica, ainda hoje, existe a preocupação de irem florestando a serra à medida que, no interior, vão escavando para retirar o calcário com o qual se faz o cimento. A fábrica tem portanto viveiros. O meu pai adquiriu um pinheiro mínimo, este, para nos oferecer quando fomos lá para o meu heaven e ele mesmo o plantou, ele e a minha mãe. Tratei dele sempre desveladamente, sempre com medo que os coelhos o roessem pois várias pequenas árvores sucumbiam dessa forma e sempre regando e cuidando porque a terra ali é quase só pedra, não fixa a água. Mas ele vingou. Fez-se bonito, com um belo porte. E cresce desabaladamente e tem muitas pinhas, das quais devem voar os ditos pinhõezitos pois a verdade é que já lá nasceram uns dois ou três. É um pinheiro lindo, cheiroso, arejado. E o chão junto dele está sempre coberto de uma bela caruma arruivada. E dá uma sombra não muito espessa, muito agradável.

Bom, já aqui ia lançada a falar dele...

Um beijinho, Leitora, gostei outra vez muito do que escreveu.

Um bom fim de semana também para si!

Um Jeito Manso disse...

Olá Bartolomeu,

Quando acabei de escrever fiquei a pensar que se calhar me tinha 'esticado' um pouco e, por isso, comentei ao responder ao comentário da Leitora Pôr do Sol que aquilo me tinha saído uma coisa de tipo Canal Playboy. Mas, se mal me distraio, saem-me, volta e meia, textos assim e eu gosto de os escrever. Não sei se sou eu, tal e qual. Aliás, tenho cá para mim que não... Acho que se me atirar aqui da janela a voar, alta como estou, não chego ao pé do rio... E também não tenho ideia de entrar terra adentro. Mas as palavras saem-me assim, imagino estas coisas. Por isso, às tantas tenho mesmo toda esta dose de loucura dentro de mim.

E pintar ou fotografar, que alegria que é, nem sabe. Hoje andei ao fim do dia a fotografar a beira da praia e que bom que foi. vou fazer um post com algumas das fotografias que fiz. Adoro fotografar. Pintar também. E como não tenho pretensão de fazer bem feito ou de fazer de molde a que gostem, faço tudo o que faço em total liberdade e, portanto, mais do que da coisa feita, o que eu gosto mesmo é do acto de fazer (escrever, fotografar, pintar, etc).

Quando aos sinais, claro que acho que é de se estar sempre bem atento. É que podem ser palavras ditas ao acaso mas podem também ser o sinal para qualquer coisa. E, cá para mim, também é preciso estar atento às circunstâncias: pode ser caso para uma leitura literal, para uma leitura ingénua ou não. Neste caso eu acho que não.

(Agora gostava de saber incluir aqui um smile com um sorrisinho bem safado mas não sei fazer proezas dessas)

Um belo sábado, Bartolomeu!

Um Jeito Manso disse...

Olá Teresa-Teté,

Muito obrigada, fico contente que tenha gostado.

Como acima referi, tudo o que faço é muito 'eu' pois não aprendo, faço-o por mim, sem seguir regras ou ensinamentos.

E sai o que sai.

Quando andei a pintar para a casa da minha filha ela, meio a brincar, meio a sério, dizia-me 'Mãe, please, mas nada de obscenidades...'. Claro que pintei vários quadros para ela e para o meu filho e tudo decentíssimo. Mas, por vezes, quando não é 'por encomenda' e quando estou a fazer sem destino, saem-me umas pinturas que até a mim me fazem fartar de rir.

Deve ser o mesmo tipo de imaginação que me leva a escrever o que por vezes escrevo.

Quanto à Mary, é uma alegria quando a vejo por cá. As palavras dela incentivam-me sempre muito, gosto de sentir a sua presença amiga por perto e todos os Leitores gostam de ler os seus comentários.

Obrigada uma vez mais, Teresa-teté, e um bom sábado!

jrd disse...

Boa noite,
Palavras que desnudam as imagens e lhes sublimam a sensualidade, "com um jeito manso que é só seu", como diz o Chico Buarque.
Gosto muito da sua pintura.
Abraço

(continuo a ter dificuldade em entrar na caixa de comentários)

Um Jeito Manso disse...

Olá jrd, boa noite,

Será que há algum problema com o meu blogue no que se refere aos comentários? Ou será mal do blogger? às vezes acho que eles devem estar a mexer na programação daquilo porque há problemas que depois desaparecem.

O jeito manso da canção do Chico Buarque (e, em especial, o cantado com a voz quente da Bethânia) foi a minha inspiração para o título do blogue.

Fico agradada com a leitura (curta e concisa) que faz das minhas palavras e das minhas imagens.

Muito obrigada.

Um bom sábado para si, jrd!

Isabel disse...

Adorei as suas pinturas. Já nem vi bem mais nada!

Gosto muito de ouvir a Norah Jones.

Um beijinho

Um Jeito Manso disse...

Olá Isabel,

Obrigada. Fico muito contente que tenha gostado das minhas pinturas. No entanto, faço questão de fazer notar que até me custa a aceitar a expressão 'minhas pinturas' porque não me considero, nem de perto nem de longe, pintora. Mas, enfim, algumas coisa tem que se lhes chamar e eu própria vejo-me confrontada com essa necessidade e, por isso, ok, 'as minhas pinturas'.

Mas fico com pena que não tenha lido o que escrevi. Estava curiosa sobre a sua opinião. Ou leu e não gostou...? Se não gostou, pode dizê-lo à vontade. Mas também, obviamente, pode não lhe apetecer ler.

Um beijinho, Isabel!



Isabel disse...

Eu li, e agora voltei a reler.
Gostei, mas as pinturas atrairam-me mais.

Um beijinho

Pôr do Sol disse...

Olá Jeitinho,
A sua pintura nada tem de Play Boy e o texto tambem não.
Para mim entre o porno e o erótico existe uma distancia considerável.Igual aquela que separa o piri -piri da pimenta.
O erotismo das suas pinturas é a pimenta da vida.
O seu texto, belo e sensivel, como todos,o bailado da borboleta exótica, sensual, gritando vida, e exaltando o amor.
Parabens pelos dotes.

Um Jeito Manso disse...

Olá Pôr do Sol,

Muito obrigada. Quando se faz qualquer coisa em total liberdade, sai o que sai. Depois há o momento de decidir se mostra ou não mostra. Eu, como sou mais do género de fazer as coisas sem rede, só depois é que penso se não será demasiado para quem lê. Mas, enfim, é o que é. E desde que não faça mal a ninguém, que mal tem, não é?

Eu gosto das coisas assim, apaladadas.

Fico muito contente que sinta compreensão pelo que faço. Obrigada pelas suas palavras que tanto me incentivam.

Um beijinho, Sol Nascente, e tenha uma boa segunda feira!