Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, maio 10, 2016

Escrever à mão, desnudar-se


Manuscrito de Agustina


Quando, um dia, um namorado meu quis oferecer-me um livro com os seus poemas e pensou fazer uma edição de autor, eu não quis, achei que isso seria quase como lavar as palavras, tirar-lhes o rasto das suas mãos que as tinham escrito. Pedi que mo oferecesse em folhas escritas à mão.

Ele acedeu e fez ainda melhor que isso. Em papel espesso e caneta de tinta permanente escreveu os poemas e depois encadernou-o, uma bela capa em carneira com as letras cravadas. É um livro muito bonito, uma edição muito especial. Depois disso publicou livros e recebeu prémios mas penso que nenhum será tão valioso como aquele livro tão bonito, tão especial, edição absolutamente única.

Sempre gostei de ver a letra das pessoas.

José Afonso

A minha mãe tem uma letra bonita, elegante, desenhada com precisão e leveza. Mas não admira já que é professora. O meu pai tinha uma letra firme, inclinada para a frente, escrita com pressão, muito regular e apressada. O meu marido agora tem a letra legível e até a acho bonita (dentro do género, claro) mas antes era absolutamente ilegível. A minha filha tem uma letra apressada, regular, equilibrada, espontânea. O meu filho tinha uma letra impossível, inexplicável, tão rápida que era incompreensível (agora não sei como é). Acrescia que, quando escrevia à pressa, dava erros ortográficos absurdos, indesculpáveis. Despachava uma folha em três penadas com uns gatafunhos desesperantes e, se os percebíamos, era de irmos ao tecto com o disparate dos erros. Se escrevia pausadamente não dava erros e a letra lá se conseguia perceber. Um mistério.

Quanto ao conteúdo, os meus filhos escrevem muito bem. Os que por aqui andam há mais tempo talvez se lembrem do que eles (e o meu marido) escreveram sobre mim quando o Um Jeito Manso atingiu o milhão de visitas. Independentemente de me terem deixado divertida e emocionada, orgulhei-me por escreverem bem (embora eu não seja a pessoa mais isenta para o dizer, claro).

Quanto à minha letra, não a sei definir. Apenas sei, porque o meu professor de grafologia o disse, que o meu F revela que sou uma sedutora (e, note-se, disse isso só vendo a letra, sem me ver a mim).  

A minha nora tem a letra quase igual à minha e, por isso, quando escreveu uma folha para eu analisar, não fui capaz, pareceu-me que seria quase a mesma coisa que analisar a minha escrita e isso não sou capaz.

Sophia

Já aqui o disse que fiz um curso de Grafologia, um curso a todos os títulos maravilhoso, com o Professor Alberto Vaz Silva. 

Depois disso, já analisei a escrita de muitas pessoas, umas que conheço e outras que não, nomeadamente Leitores que digitalizaram folhas manuscritas e mas enviaram. Acho que nunca me enganei, pelo menos redondamente.

Passo a vida a ver se descubro pedaços de escrita manual para poder avaliar a personalidade dos seus autores. É surpreendente como a escrita espelha tão bem a maneira de ser da pessoa. Ainda no outro dia vi a forma de escrever e de assinar de uma pessoa que eu devia respeitar e que, agora, não sei como vai tal ser possível.

Outras vezes, quando não percebo bem que tipo de pessoa é alguém, fico a aguardar, sorrateiramente, que algum pedaço de escrita me seja dado apreciar. Tiro logo as teimas.

Eduardo Lourenço

Para complementar os meus conhecimentos, encomendei alguns livros franceses sobre o assunto mas, para mim, como funciona melhor é seguir o guião que aprendi no curso e depois fazer uma apreensão global e discorrer segundo a minha intuição.

Mas fica-me sempre a curiosidade: que relação existe, e tão estreita, entre a maneira de ser e forma como se escreve à mão? A que se deve isso? Porque é que a forma como escrevemos nos desnuda de uma forma tão crua? Haverá como que uma ligação directa entre a nossa mente (seja lá o que isso for) e as nossas mãos que exprimem os nossos pensamentos. preocupações e vontades?

Ernest Hemingway

E é que se pode tentar disfarçar, controlar a letra, mas até isso se nota, que a escrita é forçada. 

Por vezes, ao ler alguns blogues, dou por mim a tentar imaginar a escrita caligráfica dos seus autores. Nuns imagino uma letra miudinha, nervosa, noutros uma letra atrapalhada, incerta, noutros uma letra arejada, solar.

De notar que não tem a ver com ter a letra feia ou bonita mas como a letra se difunde na página (e, por isso, tem que ser numa folha sem linhas ou quadrículas), a dimensão das margens, a orientação do texto na folha e da escrita na linha, o espaço entre palavras ou entre linhas, etc. Cada aspecto tem uma leitura, ou seja, uma interpretação.

Philip Roth

Enfim, um dos muitos assuntos que me intriga e que, portanto, me fascina.

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O que abaixo partilho convosco não tem a ver com isto mas com a caligrafia como arte: um vídeo encantador.

Calligrapher Carol DuBosch


For 50 years, Portland native Carol DuBosch has been perfecting the art of calligraphic script. We recently paid a visit to her home studio to observe the master at work. Watch the video to learn about her craft, her process and what she's working on now.


Para mim isto é um outro mundo. Um dos muitos mundos encantados que desconheço.

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Talvez ainda cá volte (mas não garanto).

3 comentários:

Rosa Pinto disse...

Ainda tenho que escrever algo para ver o que me sai na rifa da caligrafia!!

Rosa Pinto disse...

dizem que não há memória mas sim sedimentos. seja qq coisa...lembrei-me da minha 4ª classe.
nesse tempo raparigas de um lado, rapazes de outro.. separados, os pátios, por arame. a professora com as raparigas ...o marido da professora com os rapazes.
um dia depois de verificarem as letras cá dos estudantes sou escolhida para lavrar uma acta (acho que era isso) num livro do professor (homem). a meio da manhã fui "mandada" ao lado do inimigo. o coração batia ...lá fui...parei na entrada ...pedi para entrar...os rapazes fingiam que escreviam e todos olhavam para mim...o coração não parava de bater e depois do - entra - seco do professor atravessei a sala. além do coração.. os meus passos nas tábuas de madeira ainda os oiço!!!! do que escrevi nem uma palavra recordo!!!

Um Jeito Manso disse...

Olá Rosa!

Se quiser mandar um texto manuscrito, mande. (A ver se não me estatelo ao comprido....)

Quanto às memórias, eu gosto de escrever aqui sobre coisas que me vou lembrando. O que me acontece é que depois de as escrever, parece que se desprendem de mim e que alguns aspectos, depois de os escrever, se esvaem um pouco.

Parecido com o que conta, lembro-me que numa festa de natal, resolveram oferecer uma salva de prata ao director e arranjar alguém para declamar um poema e lhe entregar a salva. Então escolheram-me a mim. Quando subi ao palco e vi a plateia cheia, fiquei assim, o coração disparado, medo de me enganar. Tenho as fotografias desse dia, a declamar, com os braços um bocado abertos (devem ter sido as professoras que me devem ter posto a fazer aquelas figuras) e com uma cara meio aflita.

Também não faço ideia que poema terá sido.

Um abraço, Rosa!