terça-feira, setembro 08, 2026

Uma entrevista que dá gosto -- Gloria Steinmen conversa com Robert Redford
E uma brevíssima nota sobre o acontecimento policial do outro dia

 

Tudo o que é coisa destas funciona a toque de caixa dos algoritmos. E os algoritmos funcionam com base em estatísticas e probabilidades: 'o que é que me chama a atenção?' 'Dos vídeos que me são mostrados (e são mostrados porque o algoritmo admite que é provável que me interessarem), quais os que me levam a abri-los?', 'Desses, quais vejo até ao fim?', 'Desses, quais partilho?', 'E faço pesquisas? Sobre que assuntos?'... E, com base nessa informação, o algoritmo vai aperfeiçoando o conhecimento que tem dos meus gostos. E, portanto, hierarquizando os meus interesses e fazendo um match selectivo com os vídeos/publicações disponíveis, é-me mostrado, por ordem decrescente de probabilidade de acertarem na mouche, uma selecção. Por isso, raramente me aparecem coisas que estão na moda, vídeos virais, palhaçadas de influencers de meia tigela, bonecadas parvas com citações requentadas, etc. Nem aqui nem no instagram. Quando ouço a outras pessoas ou na televisão comentários sobre personagens conhecidos fico sempre a leste: a mim não me chega dessa sucata. Em contrapartida, ao ser alimentada com temas e vídeos ou publicações que, à partida, são seguramente do meu agrado, fico com menos margem de manobra para pesquisar por mim ou para ser surpreendida por qualquer coisa em que nunca antes tinha pensado. O algoritmo forma uma teia que pode ser, a nível intelectual, uma ratoeira. Lidar com isto é, em si, uma aprendizagem.

Mas, passando adiante, que ninguém deve querer saber destas minhas considerações, hoje fui presenteada como uma entrevista em que in illo tempore, e já lá vão quarenta anos!, Gloria Steinmen conversava com Robert Redford, tristemente agora já ambos do lado de lá. E é um gosto. Pessoas inteligentes e, ainda por cima, com charme são outra coisa. E é uma coisa gostosa de ver como a química é algo de impalpável mas importante quando duas pessoas conversam. Não tem que ser uma química sexualizada, pode ser uma química que nasce das afinidades, da compreensão do encontro de sorrisos, da cumplicidade intelectual. Mas é tão bonito de ver.

Retrospetiva: Entrevista de Gloria Steinem a Robert Redford em 1986

Nesta entrevista de 1986 com Robert Redford, a editora da revista Ms., Gloria Steinem, Redford revela que grande parte da personalidade desajeitada da sua personagem na comédia "Legal Eagles" foi inspirada na sua vida real.

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Nota

No outro dia contei o que se tinha passado com polícias aqui ao lado, a falarem com os vizinhos, a entrarem lá em casa, tudo às escuras. Estava muito intrigada. Tinha pedido ao meu marido que, se os visse, lhes perguntasse. Respondeu: 'Sim, sim, vai esperando'. Já sabia. Fiquei, pois, determinada a, na primeira oportunidade, perguntar eu se estava tudo bem ou se teria havido algum assalto ou tentativa disso. 

Foi hoje. Quando estávamos a sair para o nosso passeio, estava o vizinho a chegar com uma das crianças. Como tinham os outros carros lá dentro, parou à porta de casa e estava a tirar coisa do porta-bagagem. Pensei: 'Não é cedo nem é tarde', e ataquei. E ele explicou. Não vou revelar mas é uma coisa surpreendente para mim, não me passaria pela cabeça nem conheço um dos intervenientes da questão. Ficámos muito tempo à conversa, contou muitas coisas que desconhecíamos. Portanto, estou esclarecida e, de certa forma descansada embora compreenda que eles têm ali um problemão. Coloquei-nos à disposição deles para o que precisassem. Vizinhos são para isso mesmo.

Não tive lata de perguntar o porquê de se terem posto às escuras, isso já me pareceu cusquice a mais. Mas admito que possa ter feito sentido. Disse ao meu marido o que me parecia uma possível explicação. Respondeu-me que o que estava a dizer não fazia qualquer sentido. Não sei. Mas é irrelevante. 

Quase que fico é com material para escrever uma sequela do meu 'Um ordenado paraíso'. 


Aliás, estava a ouvi-lo e já a pensar em como destilar aquilo para transformar depois numa narrativa cheia de intriga, acção e suspense.

Já agora, para quem não sabe: a expressão 'um ordenado paraíso' integra um dos meus poemas preferidos, 'As causas' de Jorge Luis Borges (poema que, de certa forma, no meu livro conduz um romance de amor) e usei-a para retratar um 'bairro' em que as casas são uma maravilha, rodeadas de belos jardins, um local tranquilo, tudo o mais aparazível possível, em que parece que nada acontece, uma paz que nada perturba, mas em que, portas adentro, é um desfiar de acontecimentos insólitos, grande parte deles aparentemente inexplicáveis, incoerentes, quiçá até um pouco heterodoxos.

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Desejo-vos um dia feliz

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