segunda-feira, maio 18, 2026

O admirável mundo das novas profissões

 

Até há cerca de um ano mantive-me longe das redes sociais. Geralmente era eu que procurava a informação e, quase sempre, junto dos media de referência. Claro que também consumia os vídeos do youtube (e ainda consumo) mas, enfim, há que reconhecer que nada a ver com a avalanche, não editada, que agora me chega via instagram. 

Quando a minha filha criou a conta, perguntou se os posts que eu criasse para o instagram também deveriam ir para o facebook. Segundo ela, o facebook é coisa mais de terceira idade e que ainda há muita gente que começou aí e ainda aí se mantém. Portanto, disse que sim. Mas nunca me lembro de tal. Quando abro a caixa de correio, o que não é frequente, espanto-me com dezenas e dezenas de notificações, mensagens, pedidos de amizade que estão pendentes no facebook. Se lá vou, é tanta coisa que nem me entendo. E aquilo parece-me uma barafunda, nada a ver com a arrumação do Instagram. E, aliás, sendo o meu perfil público, não vejo a lógica de eu ter que aprovar o pedido. E tudo aquilo me parece um tal caos que desisto. Provavelmente qualquer dia desisto do facebook. E os posts do instagram não apenas vão para o facebook como para uma coisa chamada Threads e aí só consigo ver de soslaio pois parece que devia criar conta específica. Mas vi que uma minha coisa qualquer tinha milhares de visualizações. Não faço ideia se o Threads também funciona com base em 'seguidores' ou 'amigos' ou se é bar aberto ou se há comentários ou não. Mas nada disso é a minha praia, não tenho paciência, não quero perder tempo a aprender coisas que me parecem redundantes. O Instagram já me chega. 

Mas vem isto a propósito das coisas que aprendo no Instagram... Coisas que eu não poderia aprender apenas lendo o Guardian, e isto só para dar um exemplo. É todo um mundo novo. Muitas vezes aparecem-me posts de pessoas desconhecidas. Quando quero ver quem são, clico no perfil e, com muita frequência, aparece-me que são criadores de conteúdos digitais. Não sei se é porque acham que é o que está a dar ou se é mesmo a sua ocupação principal, mas, do que lá se vê, não haverá mais que isso.

Mas não é só. 

Há bocado apareceu-me um que se anuncia como psicoterapeuta somático. Nunca em tal eu tinha ouvido falar. Fui ver: descreve algumas das suas habilidades para tratar pessoas. Daquela conversa toda, não me pareceu ver ali qualquer base científica, tudo aquilo me pareceu uma chachada sem ponta por onde se pegue. Posso estar simplesmente desfasada do imenso leque de profissões que agora parece que brotam como cogumelos, e esta ser uma profissão legítima, validada por alguma Ordem, sujeita a regulação. Mas esta é apenas mais uma das que me vão aparecendo. 

Há poucos dias uma outra descrevia-se como especialista em human design. Como nunca tinha ouvido falar em tal coisa fui informar-me. E tudo aquilo me tresandou a treta de uma ponta a outra. Mas, pelo que vi, organiza cursos ou retiros ou coisa do género. E parece que desenha mapas. Se calhar antes designar-se-ia astróloga e não organizaria workshops ou encontros. E eu espanto-me: quem é que vai em tal conversa? Os clientes não se importam por nada daquilo ter qualquer fundamentação científica? Há assim tanta gente a embarcar em balelas e ainda pagar por isso ou ainda bater palminhas? 

Mas depois ainda há quem que se anuncia como coach ou mentor e, se eu resolvo ir espreitar a realidade que ali subjaz, vejo grupos (geralmente de mulheres) que se riem muito, frequentemente de braços abertos, boca aberta e, muitas vezes, de língua de fora e perna no ar. Não imagino sequer o chorrilho de disparates, de vacuidades, de banha da cobra que aí se vende. 

E depois há ainda quem faça sessões online para explicar as vantagens de suplementos alimentares. E quando, na minha inocência, pergunto se quem ministra tais sessões é nutricionista ou afim, respondem-me que não, que agora na internet encontra-se tudo o que é preciso. Mas dizem-me isto não com ar envergonhado de quem foi apanhado em falso mas como se a minha pergunta é que fosse absurda.

Quando me espanto por haver tanta gente que vota em partidos que apresentam propostas não fundamentadas, não deveria. Se há tanta gente que embarca nestas parvoíces, a quem nem ocorre saber se a profissão está homologada por entidades competentes ou  se esses pseudo-especialistas têm bases académicas para fazer aconselhamentos psicológicos ou human design (esta expressão, então, é de morte), como não haverão também de ir atrás da conversa de populistas e afins...?

Não sei que mundo é este. Mas, cá para mim, metade da população é mesmo assim, abestalhada, feliz com a sua ignorância, disposta a seguir ou a pagar a todos os que lhes dizem o que eles querem ouvir (mesmo que, à vista desarmada, se perceba que é tudo uma tanga). Metade não, estou a exagerar. Acho que é para aí um quarto, são os tais 25% de pessoas que votam sempre nos partidos ou nas pessoas que não interessam para nada, que se vê, a milhas, que tudo aquilo é uma 'furada'. E não estou a pensar só no Chega, no Ventura (ou, nos States, no Trump): já pensava isso de quem vota no PCP, no Bloco, de certa forma, em parte, na IL. Propostas vagas, simpáticas, incitamento, ainda que, por vezes, mais veladamente, à divisão do mundo entre o lado bom e o lado mau, 'nós, os bons, os prejudicados, os impolutos' contra 'os outros, os maus, os corruptos, os ladrões'. Por vezes, a estes 25% de gente que vai atrás de tudo o que os vendedores de banha da cobra vendem, por razões circunstanciais há mais quem se lhes junte, uma franja flutuante que tanto vai por ali como por aqui. Agora, em todo o lado, parece que há sempre 25% de pessoas que não sei dizer se são burras, ignorantes, inseguras, fúteis, marias-vão-com-as-outras ou o quê. Mas acho que andam sempre por aí.

E, para resumir, acho que é essa camadinha que alimenta esses profissionais de meia-tigela, gente sem escrúpulos ou sem consciência ou sem noção, que se armam em líderes, em mentores, em especialistas, em psico ou experts da treta e que não passam de sacos cheios de coisa nenhuma.

Ou, então, temos que nos ir habituando: uma onda de coisas fake a passar por cima dos incautos e, se calhar, um dia, quando menos dermos por isso, já a passar por cima de todos nós.

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Desejo-vo suma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

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