Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

domingo, fevereiro 16, 2020

A vida efémera das borboletas. E das cartas de amor (de amor e não só).





Tenho andado constipada e na sexta-feira piorei. À noite estava deitada abaixo e dormi mal, com tosse, dores no corpo, dores de garganta. Tirando o bocado em que fui ao médico, este sábado passei o dia em casa. De tarde dormi e, no resto do tempo, pouco fiz, agasalhada e apanhada. Felizmente, o tratamento já começou a fazer efeito e, embora a minha mãe quase me tenha implorado que este domingo também me mantenha resguardada, recordando-me insistentemente que já não tenho vinte anos, estou em crer que tal não acontecerá. Não sou bicho de hibernação.

Este estado em que me encontro não apenas me abate pela ociosidade forçada como me reduz as faculdades.

Por exemplo.

Tenho quase a certeza que há uns dois ou três dias li no Guardian um artigo sobre um site que proporciona os contactos para que estranhos se correspondam, através de cartas de verdade, cartas escritas à mão. Mas agora não o encontro. Só se não foi no Guardian. Nesta demanda fui dar a artigos antigos (por exemplo: Writing letters to complete strangers can make the world a better place), fui dar a um site e talvez seja o site referido no artigo (The world needs more love letters), fui dar a uma conferência Ted (Hannah Brencher: Cartas de amor para estranhos). Tenho estado entretida a passarinhar por isso. Mas, certamente por preguiça mental, ainda não percebi bem como funciona pois não acredito que as pessoas tornem públicas as moradas de destino das cartas. Em alguns casos apenas as escrevem e deixam em lugares públicos para quem as queira ler. Mas o que tinha lido não era isso: era mesmo escrever cartas a uma pessoa, receber resposta dela e, assim, estabelecer um hábito de correspondência.

Na minha adolescência eu escrevia muitas cartas. Todos os dias, era uma emoção saber se o carteiro tinha trazido uma carta. Recebia envelopes com longas cartas e eu, igualmente, escrevia longas cartas.

Do prazer com que as escrevia só eu sei. E do prazer que sentia ao abrir o envelope, desdobrar as folhas, ler tudo o que me tinham escrito também. Nesses momentos, tocava o mundo de quem me tinha escrito e quem me tinha escrito não apenas me mostrava o seu mundo como a sua pele, as suas vísceras, a sua alma. Momentos de partilha e comunhão.

Há tanto tempo.

Agora, se quisesse voltar a escrever uma carta assim teria a maior dificuldade, parece que já mal sei escrever à mão. Também já nem me passa pela cabeça voltar a receber uma carta escrita à mão, entregue pelo carteiro. Isso já não existe. E, no entanto, como gostaria.

De vez em quando recebo mails escritos como se fossem cartas, mails longos. Fico toda contente. É como se o prazer de receber uma carta estivesse de volta.

De todas as que recebi, recordo agora uma, um mail longo em que o autor me falava de si.

Não acreditei em nada. Não sei porquê mas não acreditei. Contudo, estava escrito de uma forma credível e, sobretudo, muito bem escrito. Na altura senti-me especialmente tocada. Uma carta interessante que eu agora gostaria de reler. O pior é que estupidamente apaguei esse mail e, portanto, não consigo satisfazer a minha curiosidade. Ia escrever saudade no lugar de curiosidade mas é igualmente estúpido dizer que se tem saudade de uma carta.

Mas agora que estou a escrever isto estou a pensar que era bom que a carta tivesse sido escrita à mão. Escrever à mão é como colocar o DNA à vista. Ao passo que por mail a mesma pessoa pode fazer-se passar por outra, usando diferentes nomes e endereços de mail, se escrever à mão não o conseguirá. 

E, enquanto escrevo, estou também a pensar: será que isto que aqui escrevo pode também ser lido como uma carta? Quem me lê, lê como se estivesse a ler uma carta que eu lhe escrevi?


Assim, também a deslizante caneta
que mancha uma superfície
não tem consciência do objectivo
de qualquer traço
ou que o todo terminará
como uma amálgama
de heresia e sensatez;
por isso ela confia na mão
cujo discurso silencioso anima
os dedos palpitantes --
cujo espasmo não colhe pólen
mas sossega o coração.



______________________________________________________________________

As fotografias de borboletas são da autoria de Brian Hale

Excertos de 'Borboleta' de Joseph Brodsky, trad. Jorge Sousa Braga in 'Animal Animal, um bestiário poético'
_______________________________________________________________________




Deveria dizer que, de certo modo,
careces de existência?
O que estão, então, sentindo as minhas mãos
tão parecido contigo?

Sem comentários: