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sexta-feira, junho 29, 2018

Boas maneiras à mesa




Não serei a Paula Bobone nem, tão pouco, candidata a sua discípula. Nem tenho a mania das etiquetas nem sou muito convencional. Contudo, tenho que reconhecer, apesar de todas as minhas limitações, há coisas que tenho para mim que são regras a seguir quando estamos à mesa. Geralmente decorrem não de manias mas de tradições que, em dada altura, fizeram sentido ou que, vendo bem as coisas, ainda o fazem.

Por exemplo:

1 -  Acho que é compreensível que mandem as boas práticas que, quando a sopa está quase no fim, não se incline o prato na nossa direcção mas no sentido oposto. É que, a haver algum deslize, não há risco de nos sujarmos.

2 - Também me parece óbvio que se segurem os copos de pé alto pelo pé e não de mão à volta do recipente em si. Não apenas é uma questão de elegância como, sobretudo, uma questão de temperatura. Os vinhos devem ser servidos à temperatura certa (mais coisa menos coisa) e uma mão à sua volta causará troca de temperaturas.

3 - Claro que também nunca se junta gelo ao vinho. Vinho é vinho, não é refresco.

4 - E não se deve encher o copo de vinho até quase a cima. O vinho deve poder respirar e, quem o vai beber, não deve correr o risco de enfiar o nariz na bebida mas, sim, deve poder aspirar o aroma que dele se liberta.

5 - Também mandam as boas práticas que, numa refeição que não as habituais em casa, no fim, não se dobre o guardanapo direitinho. Isso é quando vamos voltar àquela mesa na próxima refeição, usando o mesmo guardanapo. Caso contrário, deve ser deixado, naturalmente, não esparramado mas displicentemente colocado ao lado do prato. Não se pretende que pareça pronto para voltar a ser usado, mas o contrário.

6 - A menos que estejam poucas pessoas à mesa e todas cheguem facilmente ao centro, não se devem colocar as terrinas, as travessas da comida ou a fruta ou as sobremesas em cima da mesa mas sim num aparador ou mesa lateral. Os convivas levantar-se-ão e servir-se-ão levando o seu prato para a mesa. Se, pelo contrário, se puser a comida em cima da mesa, a toda a hora os que comem estarão com braços a cruzarem-se e descruzarem-se e todos a atrapalharem a refeição uns dos outros.

7 - Se surgir uma espinha na boca, não é preciso fazer muita ginástica: pode, com a ponta dos dedos, discretamente retirá-la, apondo-a na beira do prato (e, de preferência, limpando, de seguida, discretamente, os dedos). Idem com os caroços de azeitona. São coisas que acontecem e não vale a pena fazer de conta que não.

8 - Claro que em circunstância alguma se põe a faca na boca. E escuso de explicar porquê.

9 - Comer uma asinha de frango ou uma perninha de perdiz claro que se pode comer à mão. Com discrição e não com alarvidade, bem entendido. Mas claro que sim.

10 - E hoje pode parecer coisa marialva ou de dondoca -- mas eu que não sou (ou não me acho) uma tiazona, não abdico -- mas é o homem que serve as bebidas à mulher e não o inverso. Se há coisa que, juro, me faz muita impressão é ver algumas mulheres muito solícitas a acharem que mostram uma grande delicadeza pondo vinho no copo do vizinho do lado. Nunca. Não me perguntem porquê, à luz da igualdade de género, mas eu tenho para mim que é daquelas coisas que ponho ao nível de os homens fazerem a barba e as mulheres não ou as mulheres depilarem as axilas e (quase tdos) os homens não. Coisas que são assim porque sim. Bebo vinho se um homem me servir. Gosto de ser servida. No vinho (e noutras coisas também).

11 - E, claro!, é a comida que vai à boca e não o contrário. Ou seja, a pessoa não deve debruçar-se sobre o prato mas, sim, deve levar o garfo à boca, mantendo o corpo direito. Não deve a pessoa manter-se hirta à mesa como se tivesse engolido o garfo. Pode estar descontraída.

Mas estar descontraído não é sinónimo de fazer da mesa um apoio para o corpo descansar.

12 - Uma regra que não sigo e que acho que, nos dias de hoje, é para esquecer é a de que não se deve repetir o queijo. Supostamente, quem se enche de queijo é porque prefere o queijo aos acepipes que os donos da casa com tanto gosto prepararam ou mandaram preparar. Mas que se lixe: queijo é bom e convém não exagerar no cumprimento à risca. É como não ser 'bem' cortar a salada com faca. Supostamente, para ajudar, só o pão. Mas isso pode ter feito sentido com talheres impróprios, de ferro que, oxidados e em presença do vinagre do tempero, enferrujariam de vez num instante. Com talheres de aço, não há risco de a alface se sentir molestada e muito menos de a faca ficar inflamada. Portanto, se dá mais jeito usar a faca com a salada, que se use. Contudo, se a folha da alface estiver muito grande, acho mais razoável dobrá-la antes de a levar à boca do que estraçalhá-la e a verdade é que, frequentemente, apenas uso o garfo para comer a salada. Poderia usar pão se não estivesse a esforçar-me para o evitar. Assim, só quando não resisto a molhar o pão no molho da salada, que adoro.

13 - As flores ou quaisquer outros elementos decorativos sobre a mesa não devem cortar a visibilidade de quem está em frente: ou devem ser baixas ou, em alternativa, estar altas, por exemplo, colocadas em floreira ou jarra de pé alto e estreito. Os enfeites são para embelezar, não para atrapalhar.


14 - Quanto à ordem dos copos e talheres, é simples: de fora para dentro pela ordem de utilização. Mas nada como ver o esquema:


15 - Em refeições à mesa, especialmente se houver alguém a servir, quem abre as hostilidades é a dona da casa. Ninguém se deve atirar ao prato enquanto a anfitriã (ou, se fora de casa, a mulher mais velha) não começar a comer.
Em refeições volantes isto não se aplica. Não faria sentido. E, nos casos em que há muita gente a servir-se em side board, então também se releva a etiqueta de esperar pela dona da casa.
16 - Quando não há uma multidão a auto-servir-se mas um número comportável e  (para aí até umas 12 ou 15 pessoas razoavelmente despachadas e disciplinadas) é simpático esperar que todos se tenham servido e sentado para se começar a refeição e, sendo assim, será delicado esperar que a dona da casa comece. 

17 - Regra de ouro: não se limpam os pratos à mesa nem se passam restos de uns pratos para outros, à mesa. Isso faz-se na cozinha. Quando se levantam os pratos, levantam-se assim mesmo, sobrepondo-os tal como estiverem, com ou sem restos. Quanto muito, retiram-se os talheres.

18 - Finalmente: é preciso saber retirar-se. Nunca por nunca se deve ficar eternamente sentado à mesa, nos copos, com conversa mole, obrigando a refeição a prolongar-se para além dos limites suportáveis pela paciência alheia.

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Para quem se entenda com o francês, aqui ficam três vídeos que ilustram algumas das regras de etiqueta à mesa







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E claro está que isto a que por aqui têm vindo a existir não é outra coisa senão eu a precisar de férias e já com os neurónios em modalidade light. Bem pode o mundo pôr-se a fazer flic-flacs à rectaguarda, com mortais encarpados à rectaguarda em pleno espaço sideral que a mim só me dá para coisas deste calibre. Pior que isto só se me puser a falar de dietas de verão ou de cremes anti-celulite para podermos ir para a praia com o corpinho todo photoshopado. Mas, pelo caminho que este blog está a levar, não será de espantar se um dia destes a coisa descambar de vez para aí.


Abaixo as estrias e as socias-estrias e vivam os barrigudos!


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E viva a vida
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5 comentários:

jorge disse...

Já agora, só mais uma regra: numa mesa de homens, na presença de uma senhora, todos os homens têm que esperar pela iniciativa da senhora no levantar da mesa.
Também não sou destas merdices, mas regra é regra, e quando são para cumprir, lá tenho que alinhar.

Um Jeito Manso disse...

Olá Jorge,

Certo. Acho que terei que compilar os contributos que, entretanto, recebi. E é isso mesmo: mesmo que a gente não ligue muito a coisecas de etiqueta, a verdade é que sabe bem que algumas coisas se façam by the book, não é?

Gracias!

Fernando Ribeiro disse...

Desde criança fiz questão em NÃO aplicar as regras da etiqueta, como revolta contra os incontáveis ralhetes e os não menos incontáveis tabefes que levei em miúdo. «O menino não pode fazer isto». «O menino não pode fazer aquilo». «O menino tem que fazer aqueloutro». «O menino não ouviu? Ora tome que é p'ra aprender!» Os jantares em casa dos meus avós maternos e de uma minha bisavó que morava no Restelo (embora já não seja da família, a casa ainda existe: Av. Torre de Belém, n.º 11, Lisboa) eram autênticas sessões de tortura para mim. Mandem a etiqueta à fava. Desde que não se coma como um javardo, faça-se como nos der mais jeito. Mais nada. Deixem as etiquetas para os banquetes de Estado!

Um Jeito Manso disse...

Olá Fernando!

Ora muito bem. Falou um homem do norte! Percebo que essas sua linha familiar materna o deixou um bocado traumatizado mas há-de reconhecer que, quando a coisa é natural e levada sem fundamentalismos, não incomoda nada.

Por exemplo, quando vou com um homem e chego a uma porta, parece-me natural que ele me ceda a passagem. Tal como existe um 'código' de condução não me parece nada de mal que haja um 'código' geral de conduta, incluindo à mesa.

Mas se alguém lhe for avesso e não causar constrangimentos aos outros, pois que faça como entender. Claro que se esse alguém estiver ao meu lado à mesa e eu o vir debruçado sobre o prato, por exemplo a sorver a sopa, se se auto-servir de vinho e nem se lembrar de me oferecer, e etc, vou achar que está a precisar de umas lições de boas maneiras... mas como sou educada guardarei o remoque cá para mim e farei de conta que nada a apontar.

E haja saúde e bom humor que isso, sim, é que nao pode faltar.

Uma semana feliz para si, Fernando.

Fernando Ribeiro disse...

Cara UJM,

Agora é que fiquei sem perceber. «Falou um homem do norte», porquê? O que é que os homens do norte têm de diferente dos homens do sul, do leste ou do oeste? Os homens do norte são iguais aos outros, só nas palhaçadas do Herman José é que não são.

Uma coisa são as regras da cortesia e do cavalheirismo, outra coisa são as regras de etiqueta, à mesa ou seja onde for. As regras de etiqueta, que tudo pretendem regulamentar, incluindo os gestos mais insignificantes, são totalitárias e fascistas. Na minha infância, quando eu jantava em casa dos meus avós maternos ou da minha bisavó do Restelo, eu estava sempre a apanhar. Levava uma estalada porque «não é assim que se pega na colher». Levava outra estalada porque «o menino tem que deixar alguma comida no fim, na beira do prato». Levava outra estalada porque «não se diz "não me apetece mais", diz-se "estou saciado" ou "estou satisfeito"». Etc., etc., etc. Fizesse o que fizesse ou dissesse o que dissesse, eu apanhava sempre. Aqueles jantares eram sessões de pancadaria, baseados no conceito do séc. XIX segundo o qual as crianças eram monstrinhos selvagens, só domesticáveis à força de pancada.

É claro que, sempre que podia, eu refugiava-me na cozinha, ao pé das criadas. Estas não só não batiam, como apaparicavam «o menino». Entretanto, na sala, a minha avó ou a minha bisavó comentavam que eu era «um bicho do mato, que só estava bem no meio da criadagem». E quando pronunciavam a palavra "criadagem" faziam um esgar de desprezo!

Em suma: boa educação, sim, cortesia, sim, mas etiqueta, não. Definitivamente, NÃO!