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quarta-feira, maio 16, 2018

Quem me dera



As televisões que enchem os horários, nobres e não nobres, com comentadores que, ou porque são mesmo assim ou porque sabem que o escarcéu atrai audiências, apresentam comportamentos trogloditas em
  • que em vez de louvarem a beleza do desporto, discutem encarniçadamente lances duvidosos 
  • que induzem suspeições sobre conluios e negociatas como se o mundo de futebol fosse um vespeiro de vigaristas e corruptos e
  • que, em vez de falarem civilizadamente, se atropelam verbalmente, se exaltam e se insultam
  • que atiçam rivalidades doentias que roçam o ódio e estimulam a agressividade e a irracionalidade
contribuem muito para o clima de violência, em que vale tudo, que se vive no país futebolístico.


Não tenho dúvidas: a comunicação social, e em especial a televisão, têm sérias culpas no cartório em tudo isto. Há  no ar um intolerante clima de ódio que estimula toda a espécie de aberrações comportamentais.

Ontem à noite parece que estava a pressentir que aquele incendiário se estava a tornar perigoso. Já aqui o referi: Trumps há muitos e Bruno de Carvalho é um deles. Tudo o que ele diz e faz indicia o espírito doentio que ali está e que, como se vê, não conhece limites. Não sei se é ele que está materialmente por trás dos actos criminosos que a todos envergonham mas sei o que tenho visto: o clima que ele fomenta, a instabilidade em que lança jogadores e adeptos, são rastilhos mais do que suficientes para comportamentos marginais de toda a espécie.


Hoje, por volta das sete, recebi o telefonema de alguém que estava em choque. Depois, ao vir para casa, dizia-me a minha mãe, que estava a ver as imagens do balneário virado do avesso, que estava incomodada com o que se tinha passado, que dezenas de facínoras de cara tapada tinham agredido os jogadores e os treinadores do Sporting. Ao chegar a casa, vi e nem queria acreditar. 

Não parece estarmos num país moderno, democrático, civilizado. Parece, sim, que o país acordou mergulhado num estranho submundo. 


Foi uma minoria. Claro. Quarenta ou cinquenta trogloditas não são um país inteiro. Mas a forma como as coisas se passaram é assustadora e é assustador que as coisas tenham descambado desta maneira. A beleza e a alegria do futebol não deveriam poder ser maculadas desta maneira (e isto, digo eu, que nem sou apreciadora de futebol). Que imagem fica para as crianças que gostam tanto de futebol? Os meus meninos, que adoram futebol, que pensarão quando souberem de um susto e de uma pouca vergonha destas?


Bem. Vou desligar desta situação deprimente. Quem me dera que nada disto se tivesse passado. É certo que isto não é nada quando comparado com o massacre em Gaza, por exemplo. Claro. Isto não pode sequer colocar-se perto do patamar trágico onde a vida humana vale menos do que uma casca de caracol. Mas a realidade em Portugal felizmente também não tem nada a ver com o que se passa na Palestina. Por isso a gravidade das coisas mede-se em função do contexto. E, no contexto nacional, o que se passou é grave, sim.

Mas, pronto, chega. 

Apetece-me lavar a alma, o olhar, os ouvidos. Antes de terminar, já fui buscar imagens de futebol de rua praticado por meninos de todo o mundo. Steve McCurry sabe ver o mundo original como mais ninguém. A pureza da alegria do futebol enquanto jogo sem pecado. E agora vou ver uma dança debaixo de água e, a seguir, a mais recente canção de Mariza, Quem me dera. Acompanham-me?






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