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segunda-feira, abril 02, 2018

Rente ao mar, entre grandes casas e um grande azul




Já que a reunião familiar foi de véspera, este domingo foi dia de passeio. 

Andámos pela beira do mar e, de tarde, fomos até onde, durante anos, passei férias. Era, então, quando comparado com o que é hoje, terreno quase virgem. No entanto, lembro-me que já na altura se falava de que por ali, por onde passávamos, havia antes casas de pescadores, cabanas. Tenho ideia de ainda ver uma ou outra, mais para a zona sem acessos, lá onde era a praia em que apenas se podia ir de barco.


Andámos por aí também. Onde antes era terra de gente pobre é agora zona de casas de ricos, muito ricos. Casas tão grandes, tão luxuosas. Pensei que mesmo que me saísse o euromilhões não quereria viver num casarão tão imenso, tão difícil de manter. Vi os belos jardins, alguns em socalcos, grandes sebes bem aparadas, grandes relvados -- e pensei que teria que ter jardineiro a tempo inteiro; vi as janelas imensas e as superfícies de vidro que nem janelas seriam mas talvez paredes por onde a luz entre como se os seus habitantes estejam em plena praia -- e pensei que uma empregada sozinha não dava conta de tanta limpeza. Não, casarões assim só com uma empresa a fazer a faxina e famílias enormes e ruidosas lá dentro a darem vida e alegria a tanto espaço; mas não sei como ter liberdade com um bando de empregados à volta. Não, para mim não daria.

Vimos uma casa enorme, mesmo em cima da praia, mas enorme, enorme, e com aspecto de abandonada. Portão escancarado, mato a toda a volta. Custa perceber como se deixa ao abandono uma casa assim, que valerá seguramente para cima de um milhão de euros. Mas a gente nunca sabe as vidas das pessoas e até nem é difícil imaginar que possa faltar a força anímica, a saúde, a vida ou a simples coesão familiar e que, num instante, se deixe vazia e triste uma casa daquele tamanho, toda em cima da praia. 


Tive alguma dificuldade em reconhecer onde eram os caminhos que antes percorríamos até alcançarmos a zona que preferíamos, abrigada de vento, sem fundões nem correntes. Desapareceram esses caminhos entre giestas e mimosas, agora ruas alcatroadas para onde dão os grandes portões das ricas mansardas.

Mas, belos e ricos casarios à parte, são tão bonitos todos estes lugares da beira do mar, onde céu e oceano e rio se diluem e em que até as serras ao longe se dissolvem em azul.


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