Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, abril 26, 2018

Mário Soares anda pelo Jardim a partir deste 25 de Abril


Não fui a manifestações, não participei em eventos de qualquer espécie. Acordei cedo convencida que iríamos dedicar o dia a cortar mato mas, afinal, não sou só eu que tenho o corpo despreparado para grandes labutas rurais. O meu marido também anda com um ombro dorido. Ainda por cima, andar ontem à noite a passear com o bebé ao colo, deixou-o ainda pior. Portanto, mudança de planos. 

Fomos cirandar. Depois de almoço rumámos ao restaurado e recém nomeado Jardim Mário Soares que antes chamávamos de Campo Grande. Por lá tinha andado, umas duas horas antes, Marcelo Rebelo de Sousa, Ferro Rodrigues, António Costa, Fernando Medina e membros da família Soares.




Durante os anos de estudo, era frequente andar por estas bandas. Alugávamos bicicletas e andávamos por ali e pela Cidade Universitária. Sempre gostei muito de andar de bicicleta e ali havia como. Era também normal jantarmos na Cantina de Farmácia ou da Cidade Universitária e, de caminho, passarmos pelo jardim do Campo Grande.

A minha filha, com quem estive agora a falar, também ainda se lembra de andarmos de barquinho lá no lago. Diz que se lembra do pai a rabujar. E eu lembro-me porquê. Eles não paravam sossegados, tudo aquilo balouçava, eu ria a bandeiras despregadas, e o meu marido, sozinho, tinha que aguentar o barco.


Os barquinhos ainda cá estão. O jardim agora está mais bonito, mais arranjado. Tem agora elevações que dão graça à paisagem, que protegem do vento e isolam do ambiente urbano. É um oásis no meio da cidade e nem se dá pelas ruas circundantes, cheias de carros.


Tem agora também um outro laguinho e já cá andam meninos a tomar banho e a brincar. Sobre a curiosa escultura que está pousada no topo, transcrevo:
Fonte-escultura, que representa uma caricatura, decorrente do desenho cartoonado, executada, em 1992, por Samuel Torres de Carvalho, mais conhecido por Sam, e traduz uma peça única, metálica, resultante de várias formas que ao serem insufladas se transformaram numa só, à semelhança de um balão habilmente manipulado. Localizada na margem do lago do topo Sul do Jardim do Campo Grande foi inaugurada, em 17 de Setembro de 1993, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa.
Escultor - Samul Azavey Torres de Carvalho. Data - 1993. Material - Bronze. Estilo - Figurativo.
 Mesmo na direcção da casa de Mário Soares, mais um apontamento: só é vencido quem desiste de lutar.


Fiquei agradavelmente agradada. Muitos casais jovens com crianças, a andar de bicicleta, a patinar, as zonas de parque infantil cheias, muitos jovens, muita gente. Pensei que, durante anos, quando estava num qualquer outro país, ficava sempre admirada porque, lá, as pessoas andavam na rua, desfrutavam os espaços públicos. A primeira vez que passeei em Hyde Park fiquei espantada: gente a apanhar banhos de sol, deitadas na relva, homens em tronco nu, gente a tocar. Cá ninguém ia para os jardins e esplanadas, era gente maioritariamente encafuada, ensimesmada.


Penso que muito do ambiente opressivo de antes do 25 de Abril perdurou nas mentalidades durante muitos anos depois. 

O tempo que passa, o intercâmbio estudantil do Erasmus, as viagens low costs que facilitam o conhecimento de outras culturas e a multidão de turistas que nos últimos anos têm trazido novas práticas, têm ensinado aos autóctones o gosto pelo convívio, pelo contacto com a natureza, a descontração de se fazer o que apetece desde que não se moleste ninguém.


Um pouco mais à frente, li 'Sempre' e pensei: tomara que, para todos, seja 25 de Abril sempre. E que haja a vontade inquebrantável para defender a democracia e a liberdade sempre.


Como já não ia para aquelas bandas há algum tempo, não sei se alguns dos edificados ou apontamentos escultóricos já ali estão há muito ou se são recentes. O que sei é que gostei. Claro que alguns estão grafitados de forma despropositada mas, nisto como em tanta coisa, penso que há ainda um caminho de aprendizagem a percorrer. 

Penso que os poderes públicos, nomeadamente a nível autárquico, têm uma palavra a dizer. O graffiti pode ser uma arte e penso que se for dado espaço e prestado respeito a quem a pratica passará a haver compreensão de que a sua prática indevida pode ser puro vandalismo.


E, estava eu fotografando, isolada do mundo como sempre me acontece quando toda eu convirjo no que estou a observar, quando ouço o meu marido a chamar-me. 'Olha, ali a atravessar a rua, o Eduardo Lourenço'. Estava parado nos semáforos, esperando que abrisse o verde para peões na direcção talvez da Biblioteca Nacional. Enterneci-me. Comemorando o 25 de Abril, o estóico filósofo, 94 anos, ali estava junto ao jardim que relembra Mário Soares. Um país é feito de muita coisa: da sua história, da sua geografia, das suas gentes, da sua memória, dos seus desígnios mas quem consegue a fusão de todos os aspectos e sabe transformá-los na matriz genética do povo são as pessoas da cultura. Deles somos todos eternos devedores.


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Enquanto escrevia este post e escolhia as fotografias para aqui colocar, estive a ver uma entrevista de Vítor Gonçalves a Conceição Matos e Domingos Abrantes. E o que aconteceu foi que, a maior parte do tempo, parei de escrever para ouvir e ver com atenção o impressioante testemunho deste casal que suportou a tortura da PIDE e que sobreviveu, com inteireza e notável dignidade, para o poder contar. A quem não viu e possa fazê-lo, sugiro que use a box e tente ver o programa. É um testemunho absolutamente extraordinário. Toda a gente devia conhecer o que eram as práticas do regime anterior ao 25 de Abril para que não subsistam dúvidas.

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