Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, abril 30, 2018

A sorte. O acaso. A beleza. A felicidade.





Hoje foi um dia especial para mim por razões cá minhas. O programa não foi exorbitante nem a mim já me entusiasmam os programas exorbitantes: foi simplesmente tranquilo e simples que é aquilo que realmente aprecio e que transforma os meus dias em dias bons.


A Primavera, que anda chuvosa faz-se anunciar aqui, in heaven, através dos cachos de glicínias. São lindas e perfumadas, estas flores. Há alguns anos plantei uns dois ou três pequenos pés. Durante algum tempo não se deu por elas. Mal medravam. Eu regava-as, enchia-me de cuidados, tirando as ervas que despontavam à sua beira não fosse roubarem-lhe os sucos vitais da terra. Contudo, tal como aconteceu em todo o terreno, aconteceu aquele mistério que, até hoje, não consigo explicar. Parece que a terra se transformou e, apesar dos climas extremos que aqui acontecem, e apesar de eu não ser assídua na rega durante os verões de inclemência, a verdade é que os pés de glicínia tomaram o futuro nas suas mãos e desataram a crescer, vigorosos, enleando-se nos gradeamentos e nos portões, galgando alturas, trepando pela azinheira e pelo loendro, como intrépidas aventureiras, como se quisessem ganhar o céu.


Mas não são apenas as glicínias. As flores estão por todo o lado e eu encanto-me como um pássaro, deslizando entre elas. Não canto mas fotografo. Rendo homenagem à graciosidade que nasce da terra, milagres sempre merecedores de devoção. Gostava de ter alma de poeta, gostava de saber destilar a minha emoção e encontrar as exactas e puras palavras que saibam honrar a beleza em estado puro das flores. Mas não tenho esse dom.

Fico com vontade de voltar a pintar, de ter à minha frente uma tela gigante e desatar a lançar cores, a inventar formas e a lançar brilhos e pontos de luz em plena liberdade, sem ter que ser fiel à realidade nem a preocupação de agradar. Mas parei. Talvez um dia recomece. Sinto falta da suprema liberdade que sentia.


Fomos também dar um pequeno passeio. Parámos algumas vezes. Os campos estão lindos. À beira do rio, estes lírios ou orquídeas amarelas são de uma elegância e beleza raras e são-no tanto mais quanto são tão injustamente efémeras. Não há muito, ao passar por aqui, não existiam. E receio que, da próxima vez, já cá não estejam. Mas para o ano, assim o rio vá farto e vivaz como está este ano, cá estarão elas, sílfides etéreas procurando o seu reflexo da superície verde das águas. A natureza ressurge mesmo quando parece que se ocultou para nunca mais. 

Parámos também na curva da estrada, onde a encosta está cheia de papoilas e de malmequeres amarelos. Baixei-me para ver as flores como um pequeno animal as verá.


Crescem pela encosta, recortando-se, lá em cima contra o céu, ondulando ao vento, misturando o seu perfume com o dos pinheiros. Um cenário colorido, uma coreografia que o vento comanda.


Estava muito frio. Choveu muito de tarde mas, por momentos, o sol despontava, iluminando os campos floridos. Vendo as fotografias, parece que o frio não se percebe, parece que o ambiente é apenas solar, aberto aos prazeres calorosos da contemplação emocionada. Mas estava um vento frio e o meu marido, que tinha saído do carro pois tinha deixado de me ver, perdida que andava no meio das flores, começou a chamar-me, que estava muito frio para eu andar por ali.

Mas mais à frente, voltei a pedir que parasse. Uma grande árvore florida, no meio de um campo verde, à beira do rio, ali onde ele ia alto, quase a transbordar.


Pensei que seria capaz de ficar horas, em paz, em frente desta árvore. A música da água que corre, a música do canto dos pássaros, a música do vento nas ramagens das árvores, a tranquilidade do verde pontuado de branco, tudo aquilo me parece a imagem perfeita da consubstanciação dos elementos da natureza, a harmonia abstracta feita matéria.

É preciso tão pouco para eu me sentir feliz. A beleza enche-me de felicidade.



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Penso, por vezes, que o nosso destino resulta da forma como reagimos aos sucessivos acasos que se nos vão deparando, das escolhas que fazemos perante esses acasos -- e que a felicidade reside na sorte que se tem com a escolha dos caminhos e na vontade de ir em frente não pensando, com mágoa ou arrependimento, nos caminhos que vamos deixando para trás.

Mas, enfim, cada um sabe de si e eu não sou dada a filosofar, muito menos sobre temas tão íntimos.


Be happy
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