Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, abril 25, 2018

25 de Abril





Oito das minhas unhas das mãos estão pintadas de cor de cravo. A menininha linda pediu se, depois de jantar, me podia maquilhar. Foi buscar a caixa e sarapintou-me. Depois pediu que a pintasse eu a ela. Assim fiz. Logo, de seguida, pediu para me deixar pintar-me as unhas de cor de cravo. Deixei. O mano do meio tinha ido buscar a guitarra e tocava e cantava uma sentida balada, alto e bom som. E o bebé trepava para cima de tudo, abria todas as portas, tentava tirar tudo de dentro dos armários, abrir todas as gavetas enquanto eu tentava impedi-lo. Portanto, no meio daquilo, não me sobrava capacidade de reacção para argumentar. 

À hora de jantar já o bebé tinha partido um prato. Tínhamo-nos esquecido que com gentinha miúda deste calibre ou os pratos são de plástico ou temos que ficar agarrados à louça. Depois de ter jantado um prato de sopa, um prato de arroz e frango assado e um kiwi, não descansou enquanto não comeu mais arroz e mais frango. E eu a dar atenção aos manos, num segundo descurei o prato à frente dele e pimbas, no chão. E ele a rir.


Depois fez cocó. Levei-o para a sala para lhe mudar a fralda e, no segundo em que vim deitar fora a fralda e o deixei à guarda da irmã, ouvi-a a chorar, desesperada aos gritos: 'Alguém vem aqui depressa?'. Assustada, larguei tudo e fui a correr. Estava ela a chorar e ele a rir. 'O que foi?'. 'Foi ele que me mordeu!'. Levantei a blusa para ver. A maminha toda encarnada. 'Mas porque é que ele fez isto?'. 'Porque estava a abrir o armário e eu não deixei porque ele queria tirar uma garrafa e ele mordeu-me'. Lá fui pôr-lhe água na maminha. Enquanto isso já o bebé estava a trepar para um banco. E eu a gritar pelo meu marido para vir tomar conta do bebé. Lá veio, lastimando-se: 'Pá... gostava de jantar...'. 

Resolvemos ir passear com eles: muita gente na rua, música, ambiente de festa. O meu marido com o bebé ao colo, eu agarrada aos dois que tremo de os perder de vista. Uma alegria para eles. Depois ela quis uma bandolete com luzes da kitty ou da minnie (não sei de qual) e ele uma espada com luzes. O bebé perdido de sono mas de olho aberto. Por ali andámos até que achámos que já tinham sentido o espírito de festa. Resolvemos regressar, os mais crescidos todos contentes e o bebé meio a dormir, meio a espreitar o que se passava.


Em casa, tentei adormecer o bebé mas está quieto. De cada vez que me via a querer pôr-lhe a chucha desatava a fugir. Os manos puseram-se a ver televisão. E ele a subir e a descer do sofá, a rir, a desafiar os outros. Peguei-o ao colo, embalei-o. E ele de olhos quase fechados, a adormecer. Mas, logo de seguida, cuspia a chucha, sentava-se, ria e aí vai ele a abrir portas, gavetas, a gozar, todo brincalhão. 

À meia-noite vieram os pais e ali estavam os três ainda a pé: a mais velha de bandolete a piscar, o do meio com espada luminosa e falante e o bebé a andar de um lado para o outro a rir. 

Depois estivemos à janela a ver o fogo de artifício porque daqui conseguimos vê-lo e, para eles, é sempre uma festa.

Ela contou-me qualquer coisa do Dia da Revolução, salvo erro que fez um desenho em que saíam cravos das espingardas. 


Queria ter cantado o Grândola mas eles já estavam com sono demais para isso. 

Há muitos anos foi esse dia 25 de Abril e tomara que todos os meninos saibam sempre como foi importante que tenha havido essa revolução que trouxe luz, alegria e esperança a este país que era cinzento, velho, baço, rançoso, sem futuro.

Ainda há muita gente que conserva esse espírito. E é pena. A democracia e a liberdade são coisas boas e é bom que a gente as respeite e preserve na sua pureza original. E é bom que as saibamos ir interpretando à luz da modernidade para que nunca se abra espaço para a sua negação.


Ensinei o bebé a levantar o punho quando eu dissesse 25 de Abril sempre mas, quando os pais chegaram, talvez por estar passado de sono, recusou-se a mostrar a gracinha. O meu filho gozou: 'Não te está a correr bem, mãe'. Mas aposto que hoje, bem dormido, deve fazê-lo. 

Gostava que os meus queridos cinco pimentinhas guardassem sempre, dentro deles, este slogan: 

25 de Abril sempre!