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sexta-feira, março 09, 2018

Algumas mulheres:
ladras, doridas, muito bonitas, sem maquilhagem, com mais de 100 anos, diseurs de poesia e capazes de tudo por amor


Tenho conhecido tantas mulheres, tantas com vidas complexas, que poderia ter um blog só a falar delas.

Estou a lembrar-me de uma que conheci de perto, durante anos e anos. Trabalhava na mesma empresa que eu. Era exemplar, a Luisinha. Nunca nada ali falhava. Não protestava com nada. Sempre com um sorriso nos lábios, despachava trabalho a um ritmo impressionante, como uma máquina. Lembro-me de uma vez ter dito ela ao meu colega, chefe dela: 'É uma máquina, ela'. Ele sorriu e disse: 'Um avião'. Tinha um rosto engraçado, usava o cabelo muito curto, pintado de louro platinado. Não sendo uma miúda, longe disso (um dia soube que tinha um filho já na universidade o que me deixou perplexa), era  alta e esguia e de tal forma que, com o maior dos à-vontades, vestia mini-saias ou jeans justíssimos, tops transparentes e decotados. Numa outra qualquer o que ela vestia torná-la-ia escandalosa. Mas nela aquilo não gerava escândalo. Mas gerava espanto. No entanto, por algum motivo que nunca percebi muito bem, não era sexy. Acho que lhe faltava aquela malícia e apelo de sedução que torna as mulheres atraentes. 

Um dia, pouco tempo de eu ter mudado de empresa, encontrei um ex-colega que me pôs ao corrente das novidades: a Luisinha tinha sido despedida. Fiquei sem conseguir acreditar. Ele disse-me que toda a gente reagiu assim: ninguém conseguia acreditar. Explicou-me. Tinha desviado bastante dinheiro. Eu estava atónita. Nunca, na vida, poderia imaginar tal coisa. Era uma pessoa do mais sério possível. Numa empresa sujeita a sistemáticas auditorias, nunca nada ali se afastou um milímetro dos procedimentos estipulados. Contou-me ele. 'Coitada. Tinha o marido desempregado. Queria que não faltasse nada em casa, sobretudo ao filho que ela queria que vivesse uma vida confortável'. 

Até hoje não me esqueci disto. Anos a ser uma profissional séria e exemplar e acabar assim, despedida por roubo. Imagino o vexame pelo qual passou. E imagino o sofrimento dela a querer manter o nível de vida anterior, com o marido desempregado. Situações impensáveis.

Também me lembro da mulher que um dia, no jardinzinho onde eu estacionava o carro ao fim do dia, veio ter comigo e, do nada, me disse que lhe tinha morrido o filho com quem vivia e que não conseguia ir para casa. Eu conhecia de vista o filho. Andava às vezes a passear com a mãe. Teria ele uns trinta e muitos ou quarenta e tinha um ar um bocado estranho. O meu marido dizia que ele devia ser drogado. Não sei se era. Trazia geralmente uma boa máquina fotográfica e por ali andava a fazer fotografias na companhia da mãe. Perguntei-lhe se ele estava doente. Ela disse-me que sim, que estava no hospital mas que ela não tinha percebido que fosse grave e que nunca lhe tinha passado pela cabeça que ele pudesse morrer. Chorava, com a voz presa. A amargura dela era contagiosa. Disse-me que ia todos os dias ao cemitério e que andava pela rua porque não conseguia ir para casa. Já passaram alguns anos. Via-a todos os dias. Depois daquele período em que a via sentada, de luto, ausente, aos poucos foi parecendo retomar a normalidade. Depois deixei de vê-la. Há muito tempo que não a vejo. 

Enfim. Não vou continuar no tema. São tantas as mulheres que tenho conhecido que tenho dificuldade em encontrar um fio condutor para escolher uma ou outra para aqui as juntar.

Muitas não são perfeitas. Aliás, quase nenhumas são perfeitas. Mulheres de verdade não são perfeitas. Mas cada uma tem a sua história e todas as histórias de vida são especiais.

Está a acabar o dia 8, o dia da Mulher e dia que cada um comemora como quer. Há pouco, ao fazer uma caminhado nocturna fui surpreendida com magotes e magotes de mulheres, todas numa animação festiva, a entrarem para um restaurante. Penso que se sentiriam esfusiantemente livres. Mas, para estarem naquela animação, se calhar é porque nos outros dias não se sentem livres.

À hora de almoço, num centro comercial, vi uma longa e ruidosa fila de mulheres que, desde o corredor, entrava para uma loja. Vi pelo cartaz que estavam a oferecer uma loção corporal. 

Na caixa do correio tinha um mail que me enterneceu, com bouquets de violetas. E tinha um outro, transcrevendo um artigo do The Guardian, falando de Hedy Lamarr. Ontem tinha recebido um outro com um vídeo sobre a Ethel Kennedy, dizendo: A Ethel tinha a dose de loucura certa e uma forma de estar.... Isto para lhe dizer que, por vezes, ao ver videos deles comparo a Ethel consigo.

E eu, escrevendo isto, penso nas histórias de algumas Leitoras, tantas vezes tão tocantes, que tenho sabido por elas. Gostava de também aqui poder contar as vidas difíceis, insuportáveis, de algumas delas. Ou vidas intensas, quase demasiado intensas. Obviamente não conto. Do que sei guardo absoluto segredo. A menos que alguma me autorize, jamais divulgarei uma palavra que seja. Mas, no silêncio do segredo que guardo, penso muito em tudo o que vou conhecendo.

A vida das mulheres é tão multifacetada, tão cheia de zonas de sombra e de segredos, tão cheia de inesperados momentos, tão cheia de sonho, de saudades, de incertezas, de angústias...

Se as mulheres de todo o mundo dessem as mãos pintariam o mundo com a magia que transportam nos seus corações, envolveriam o mundo com o amor que transborda das suas mãos, iluminariam o mundo com a luz que brilha no seu olhar. Amparar-se-iam, cantariam, fariam crescer flores e frutos da terra árida, caminhariam sobre os rios, voariam sobre as montanhas.


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Alguns vídeos ao acaso

Sobre mulheres ditas sobreviventes (e outras)



Mulheres sem maquilhagem


Como sentir-se bela, segundo mulheres com mais de 100 anos


A mulher que dizia poemas


E tu? o que farias tu por amor?


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Vivam as mulheres.

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Com excepção da fotografia da Charlize Theron, as restantes são da autoria de Henri Cartier-Bresson

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