Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, setembro 25, 2017

Panorâmico de Monsanto: a beleza e a tristeza da decadência


No post abaixo poderão ver a extraordinária vista a partir do Panorâmico de Monsanto, o primeiro dos três edifícios que visitámos durante este dia de domingo, no âmbito do Open House Lisboa.

Aqui, agora, vou tentar dar uma ideia do estado de triste abandono a que está votado há anos depois de nenhum destino lhe ter assentado bem. 
Fez-me lembrar aquelas mulheres muito bonitas e desejadas, as Marilyns desta vida, que toda a gente acha belíssimas e que, não obstante, não conseguem acertar na companhia, não alcançam uma vida feliz, sentindo-se frequentemente solitárias, mal amadas e tendo, frequentemente, destinos trágicos ou, pelo menos, desoladores. 
Assim o Panorâmico: talvez belo demais, talvez bem situado demais, talvez com uma vista deslumbrante demais, talvez com demasiado potencial. 

E, no entanto, quanta beleza na sua decadência. Abandonado, maltratado, riscado, partido... e cheio de vida impressa nas suas paredes. E tão elegante nas suas curvas, no equilíbrio dos seus volumes, na distribuição entre desníveis e recantos, no balanceamento feliz entre a luz e a sombra. Tão belo apesar de tão sem destino, tão sedutor apesar de tão esquecido, tão promissor apesar de num tão triste estado de acentuado declínio.

O que eu faria com ele se pudesse decidir já o disse no post abaixo. Não há dinheiro? Há. Há sempre dinheiro quando o retorno é garantido. Mesmo em épocas de crise (e estamos a sair dela), dinheiro é o que não falta para bons investimentos.

Não falei ainda de um outro aspecto: o local em que está implantado. No meio da Serra de Monsanto, num dos seus pontos altos, entre arvoredo, frondoso arvoredo. Um local que parece fora de Lisboa. E, no entanto, dentro de Lisboa. Dali deveriam partir caminhos pedonais, caminhos para bicicletas (até caminhos para se andar a cavalo ou de atrelado).

O Panorâmico de Monsando deveria ser um ex-líbris de Lisboa e não a quase ruína que é.


Mas vejam o que os meus olhos viram.

























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Vejo um lugar assim e, apesar de me deixar entusiasmada com tanto que ver e fotografar, sinto pena. Penso que, com excessiva facilidade, se deixam perder preciosidades que, em tempos, alguém sonhou e desejou. Penso que se deixam perder oportunidades que, certamente, outros agarrariam e estimariam. Que se deixam perder ideias, riquezas, tesouros -- como sempre o fizemos, nós os portugueses que parece que nos desinteressamos da nossa história e das nossas heranças e que, desprendidamente, tudo deixamos esvair por entre os dedos. Perdem-se as memórias e os valores e nem se percebe porque se perdem. E o tempo passa e vai levando consigo quem se lembra dos sonhos que em tempos alguém sonhou. Ficam, depois, apenas frágeis memórias.

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Nem sei se vem a propósito mas apetece-me ouvir:

"What We Lost" de Michael Ondaatje (lido por Tom O'Bedlam)



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Pensava que teria tempo para falar dos dois outros lugares que visitei mas fica para amanhã
(embora um ou outro tema da actualidade me estejam a convocar).
Verei como me organizo.

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E queiram, por favor, continuar a descer para testemunharem as belas paisagens que do Panorâmico se avistam

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