Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, agosto 05, 2017

Estrelas cadentes, desejos, afectos, solidão -- coisas assim
[Com um desfecho inesperado]





Até fiz uma gravação. Se não fosse uma preguiçosa, até aqui a publicava. Mas as manobras de passar o vídeo para o youtube parecem-me cansativas demais para a vitalidade de que, a esta hora, disponho. Mas conto o que eu lá dizia: vínhamos para cá, eu meia a dormir, e o meu marido chama-me: Olha! E olhei e vi uma estrela cadente. Um rasto de luz atravessando o espaço. Pensei que devia pedir um desejo e, então, pedi os três do costume. Depois pensei que a coisa não devia ser bem assim, a estrela não devia despenhar-se no chão senão havia borrasca pela certa -- que apanhar com uma estrela em cima não devia deixar o que estivesse por baixo em grande forma. Fui informar-me e, de várias fontes, transcrevo o que fiquei a saber:
Meteoro, chamado popularmente de estrela cadente ou estrela fugaz, designa o fenómeno luminoso observado quando da passagem de um meteoroide pela atmosfera terrestre.
Ao atingir a atmosfera, a velocidade média da estrela cadente é de 250 mil km/h. A maioria delas são totalmente desintegradas antes de chegarem ao solo, normalmente entre os 90 e 180 km acima da superfície terrestre.
Aliás, do ponto de vista científico, caso o corpo celeste consiga atingir a superfície da Terra a sua nomenclatura muda, passando a ser chamado de meteorito. O termo meteoro ou estrela cadente costuma ser usado apenas para as partículas cósmicas que se desfragmentam totalmente quando entram em contato com a atmosfera terrestre.
Reza uma lenda ocidental que os deuses, muito curiosos, para saber como era a vida na Terra, punham-se a olhar para baixo, e nestes momentos podiam fazer deslizar uma estrela. A estrela cadente simbolizava, portanto, o momento exato em que um deus estava olhando para baixo, por isso criou-se a lenda de que era um bom momento para fazer um desejo, pois ele seria ouvido e realizado.
Vim feliz da vida durante o resto do caminho por ter visto a estrela que não era estrela e por ter aprendido isto. 


Depois de termos arrumado os mantimentos no frigorífico e etc, vim pousar-me aqui. Tenho sempre vários mails. Gosto de os ver a todos mas, tarde como é, para ter tempo de aqui escrever não consigo tempo para lhes responder. Um deles comoveu-me. Tinha fotografias de uma pequena casa numa árvore no meio de uma serra de onde se podem contemplar múltiplos horizontes. Era a propósito de eu, numa noite muito complicada, ter escrito que gostava de escrever sobre as casinhas nas árvores (e acho que deixei perceber que gostava de aqui, in heaven, ter uma). Fiquei a olhar as fotografias com uma emoção talvez inusitada. O encantamento em que fico com coisas assim não o sei explicar.

No deve e haver da minha vida acho sempre que recebo mais do que dou. Talvez por isso tenha sempre em mim este quase insconsciente sentimento de agradecimento.


A semana passada voltou a ligar-me o meu ex-colega que está muito doente, aquele que tem uma doença degenerativa que o condiciona severamente. Pela segunda vez, pedia-me que lhe arranjasse uma consulta de uma determinada especialidade, não relacionada com a principal doença mas para um outro problema que também o condiciona bastante. Como quase não se percebe o que diz e como vive sozinho, penso que não consegue aguentar-se com as marcações via contact center nem deve ter mais a quem pedir. Penso, mas não estou certa. Não questiono. Ele pede-me e eu faço. Na quinta-feira ligou-me de novo. Fico sempre numa aflição porque são chamadas longas em que percebo apenas uma pequena parte e, como não quero dizer-lhe que não percebo, tenho que accionar um descodificador mental para conseguir discorrer o sentido da conversa a partir de uma ou outra palavra que perceba. Pensei que, às tantas, tal como na vez anterior, à última hora tinha desistido. Mas não, era só para me dizer que no dia seguinte, tinha, então, a tal consulta e que estava esperançoso, que acreditava que o médico ia arriscar e operá-lo, que estava desejando de lá ir. Ouvi vozes à sua volta. Perguntei-lhe onde estava. De vez em quando, percebe-se melhor o que diz. No outro dia disse-lhe que estava a percebê-lo melhor e respondeu que é quando está sob efeito dos comprimidos. Respondeu-me, então, com aquela sua voz entaramelada, que tinha ido ver a mãe ao lar. Fiquei admiradíssima. Perguntei que idade tinha a mãe. 94. E que estava melhor que ele. Com aquela ironia dele, acrescentou: Sempre a acusar-me. 'De quê?!' E ele: De tudo. Volta e meia, não me conhece e passa o tempo todo a dizer-me mal do filho. Quando me conhece, acusa-me, diz que a culpa é toda minha. Não sei de que é que sou acusado, se é dela já ter 94 anos, se é de eu estar doente, se é a de a minha mulher me ter deixado. Depois pergunta-me pela família, a memória intacta, o nome dos meus filhos bem presente. Mas sinto que a pergunta é sobretudo um pretexto para se queixar da filha que vive fora e do neto que vê apenas uns dias por ano. Diz que o menino é vivo, esperto, mas que fica sempre um bocado estranho porque vê muito pouco o avô e porque vê o avô naquele estado. Fico sempre com muita pena. Não é só dele, é de todas as pessoas que se vêem sozinhas, debilitadas, a perceberem-se a caminhar para um estado de dependência. No entanto, no meio daquele amontoado de palavras em grande parte incompreensíveis, noto sempre o seu antigo e ainda presente sentido de humor.


Hoje, ao fim do dia, ligou-me de novo. Todo contente. Que tinha gostado muito do médico, muito atencioso. Diz que, por ele, opera e escreveu uma carta para o colega, para que o colega saiba os riscos que ele identifica. Tem riscos mas, se não operar, dentro de dois ou três anos não ando. E eu se não ando, morro. Agora é que me custa cada vez mais que eu, antes, era um galdeirão. Por isso, agora vou ao meu médico a ver o que ele diz. Depois, ligo-lhe a si também para me aconselhar. Não posso fazer ressonâncias magnéticas. E a primeira operação pode não resultar e ter que fazer uma segunda. Mas eu não me importo. Ficar sem andar é que não. E eu ouço e fico numa apreensão, porque o mal dele, o outro, o principal, que é progressivo, também condiciona, e não é pouco, o andar. Mas ele passa por cima disso e agarra-se à esperança de ficar melhor. Tomara que sim. Tomara.


Entretanto, anuncia-se outro fim de semana de calor. É assustador. O mundo não tem cuidado de se preservar. O que há uns anos parecia um prenúncio de terror -- antevendo-se, no futuro, altas temperaturas, secas extremas, o solo gretado -- começa a ser uma realidade. E o terror é tanto maior quanto o gelo, ao derreter, está a deixar à vista os corpos de gente que estava desaparecida há décadas. Antes tinham sido encontrados um casal suíço e dois soldados austríacos da Primeira Guerra Mundial. Agora mais um homem, nos Alpes. O passado regressa para nos lembrar que, durante este tempo todo, andámos a violentar o equilíbrio do planeta. Como é que o mundo não acorda de vez para a necessidade de repensar este modo de vida absurdo e não elege como uma das prioridades máximas a de tentar preservar o respeito pela natureza? Como é que os americanos foram eleger aquele anormal que faz gala em mostrar que se está a marimbar para este tipo de questões? E como é que, depois do que já viram, não arranjam maneira de correr de lá com ele? E a China, com as cidades a rebentarem pelas costuras, quando é que põe em prática os princípios que já percebeu serem incontornáveis?


Mas, enfim, a esta hora já é sábado, não é dia para estar com conversas soturnas. Daqui a nada tenho que estar a pé a limpar a casa, a preparar refeições, a adiantar tudo para, quando chegarem, ter todo o tempo do mundo para eles.

Por isso, fico-me por aqui. Termino com um vídeo extraordinário. Mesmo quem não é dado a ver vídeos, acho que deve ver este. Delicioso. Aliás, mais do que isso. Uma graça e muito, muito trabalho. E muito, muito talento que, para fazer o que aqui se faz, apesar de parecer uma brincadeira de amigos, é preciso ser-se muito bom.

When someone asks if you work out



São eles Harper Watters & Rhys Kosowski do Houston Ballet 

As fotografias são algumas das vencedoras do National Geographic Travel Photographer of the Year 2017

Lá em cima era Bernardo Sassetti em Sonho dos Outros (Timbuktu Solo Sessions #5)

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A si, Caro Leitor que está aí desse lado, desejo um sábado muito bom.

E vai com um abraço, esse meu desejo.

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