Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, agosto 06, 2017

Dia de verão in heaven.
Conversas soltas




A sala tranquila, na televisão qualquer coisa a que não presto atenção, luz apenas aqui onde escrevo. Para variar, depois de uma manhã a cozinhar, de uma caminhada em passo apressado que o pessoal estava quase a chegar e depois de um dia muito bem passado, sol, ternuras, alegrias e muito verde, chego aqui a este recanto e é uma quebreira. É o mal de apenas escrever depois de tudo o resto, quando o dia terminou e a casa está em sossego. Sempre assim foi. Por algum motivo, parece que o dia não está completo se não tiver estes momentos só meus, de preferência sem ninguém por perto, apenas eu e o que quero fazer com o meu tempo, eu e as minhas mãos. Se pensar nisto, acho que sempre tive necessidade de produzir qualquer coisa. Fazer tapetes, bordar, fazer camisolas, pintar, escrever. A excepção é a leitura, é um prazer mas apenas consumo, não produzo. A leitura é quase como respirar, saber dos meus: imprescindibilidades. A questão é que tudo isto só pode acontecer à noite e o prazer de fazer mistura-se com o cansaço, com o sono. Mas é assim, nada a fazer. Não é coisa que eu consiga gerir melhor pois, mesmo que tenha tempo durante o dia, ocupo-o com outras coisas (apanhar figos, andar a apanhar amoras e a comê-las mornas e doces, varrer, tirar fotografias) e, à noite, tarde e más horas, aqui estou, cansada e ensonada, como se estivesse a cumprir um castigo -- quando, afinal, é pura opção e puro prazer.

Enfim. Idiossincrasias.


Depois de muito brincarem e de, a meio da tarde, lancharem (Tá, se faz favor, pão com queijo fresco, tomate e azeite acompanhado de sumo e, a seguir, iogurte) e de, mais tarde, no meio do trabalho (apanha e transporte de caruma), terem ficado outra vez com fome (pão igual, se faz favor, Tá) e de, já noite, terem tomado um banho, chegaram à mesa e atiraram-se à  pratada que tinham à frente e ninguém mais os ouviu. Ri-me. Que silêncio... Então ninguém diz nada? O mais velho olhou para mim, pensativo, e disse: 'Obrigado'. Desatámo-nos a rir. Obrigado...? Mas obrigado porquê?. Com um gesto largo de mão mostrou o prato e a comida disponível e disse: 'Por isto tudo...'. Meu lindo menino. Fiz-lhe uma festa. No fundo, senti-me agradecida por ele reconhecer e agradecer a comida que eu tinha preparado; e nem é pela comida, claro, mas pela motivação que sinto quando estou a cozinhar para eles e que talvez ele, ao escolher, com entusiasmo e apetite devorador, o que pôr no prato, tenha pressentido o prazer com que a sua Tá tinha conficcionado tudo aquilo.


De tarde, enquanto andavam entretidos nas suas brincadeiras e labutas e os crescidos também, ainda consegui ler um pouco: o último de Eduardo Lourenço sobre pintura. Gosto de ler sobre pintura. E agora, antes de abrir o blog estive a ler a entrevista de Maria Teresa Horta no Expresso online


Já fez tudo o que tinha para fazer?
Não. Estou a fazer outro livro neste momento. Escrevo todos os dias três a quatro poemas. Acordo de noite com a poesia, e tenho de me levantar e escrever para não a perder, mas depois já não consigo adormecer. No dia seguinte, as frases ficam em cima das frases, versos e versos, já não me entendo. Escrevo no colo, os poemas andam aqui pela casa. Não uso mesa, máquina, computador... Quando os perco, entro em perfeita loucura. É como se me tirassem um pedaço, um pedaço do coração, e já não respiro. Fica tudo aterrado cá em casa. Fico doida. É como se fosse o poema mais maravilhoso que já escrevi e mais nenhum poeta o teria escrito. Procuro debaixo das coisas, viro tudo... Quando o encontro, pronto, já não ligo mais. Isto é essencial na minha vida, esta é a minha vida, mas levanto-me cedo, cozinho, lavo, engomo...
Se eu tiver que referir um escritor português vivo é nela que penso em primeiro lugar. Gosto muito da sua poesia. Devia ganhar o prémio Camões. E o Nobel. Há nela uma invulgar força poética, um domínio superlativo da arte de entretecer palavras seguindo uma linha melódica -- e uma história (nem que seja apenas a história da sua extraordinária paixão pelo marido, o Luís de quem ela fala sempre com um inquebrantável amor).

Gostava que a Maria Teresa Horta escrevesse um livro de poemas sobre a Paula Rego e gostava que a Paula Rego pintasse uma série de quadros sobre a Dama e o Unicórnio ou sobre as Anunciações. Penso que são ambas figuras maiores da arte em Portugal. Não vejo artistas-homens vivos que ombreiem com elas.



À tarde, a minha filha disse-me, enquanto apanhava banhos de sol e eu lado os apanhava também, e enquanto lia uma revista que, a propósito daquilo do bigode do Dali estar impecável, o pénis do Napoleão parecia um pénis de um pin y pon. Fui agora ver ao google e aparecem coisas do além sobre o tema como que o dito orgão apareceu muitos anos mais tarde, creio que pelos anos 70 do século passado, num leilão e que parecia um pequeno cavalo marinho meio encarquilhado, coisa para menos de 3 cm.

Mas contou também (porque leu) que o Farinelli afinal era uma mulher, castrato coisa nenhuma. Ora que o pénis do Napoleão fosse um apêndice atrofiado não me surpreende por aí além mas que o Farinelli, afinal, fosse uma mulher, isso já me espanta já que não tenho ideia de tal ter ouvido dizer. Agora pesquisei (pesquisa pouco aturada, confesso) e não vejo referência a tal coisa. Alguém sonhou com a genitália Farinellica e lá vai disto: artigo de revista com ele.

Tirando isso.

Este domingo espera-me mais um dia de trabalho, de limpezas, dentro e fora de casa, coisa que farei de gosto. O meu marido continua a embrenhar-se no mato. Tremo de vê-lo avançar armado de catanas e podões quando sei que o seu foco é limpar o terreno e ponto final e que, para ele, um pé de alecrim ou de rosmaninho é mato e tudo o que eu disser em contrário é música celestial que lhe entra por um e sai pelo outro. Mas não posso andar atrás dele, a vigiá-lo dos seus ímpetos de vandalismo contra a natureza, pois tenho a minha agenda mais do que preenchida. Entrego pr'a Deus a vigilância sobre ele, impedindo-o de devastar ervas aromáticas, flores campestres e arbustos inofensicos.

De tarde, se tiver tempo, quem sabe não me ponha a pintar. Mas os domingos são dias de hiperactidade com visitas familiares, trabalhos extra e sei lá que mais. Por isso, dará para o que der. Embora, eu deseje que, no meio de tudo, ainda me dê para estar tranquilamente, nem que por breves instantes, à sombra do pinheiro, aspirando este ar tão limpo e tão perfumado, os pés sobre a caruma, sem pensar em nada, apenas ouvindo os pássaros, sentindo a suave aragem. Existindo como um simples animal.


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A todos vós, meus Caros Leitores, desejo um belo dia de domingo.

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