Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, agosto 15, 2017

Estivália





Agora em casa. Na televisão, o futebol. Desde ontem que eu estava a ser avisada que, desse por onde desse, a esta hora teríamos que estar em casa, que dava o sporting. Cá estamos. 

Estou de costas para a televisão. Trouxe o cadeirão baixinho para junto da janela que está aberta, trazendo do rio a aragem fresca.

Entardece devagar e a luz dourada vai pousando sobre a cidade. No outro dia, saindo pela Vasco da Gama, reparámos como estava branca a magnífica cidade. A luz branca, as casas brancas. Uma nesga branca ao longo do rio. Uma beleza flutuante de tão requintada e etérea.

Da família chegam-me notícias de férias. Está toda a gente de férias menos nós. Todos os que podem, claro, que a alguns a idade e a condição física já não dá para deslocações nem o conceito de férias se aplica na sua dimensão quotidiana.

Ontem ao fim do dia encontrámo-nos, nós e a ruidosa descendência, vinham eles da praia e nós do trabalho. Estivemos numa esplanada. Quatro meses juntas. Só se faz silêncio enquanto devoram caracóis, caracoletas, choco frito, pregos, bitoques. Logo que saciados, a tropa miúda levanta-se e correm e brincam e enchem de alegria todo aquele espaço que, felizmente, é amplo. E vá lá que estávamos numa ponta. Lembro-me, por vezes, que pode haver quem ali esteja querendo curtir a frescura do anoitecer em sossego. Mas é impossível mantê-los calados. So  o bebé ainda se porta bem-comportadamene. Ali mesmo comeu uma tigelona de papa, que lhe dei, consolada. De penalti despachou tudo. Sempre a rir. Já no fim, já todos de pé e os pimentinhas a brincarem, estavam uns quantos em cima de um banco de jardim. O meu marido agarrou num e ia dar-lhe um calduço, na brincadeira. Susteve-se à última hora, no justo momento em que, quem observava, o avisasse: 'esse não é nosso'. Era um outro miúdo que se tinha juntado à brincadeira.


Hoje fomos os dois caminhar na praia. Enquanto estava na água, reparei numa gaivora muito branca que dançava perto de mim. Depois veio à água e voltou a subir. A luz fazia-a recortar-se sobre o azul, ressaltando o branco reluzente. Tive pena de não poder fotografar. Também tive pena de não me pôr a fotografar os corpos transformados com que me ia cruzando. Espanto-me com a crescente invasão de tatuagens. Desfeiam os corpos. Uma rapariga com o corpo coberto com um pintura em negro, como uma renda. Podia ser bonito mas é tão estranho. Outros quase têm uma banda desenhada, tanta a bonecada. Um homem de aspecto normal, meia idade, com riscas às cores nas costas. Quase sinistro de tão louco. Não percebo esta moda.

Almoçámos por lá e, a seguir, já com máquina fotográfica, fomos fazer uma nova, embora curta, caminhada. As fotografias engraçadas que se conseguem fazer. Mas as mais engraçadas não as quero mostrar para que não pareça que estou a parodiar (quando, afinal, me limito a fixar o que vejo). Hoje vi uma rapariga gordinha, baixinha, com calções despropositadamente curtos e justos, com o cabelo pintado de fúcsia, com uns óculos escuros redondinhos. Parecia uma fantasia animada. Ao lado, um casal, também baixinhos e gordinhos, ar muito convencional e diria, vagamente provinciano e, no entanto, armados em góticos, todos de negro, quase siameses, de mão dada. Uma perfeita contradição dos termos. Se vestidos com trajes folclóricos haveria coerência mas, assim, qualquer coisa parecia não bater certo. E um homem de uns sessentas, muito pintas, todo muito arranjado, armado em atleta, com uma calmeirona, metade da idade dele, escultural, espampanante, muito morena, lábios inflados, completamente descapotável, cabelos pretos escorridos até à pela cintura que ela, ar pretensamente sexy, tombando a cabeça de lado, puxava para que se alojassem sobre um dos ombros. Não a ouvi falar mas juraria que era daquelas brasileiras que conseguem embeiçar portugueses babacas. E tantas mais figuras curiosas.


Começa a escurecer. Ainda não acendi a luz mas já não se vê lá muito bem. Tenho que parar de escrever.

Vou ler. Estou a gostar do livro que agora tenho em mãos. Leitura prazerosa, suculenta de boa. Gosto destes dias tranquilos, gosto de escrever e de ler enquanto sinto o frescor delicado que vem lá de fora. É época estival e eu já devia estar de férias. Mas, enfim, não tenho de que me queixar. Está-se bem.

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Lá em cima é Tell Me All About It interpretado por Laura Fygi & Michael Franks sobre fotografias de Michael David Adams.

Sobre os bacanos de pedra que aqui partilho convosco, transcrevo o que leio no Bored Panda:

In 2012 French photographer Leo Caillard partnered with the Louvre Museum for a project in which he makes classic statues "wear" modern-day clothing.

For the creation of "The Hipsters in Stone" art series, Caillard first photographed the statues, and then asked his friends to pose in the same position but with clothes like jeans, flannel shirts and even Ray Ban sunglasses. Then he finished his project with Photoshop.

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Até já. 

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