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terça-feira, agosto 15, 2017

A janela


Anni Leppälä -- Window (forest), 2009 



Encostas-te à janela e contemplas a noite mas não é à janela que te encostas nem a noite que contemplas. Fantasias. E, contigo, fantasias é verbo e é substantivo. As mãos cheias de letras, de palavras: de nada. A noite é lonjura. Em vão chamas mas não sabes por que nome deves chamar. Procuras o perdão para o remorso que te devora mas não é o perdão que procuras pois o orgulho devora-te o remorso. Frágil, frágil o teu amor. Forte, mais forte o teu orgulho. Mas dizes que não. Dizes que é saudade, simples saudade, que logo passa. E não sabes dizer de outra forma o que te toma a toda a hora, todos os dias, todas as noites, porque nada tem nome, nada tem hora.

Caspar David Friedrich -- Woman at the window

Alguém vive dentro de ti e invade a tua alma e agarra o teu coração e incendeia a tua carne. Espreitas pela janela. Do lado de lá apenas a noite por onde se arrastam os fantasmas, deixando vestígios de rosas intagíveis. Mas não são fantasmas, são sonhos, desejos. Fechas os olhos, inventas outras vidas, imaginas guirlandas nos cabelos do longínquo alguém que o teu coração ama. Flor a flor, carícia a carícia, colocas com desvelos afagos nos cabelos que nunca sentiste nas tuas mãos vazias.

De pé junto à janela. Os teus braços cruzam-se em torno de ti. Simulas o abraço que tarda em chegar. Lágrimas silenciosas que ninguém vê. Escreves cartas. Muitas cartas. Nunca as envias. Inventas vidas. Falas de ti e só tu sabes como tu, inteiro, ali estás, disfarçado de outro. 

Encostas-te à janela. Tu. Fechas os olhos. Sonhas que habitas a beleza que o distante alguém constrói no seu mundo onde tu não cabes. Frágil mundo, tão frágil. Frágil amor. Oh abençoado amor que tanto e tão sem esperança amas.  Oh amor feito de palavras, oh amor que não sabes amar. Vem contemplar a luz. Vem aprender a amar.

Victor Pasmore -- The Window
Why do you stand by the window
Abandoned to beauty and pride
And the whole broken-hearted host
Gentle this soul
And come forth from the cloud of unknowing
Then lay your rose on the fire
The fire give up to the sun
The sun give over to splendour
In the arms of the high holy one
For the holy one dreams of a letter
Of the word being made into flesh
Oh chosen love 


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E já que hoje me deu para transliterar letras de canções, e sem cuidados o fazer e sem pudor me apropriar de palavras que outros cantam, também sem pudor o convido a si a descer até ao que abaixo se segue, uma outra canção de amor. Stranger's Kiss

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