Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, agosto 07, 2017

Roupa estendida ao sol, intuição para a felicidade, Putin à pesca, um cão a fazer surf, um urso a fazer ballet e etc.
[Ou seja, um pot-pourri à moda de Um Jeito Manso]





Pintar...? Está bem, está. Passa da meia-noite e só agora é que consegui aqui aterrar depois de um dia de intensa actividade física. Volta e meia, enquanto andava naquela labuta, ocorreu-me que, se todos os dias trabalhasse nem que fosse um quarto ou um quinto disto, já não precisava de me sentir com complexos de culpa por não fazer a ginástica que a doutora escultural me recomendou. 

E o curioso é que dou por mim a pensar que, se passasse os dias em casa, podia distribuir o trabalho que compõe estas empreitadas de forma mais equilibrada, fazendo todos os dias uma parte destas limpezas profundas, de modo a nunca ter que concentrar num único dia tantas horas de trabalho intenso. Mas ao mesmo tempo que penso isto, desengano-me: sei que, um dia que tenha o tempo todo por minha conta, serei incapaz de ter uma rotina de dona de casa disciplinada. Hei-de inventar mil actividades para continuar a ter que ser às quinhentas da noite que consigo escrever no blog e para volta e meia trabalhar cerca de doze horas de seguida, no duro, limpeza de virar a casa do avesso para lhe limpar as entranhas. Detergente perfumado para lavar o chão de cabo a raso e isto depois de tudo varrido, spray de cera nas madeiras depois de todo o pó bem limpo, roupas das gavetas também lavadas, tudo a secar ao sol, tapetes sacudidos, vidros limpos - nada escapa. O meu marido olha para mim, encolhe os ombros, diz que são os meus exageros. Não são. É a minha forma de gerir o tempo de maneira a chegar para tudo.


Além do mais, gosto de fazer limpezas. Gosto mesmo. Amigas minhas que têm uma segunda casa, têm lá empregada. Durante a semana a empregada limpa a casa, abre as janelas. Se têm jardim, têm jardineiro. Nós não. Somos só nós. É assim mesmo. O meu marido esfalfa-se a tentar domar o mato ou a serrar grandes pernadas, a levá-las para o lugar onde pomos o mato (uma amiga minha, uma vez, vendo o grande muro que rodeia essa zona, perguntou se não haverá risco de sair de lá uma fera. Acho que não). Dantes, menino da cidade, o meu marido não sentia lá grande apelo pelo contacto com a natureza. Agora está um verdadeiro camponês. Levanta-se muito cedo para evitar a hora de maior calor. E, ao fim destes anos todos, ainda se espanta comigo. Pergunta-me: se eu tinha engendrado levar a cabo tal programa de festas, porque não madruguei. Claro que não madruguei. Tinha-me deitado às quinhentas e, além disso, disse que lhe doíam as costas, mexeu-se e remexeu-se na cama toda a santa noite, não me deixou dormir como uma pedra que é como gosto de dormir. Levantei-me a horas normais, ouvindo os passarinhos, vendo o sol suave a querer aquecer. E atirei-me logo ao trabalho, sem pestanejar. Claro que almoçámos já depois das três da tarde e, depois de almoço, continuei na jorna, só saindo de lá já perto das oito da noite. Jantámos -- na casa com vista para o rio e já depois de ter ido levar figos à minha mãe (o meu pai já dormia) -- bem depois das dez e tal da noite. E depois disso, ainda muito trabalhinho cá em casa já foi feito. Uma sopeira de alto rendimento.


A ver se esta segunda de manhã o espírito da executiva desce em mim senão chego ao trabalho, pego no balde e na esfregona e é limpeza geral, ficará tudo num brinquinho em que ninguém poderá botar defeito.

Bem.

E isto para dizer que, em dias assim, tenho a cabeça tão longe do mundo corrente que passo pelos jornais online e parece que nada me desperta a atenção, como se o mundo andasse a rodar sobre si próprio, como se, enquanto roda atrás da própria cauda, descrevesse inúteis círculos pelo espaço, nunca saindo do mesmo sítio, como se não fosse capaz de se afastar da órbita em que algum deus o enredou. Ponho-me, então, a percorrer os blogs a ver se alguma palavra ou ideia me mostra haver vida por aí, vida nova, e parece que não surge um rasgo, que uns repetem outros e outros se repetem a si próprios. Até que, inesperadamente, algo diferente, algo que me emociona.
Penso que me deixo encantar com facilidade. Sou muito primária. Esqueço as coisas más, alegro-me com coisas simples. No outro dia, falando com irritação de uma situação complexa e, logo de seguida, mudando de assunto e falando de férias e de livros, um colega dizia que era uma sorte ser-se assim, que parece que nunca nada me faz mossa, que a mulher, por exemplo, empreende nas coisas, anda sempre ansiosa. Pois, será sorte mesmo. Tenho que me esforçar para me manter arreliada com o que, alguma vez, me arreliou a sério pois a tendência natural é para me esquecer. Isto com quem gosto de verdade, claro. Com gente má ou desonesta e com quem não existe empatia ou ligação de qualquer espécie, o que acontece é que viro a página e é como se a pessoa ou o que ela fez nunca tivessem sequer existido. Mas se gosto de alguém, a minha tendência é para esquecer, para querer estar bem, próxima. Hoje li que alguém tinha a intuição da felicidade e fiquei a pensar que talvez isso ambém se me aplique.

Mas, portanto, algumas palavras foram suficientes para sentir aquele puxão para fora do registo de desinteresse geral pelo mundo em que me encontrava.

E logo me deu vontade de dançar, de falar de palavras, de afectos, de cores, de poesia, de pinturas silenciosas, de memórias, de murmúrios, de vislumbres, de navegações, de encantamentos.

Vontade de inventar histórias que contenham, nas entrelinhas, as vogais que, durante o dia, forço à mudez e as toadas que a minha voz não sabe dizer e a pele que o meu corpo recolhe do olhar. Histórias livres e sem sentido, que voem sem deixar rasto, que se desapeguem de mim, que procurem sozinhas o seu rumo, que vão por aí, que se escondam em grutas, que se percam em labirindos, que se isolem em ilhas, que vivam para todo o sempre ou se despenhem no abismo da perdição. Tanto faz.

Mas é tarde, o meu corpo ainda não deu sinal do esforço a que o sujeitei mas temo que amanhã esteja aí para me chamar à razão e, portanto, seguro-me, prendo-me as mãos, exigo-me juízo e tento nos dedos, e ordeno-me que me retire, que vá dar-me descanso.

E, assim sendo, vou -- mas, para tentar que não sintam que vieram aqui em vão, deixo-vos com três fotografias que vi e que achei que marcavam a superficialidade dos tempos actuais. O culto pelas aparências e a vontade de partilhar a sua própria imagem, seja de que forma for, tem, a meu ver, qualquer coisa de destrutivo, como se se estivesse a caminhar para a nulidade absoluta. Mas, enfim, se calhar sou eu que tendo a andar com o passo trocado.

Putin, o super-homem que gosta de exibir o seu físico
Aqui em férias, à pesca -- e, uma vez mais, a exibir a sua corporalidade (digamos assim).
Curiosos os óculos. Parece o zorro.
[A ver se o pato Trump faz agora alguma coisa de parecido]

Casal no Belfast Gay Pride
(sem comentários)

 World Dog Surfing Championships em Linda Mar Beach, California
(Ao que a maluquice já chegou)
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E, para completar o bouquet, uma coisa que não tem nada a ver, um momento de cultura mas uma cultura com o seu quê de insólito. 
Trata-se de dança (dança clássica, digamos assim) e, de novo, vos peço que não deixem de ver.
Uma graça.


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Vi um outro vídeo muito curioso mas aí é que a misturada ia ficar ainda mais tresloucada e, por isso, já não o partilho convosco. Fica para amanhã, se vier minimamente a propósito. Ou, melhor ainda, se vier a despropósito.

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E a si que está agora comigo, lendo as minhas palavras, desejo uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.
Saúde, sorte, alegria -- e ousadia para ir de encontro ao que deseja.

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