Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, agosto 03, 2017

A strange bird




Aconteceram vagas de saídas de gente. O impacto da globalização, as fusões e reestruturações, as imposições da UE, as automatizações -- tudo isso levava a que, volta e meia, se chegasse ao patamar abaixo do qual não podia ser e, que remédio, novas reorganizações e, claro, a decorrência mais visível: levas de gente para a rua. Nunca despedimentos. Negociações, rescisões amigáveis. Depois seguia-se o cumprimento do plano: este mês saíram cento e noventa, mais oitenta em perspectiva. Meses depois, um perguntava: 'e como está a dinâmica de saída?' e outro respondia: 'já está a abrandar, este mês já só saíram trinta e em perspectiva apenas uns vinte'. O outro levantava as sobrancelhas, desgostado, deviam sair mais. Várias vezes isto.

De quantas pessoas me despedi eu já...? Perdi-lhes a conta. Se os vir hoje na rua se calhar já nem os conheço.

No outro dia, vi uma mulher circulando entre os saldos. A cara dela não me era estranha. Talvez ligeiramente mais nova que eu, um ar ainda gaiato, um cabelo juvenil, quase curto, franja grande solta, jeans e tshirt branca com um belo colar. Ela absorta entre os cabides de roupa e eu, ao largo, tentando perceber quem era. Até que me lembrei. Era uma mulher jovem, interessante, suave, ar moderno. Saíu numa dessas levas. Ia animada, tinha ideias, queria dedicar-se a fazer peças de artesanato, queria exportar. Tive vontade de lhe ir falar. Mas não fui. Não consegui lembrar-me do seu nome, não me pareceu bem ir falar com uma pessoa de quem tinha esquecido o nome. E se ela nem de mim se lembrasse? 


Lembro-me de uma outra, uma que era um mulherão, ancas bojudas, toda ela se rebolava enquanto andava. Era casada e tinha uma filha. Tomou-se de amores por um motorista da administração. Ele uma fraca figura ao lado dela. Almoçavam juntos, se ele não tinha serviço saíam juntos, de manhã chegavam juntos. Uma paixão que não escondiam. Quando gozavam com ela, maliciosa e impudica, insinuava que ele tinha atributos que punham o marido a um canto. As pessoas riam porque fossem quais fossem esses atributos, trazia-os ele escondidos pois era coisa que só ela via. Sobreviveram ambos a essas levas. Até que foi ela que um dia foi pedir para negociar a saída: tinha a ambição de abrir um quiosque. Toda a gente se admirou por, depois de anos sempre inseparáveis, ela não se importar de ficar longe do galã. Mas logo a seguir foi ele, tinha resolvido ser taxista.

Eu assistia a estas determinações com admiração: gente que abdicava de um emprego com ordenado certo por uma actividade que podia correr mal. A coragem deles causava-me espanto e recriminava-me por ser pessimista ao temer que não se aguentassem entregues à sua própria sorte.


Uma outra. que trabalhava comigo, muito arrapazada e a quem nunca conheci namorado, um dia foi passear ao Brasil. Não me lembro como, conheceu lá um homem com mais de oitenta anos e por quem se apaixonou. Trouxe-o com ela. No primeiro dia de trabalho depois das férias, vinha radiante. Trouxe presentes de artesanato índio para os meus filhos. Ainda cá tenho essas peças. À tarde, ele foi lá buscá-la e ela fez questão que ele subisse para conhecer as pessoas com quem trabalhava. Todos pasmados. Ela, um autêntico rapaz, um rapaz que julgávamos assexuado, ali estava perdida de amor por um homem quase com idade para ser seu avô. Uma simpatia, ele: jeans, camisa solta, cabelo branco comprido, quase a roçar o ombro, olhando-a enlevado como se ela fosse uma diva, ela derretida olhando-o como se ele fosse o seu primeiro, único e último amor. Saíram de mãos dadas. Passado talvez um mês ela comunicou que queria sair da empresa, ia casar com ele, ia dedicar-se a gerir umas fazendas que ele lá tinha no Brasil profundo. Não faço ideia do que será feito dela. Gostava de trabalhar com ela: exigente, rigorosa, muito boa pessoa. Comunista dos quatro costados.


Uma outra. Da minha idade. Um filho da idade da minha. Muita empatia. Conversávamos muito uma com a outra. Arranjava-se muito bem. Tinha um corpo bem desenhado que ela gostava de acentuar com toilettes sempre bem escolhidas. Teve uma paixão louca por um colega, um de quem já aqui falei, um campeão nisto das namoradas. Todas casadas e bem casadas. Não se dava conta de quantas já tinha tido. Uma força da natureza, um gestor de arromba, sempre com a adrenalina num pico. Mulher em quem ele pousasse os olhos com ar de quem queria pôr as mãos, era mulher que se deixava apanhar. Nunca tal ela referiu nas nossas conversas e eu nunca dei a entender que sabia. Como ele saía tarde, ela ficava a fazer tempo. Um dia, já o contei, fora de horas, ele foi apanhado a fazer sexo em cima da mesa de reuniões do gabinete com outra. À boca pequena, não se falava noutra coisa. Mas não sei se ela não o soube ou se perdoou. Tempo depois, ele recebeu um convite irrecusável para outra empresa. Foi. Juntou centenas de pessoas num jantar de despedida. Todas as suas namoradas lá estavam, chorosas. Algum tempo depois, soubémos que tinha adoecido. Trabalhou até ao fim, corajoso. Quando fui à capela, estava uma multidão à porta, não cabiam na capela. Todas as namoradas marcaram presença. Tristes como a viúva mas, enquanto elas estavam na rua, a viúva permanecia, desfeita, junto ao corpo do marido. Algum tempo depois, saíu o totoloto a essa minha colega. Saíu da empresa, toda independente e jubilosa. Ia montar um negócio de flores, comprar umas casas, assegurar o futuro do filho. Há tempos disseram-me que se eu a visse não a reconheceria, que se tinha deixado engordar muito, que nem parecia ela. E que se tinha separado e que tinha tido sérios problemas com o filho.


Um dos que tentei por tudo que não saísse foi um contínuo. Agora já não existe muito essa figura. Distribuía correio interno, fazia recados, serviços no exterior. Era alcoólico. Quis sair com indemnização. Na verdade, era um peso morto para a empresa. Inventava-se trabalho para o manter ocupado. Quando ele foi pedir para sair, muita gente esfregou as mãos de contente. Eu não. Dizia ele que ia montar um negócio de sapateiro, arranjar sapatos. Não acreditei que fosse possível, achei que ia espatifar o dinheiro em três tempos para, logo de seguida, acabar na miséria. Pedi para não aceitarem o pedido dele. Mas não fui atendida. Diziam-me que ainda bem que saía sem que a empresa tivesse que tomar providências face ao estado em que se apresentava para trabalhar. Quando se foi despedir de mim, ele todo feliz por achar que estava rico e que ia tornar-se um empreendedor, tive vontade de chorar, imaginava-o caído no passeio, abandonado como um cão doente, velho e sem dono. Não sei se ainda é vivo. Temo o pior.

Outros saíram para se tornarem agricultores. Com o dinehiro, compravam montes no Alentejo, quintas no Ribatejo ou nas beiras. Outros iam dedicar-se ao turismo de habitação, reabilitando casas de família.

Gostava de poder escrever aqui o nome de cada uma dessas pessoas enquanto me lembro pois, de algumas das pessoas cuja vida se cruzou com a minha, já não as reconheceria se as visse e, de outras, reconhecendo-as já o nome se esvaíu. O tempo passa.


Daquelas que partiram para novas vidas, gostava de saber se os seus sonhos correram bem, se estão bem.

Gostava, em particular, de saber daquela que foi tornar-se florista. Será que se mantém casada, conservando o agora taxista para quando lhe apetecer uma feérica tarde de amor?

Ou que será feito da que foi embrenhar-se no Brasil profundo? Talvez o seu bem amado já não seja vivo. Será uma fazendeira rica, daquelas que sai a cavalo pelos campos? Eu, pelo menos, é assim que a imagino -- talvez indo todos os dias ao lugar onde terá soltado ao vento as cinzas do seu amor.

A imaginação leva-me. Um dia memórias e imaginação quererão misturar-se. Se agora me deixo ficar aqui, noite adentro a escrever isto, talvez venha o dia em que não saberei mais se sonhei ou se foi verdade aquilo de que apenas vagamente me lembrarei.

Sou um pássaro estranho que se alimenta de palavras. Um estranho pássaro que habita noites cheias de memórias e de sonhos.

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Permitam que partilhe convosco uma outra história

Há casos de quem mude de vida e descubra uma paixão. Há casos de devoção, de descoberta, de forte motivação e de grande realização profissional. É o caso de Aimee Lee, a fazedora de hanji.

Transcrevo:

In Korea, there’s a saying that “Good silk lasts 100 years, good hanji lasts 1,000 years.” Hanji, a special paper, is made through a complex, centuries-old process that combines mulberry tree pulp and hand threading. Aimee Lee, a Korean-American artist, received a Fulbright fellowship to learn the craft in Korea. There, she studied with master hanji-maker Jang Seong-woo. Despite being a male-dominated practice, Lee excelled. Her perseverance, audacity and aptness for hanji impressed her mentor so much, that he now refers to Lee as a colleague. Today, she’s the leading hanji weaver in the United States, and has dedicated her career to teaching others this ancient Korean practice. 


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As fotografias intercaladas no texto são, tal como as de ontem, finalistas do prémio EyeEm 2017

Lá em cima Isaac Waddington veio de novo fazer-me companhia enquanto eu escrevia

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito boa.

Obrigada pela vossa presença.

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