Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, agosto 23, 2017

A Secretária de Estado Graça Fonseca, em entrevista a Fernanda Câncio no DN, assume a sua homossexualidade.
E eu, no Um Jeito Manso, assumo a minha heterossexualidade.
E a minha miopia e calçar o 37 (e, no caso dos sapatos de modelo apertado, o 38) e o gostar de iscas e de gostar de escrever e ser dextra e mais umas quantas coisas.
So what...?





Logo no Duas ou Três Coisas eu percebi que devia haver coisa. Dignidade e a fotografia da Secretária de Estado Graça Fonseca e mais nada. Já tinha visto a entrevista no DN mas muito por alto. Fui ver com mais atenção. Então era aquilo? Tinha-se assumido publicamente como homossexual e isso era visto como um acto de coragem ou de dignidade. Depois foi o Eduardo Pitta no Da Literatura, escrevendo Honra a Graça Fonseca.  Diz sentir orgulho e agradece-lhe.


E eu fico até um bocado incomodada porque na primeira vez que vejo uma entrevista a esta senhora que exerce funções governativas, e a entrevista até é interessante e ela até parece ser uma mulher consistente nas suas ideias e atitudes, tudo o que ela diz parece ser canibalizado por um facto que é da sua vida pessoal, coisa com que ninguém tem nada a ver e que, de repente, parece a coisa mais importante de tudo.


É como se eu, que escrevo aqui que me desunho, que aqui falo do que gosto e do que não gosto, que ficciono, que mostro fotografias minhas ou alheias, partilho músicas e o escambau, de repente fosse falada apenas porque calhou revelar que calço o 37. Caraças. O que é que o tamanho dos meus pés teria a ver com o que é feito aqui no blog? O blog pode ter piada ou ser uma estucha mas é pelo que é e não pelo facto de eu calçar o 37. O meu pé é o que é, fazer o quê?

Claro que não posso fazer-me de extra-terrestre pois sei que, para muita gente, uma pessoa ser homossexual ainda é um aleijão para o qual se olha de lado. Mais: sei que algumas pessoas que, pela sua natureza, o são não o assumem por receio do estigma social. Mais: sei que essas pessoas, para disfarçarem, são das que mais gozam e mais anedotas contam sobre gays. Mais: sei como se pode passar uma vida inteira a fazer-se de conta que se é hetero, casando, tendo filhos, forjando uma inclinação que notoriamente não é a sua. Sei. Sei e lamento.
É que, caraças, se a pessoa não é capaz de agir de acordo com a sua natureza e estraga toda a sua vida apenas com receio da opinião alheia, que podemos sentir por ela senão pena...?
Claro que ser homossexual é estar em minoria. Mas estar em minoria não significa ser marginal, pôr-se a jeito para ser escorraçado ou gozado, ou ser desprezível. Significa apenas isso mesmo: a maioria das pessoas tem preferência pelo sexo oposto e eles, os homossexuais, uma minoria, preferem parceiros do mesmo sexo. Nada de mais nem de menos. Nada de mal nem de bem. É o que é. 

Sou como sou e não preciso de coragem para me assumir assim mesmo. E isto deveria ser o normal para toda a gente. Gordos, magros, feios, bonitos, cabeludos, carecas, canhotos ou dextros, narigudos ou narizinhos, comilões ou fuinhas, habilidosos de mãos ou uns pés, sorridentes ou carrancudos, brancos ou pretos, homo ou hetero, sensíveis ou calhaus, inteligentes ou broncos -- todos são seres de direitos iguais e todos têm direito a fazer parte, por igual, deste habitat que é o nosso.

Graça Fonseca é homossexual e a verdade é esta: estou-me nas tintas para isso. Que seja competente na sua função é o que me interessa. Quanto ao resto, é lá com ela e que seja feliz. Se a revelação pública da sua orientação sexual for um incentivo para quem viva vidas de mentira, pois tanto melhor. Mas, ora bolas, não nos foquemos na sexualidade das pessoas como se isso fosse o factor principal da sua identidade nem negligenciemos as qualidades que têm, em especial quando exercem funções públicas.


Entretanto, vejo que o assunto saltou para outros jornais e que as redes socias, especialmente as ligadas às comunidades LGBT, estão ao rubro, como quando um elemento de uma agremiação ganha uma medalha e há festa rija. Não sei, não. Olho para estas reacções com algum desconforto. Muitas vezes parece-me que são estas associações que cultivam o gheto ao auto-tratarem-se como pessoas diferentes, com direito a atenção especial. Tal como eu não tenho orgulho em ser hetero, por que raio de carga de água é que um homossexual há-de sentir orgulho em sê-lo? Esforçou-se por isso? É mérito seu? Ou é porque é e porque não pode senão ser -- e ponto final...? 

Tenho uma colega que é lésbica e que, na sua vida pessoal, vive como tal. Profissionalmente nunca o revelou e eu serei das poucas, senão a única, a sabê-lo. É uma excelente profissional e em momento algum me passa pela cabeça que seja relevante ela assumir-se como tal perante os colegas, tal como em momento algum me passa pela cabeça ajuizar o seu desempenho profissional em função da sua orientação sexual. Não faço ideia o que pensará ela deste fuzuê em torno da entrevista da Graça Fonseca. Provavelmente pensa o mesmo que eu, que a Secretária de Estado foi revelar uma coisa sobre a qual ninguém tem nada a ver. Mas imagine-se que lhe dava uma travadinha e, inspirada pela dita Graça Fonseca, aparecia no trabalho a dizer: 'Oi, meus amigos, querem saber a melhor...? Sou lésbica.' Disparate. O que é que a malta lhe haveria de dizer: 'Ah, sim..? Pois, que lhe faça bom proveito'. 


E é isto. Nada mais tenho a dizer. Só que espero que apreciem algumas evidências artísticas de que a homossexualidade existe desde sempre (desde Michelangelo a Courbet, passando por muitos outros, suas as obras estão aí para o testemunhar -- e isto para não descer às profundezas da Grécia Antiga, de Roma e de tutti quanti)

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Olha... desci.
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Sobre os cavalos azuis que passam aqui in heaven falo no post que se segue.

Sobre uma bola de pedra tatuada, falo ainda mais abaixo.

Em ambos os casos falo, de novo, do meu dia como camponesa-lenhadora -- e não só.

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