Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, abril 14, 2017

O feiticeiro mentiroso


Há coisas de que não quero aqui falar. Se tenho isto de não me identificar não é para, depois, vir para cá relatar situações incómodas, com detalhes que podem levar a identificá-las.

De resto, calma, não tenho conhecimento directo de nada que tenha provocado danos alheios ou que configurem ilicitudes.

Bernie, Ruth e os filhos quando eram uma família feliz



Mas já tenho testemunhado situações em que alguém por fútil fanfarronice, por mesquinha ambição ou, apenas, por pura burrice, embarca numa situação cujos contornos não são tão lineares quanto é suposto.

Muitas vezes, a coisa é detectada e morre logo ali. Mas acontece, por vezes, que, porque naquelas circunstâncias convinha que aquela ficção fosse uma ideia viável ou porque se não quer apear as expectativas de quem lançou as sementes do embuste, quem teria o dever de cortar, cerce, a ficção, a deixe caminhar.

E, por essas circunstâncias, por vezes difíceis de explicar, a ficção começa a caminhar como se tivesse pernas de verdade.

Quem lhe é externo e não conhece da história o suficiente para a desmascarar, nada diz. Não tem o que dizer. E, quem teria a capacidade para a desmistificar, por vezes, ao fazê-lo, é apodado de desalinhado, de avesso à mudança. E, por vezes, é afastado.

Acontece também que cada vez mais pessoas comecem a trabalhar para dar corpo à ficção. A essas não convém desmascará-la pois a sua vida passa a depender disso. E, quem a conduz, cada vez tem mais dificuldades em assumir que está a alimentar uma fraude pois já envolveu muita gente, e já muita gente depende de se fazer crer que está tudo bem.

Pode ainda acontecer que a comunicação social comece a louvar a 'empresa', que muita gente comece a apostar nela, que as forças vivas da região divulguem o sucesso do empreendimento.

E acontece que o tempo vá passando, o embuste seja cada vez mais difícil de esconder mas, na directa proporção, cada vez é mais impossível assumir, fazer o mea culpa, deixar que tudo se extinga, aceitar o vexame de passar publicamente por mentiroso, por desonesto.

Então, quem está metido nela, embarca em optimismos que parecem louváveis, mostra resiliência, produz discursos articulados nos quais assume, com o que parece ser uma desarmante  sinceridade, dores de parto, dores de crescimento, mas, garante, o futuro é promissor e vamos todos dar as mãos e seguir em frente que o caminho se faz caminhando  e em equipa somos todos mais fortes. Um líder.

E, quem conservou algum distanciamento e, por isso, se encontra distanciado do inner circle do poder, assiste perplexo ao que se passa. Cegueira colectiva? Protecção mútua entre culpados? Instinto de sobrevivência? 

Talvez tudo junto.


Já quando aconteceu a queda do BES eu falei nisto. Do que conheço de meios relativamente parecidos (embora, como referi, sem o mesmo impacto e sem os mesmos contornos), penso que, ao mais alto nível, não há a ideia de querer prejudicar alguém. Pelo contrário, tudo farão para que ninguém saia lesado. O móbil diário passa a ser manter a máquina em movimento, não deixar que pare porque, se parar, morrerá. E não deixar que se descubra: E empurrar os problemas com a barriga, evitar o opróbrio generalizado, fazer de conta. Fazer de conta. A vida passa a ser, acima de tudo, isso: fazer de conta.


Do pouco que, na altura, li sobre Madoff, penso que foi mais ou menos isto que terá acontecido. 

Bernie Madoff geria uma empresa próspera. A mulher e os filhos não conheciam o âmago da questão. Para eles, Madoff era um bem sucedido homem de negócios. Viviam uma vida luxuosa e a sociedade não regateava o reconhecimento perante tão simpática e generosa família.

Até que veio a crise e o dinheiro deixou de entrar. Pelo contrário, os clientes começaram a querer resgatar os seus investimentos.

Como qualquer esquema Ponzi, isso é o que faz cair a pirâmide pois o que mantém a ilusão de bom funcionamento é o dinheiro entrante com o qual se vão pagando bons rendimentos aos que antes o lá meteram.

Daí ao fim foi um ápice. Madoff confessou à mulher e aos filhos o que se passava antes de o confessar às autoridades. Sempre assumiu integralmente toda a culpa.

Perderam toda a sua fortuna. A mulher passou pela vergonha de ver as casas e os bens vendidos. Os filhos ficaram arrasados. Um suicidou-se. Outro morreu tempos depois. Ruth, a mulher que era feliz e milionaríssima perdeu os filhos, tem o marido preso e anda agora sozinha às compras deslocando-se num pequeno carro

Michelle como Ruth
Ruth Madoff agora




O caso está agora em filme e o elenco promete: Robert de Niro e Michelle Pfeiffer.



The Wizard of Lies será lançado a 20 de Maio



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Talvez até já para vos mostrar por onde andei a cirandar ao fim do dia.

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2 comentários:

bea disse...

Coisas!

Anónimo disse...

"Como qualquer esquema Ponzi, isso é o que faz cair a pirâmide pois o que mantém a ilusão de bom funcionamento é o dinheiro entrante com o qual se vão pagando bons rendimentos aos que antes o lá meteram"



O sistema financeiro é um esquema Ponzi legalizado, não paga bons rendimentos aos depositantes (maioria) mas empresta mais do que os depósitos que tem.

BASEIA-SE NA CONFIANÇA


Qualquer banco vai à falência se todos correrem a tirar o dinheiro.


Se o Maddoff dissesse aos seus depositantes , podem meter aqui 1 milhão mas se eu for à falência só recebem 100.000 euros, não o faziam , no entanto no esquema Ponzi legalizado (Bancos), fazem-no com alegria-)))

e não tinha um Estado para o ajudar, o esquema Ponzi (legalizado) tem



Uma pequena história


Um turista chega a uma aldeia, e vai ver um hotel, mas a condição para visitar o hotel para ver se é do seu agrado é uma caução de 100 euros, entregue na saída.
Faz a caução e vai visitar o hotel, o dono do hotel com a caução vai ao talho pagar a carne que devia, o dono do talho vai ao bar de alterne pagar o que devia, a dona do alterne vai ao hotel pagar o aluguer dos
quartos que devia, entretanto o turista , não gostou do hotel , e saiu com a caução.


Acredito que alguém parou a nota de 100 aos BES, não vou com a cara do Ricardo Salgado, mas quando diz que o tramaram se calhar fala verdade.


Bob Marley