Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, abril 16, 2017

Dia novo in heaven





É isto um diário? 

Penso que não. Sou indisciplinada por natureza. Tenho dificuldade em seguir um guião, mesmo que seja meu, mesmo que não me seja imposto. 

Se isto fosse um diário eu falaria sobre o que fiz ou pensei ou sobre o que, de alguma forma, me impressionou durante o dia. Ora, se é verdade que muitas vezes é isso que aqui trago, outras há em quem falo de coisas tão díspares ou aleatórias que dificilmente encaixarão no género 'diário'. 

Aquilo a que, aqui, mais graça acho é, de facto, à liberdade de escrever ou divulgar o que me der na bolha. Não sei se esta diversidade agrada ou desagrada aos leitores. Se vêm à espera que eu comente a política do dia e lhes aparece bailado ou, se vêm à espera que eu fale de livros e eu apareço com uma palhaçada qualquer, não sei se ficam desconsolados ou agradados.

Mas acho que não há nada a fazer. Já pensei em criar páginas dentro do blog para arrumar os posts por temas mas acho que isso não iria funcionar. Parece que, sei lá eu porquê, isso poderia coarctar-me a liberdade de movimentos. 


Isto para dizer que aquilo sobre que me apetece escrever se calar não faz grande sentido.

Eu conto.

Estive agora aqui a pensar no que ainda me falta fazer a nível de limpezas de fundo e, na verdade, é sobre isso que me apetece falar. Podia falar no livro que hoje li com textos e entrevistas a Rui Chafes, 'O silêncio de...', mas agora não sei que é feito dele. Andei com ele cá dentro e lá fora e na volta ficou ao relento.

Mas, dizia eu, limpezas. 

Quando chove e tudo está húmido, não parece fazer muito sentido andar lá fora a varrer ou a limpar. Mesmo cá dentro, a motivação não é muita. Tirando um ou outro episódico dia de férias, só aqui vimos ao fim de semana e nem sempre o conseguimos. E, aqui chegados, está frio, a casa húmida, apetece é estar ao pé da salamandra ou da lareira a preguiçar, com uma mantinha quente nas pernas, um livro bom por perto, uma chávena de chá a fumegar. Portanto, no inverno, as limpezas são as mínimas indispensáveis.

Mas chega a Primavera e é bom abrir a casa, as portas e portadas e as janelas tudo aberto de par a par.


Hoje foi dia disso. E de mudanças. Uma mesinha que estava numa sala veio para a sala de jantar (a família vai crescendo e mesmo a mesa grande que se abre começa a ficar curta; assim, esta, se for preciso, fica para os miúdos), uma cadeira que estava num lado, foi para outro, um sofá que estava desamparado, agora ingressou numa zona de estar do estúdio e está integradíssimo, um tapete que estava sem dono foi para o pé desse sofá, um psiché que era da minha avó agora está a servir de móvel da televisão. E os galos que estavam no chão subiram para cima de uma mesinha, desocupando aquela zona que agora é de passagem.

E apliquei restaurador de móveis, e sacudi tapetes, e lavei sofás e varri cá fora.

E o que eu gostava era de ter agora uma semana de seguida para andar nisto, lavar o chão da casa toda, varrer dentro e fora, lavar forras dos sofás e almofadas, pôr edredons e cobertores ao sol, lavar cortinados e colchas.

Cheguei à noite e senti as pernas doridas. Não estava a perceber porquê. O meu marido disse: 'Falta de hábito'. Nem percebi. Ele explicou: 'Andares a lavar os sofás, a baixares-te e a esfregares, andares a varrer'. Não sei. Aliás, coisa passageira, agora que escrevo já me passou.


Mas escrever isto aqui interessa a alguém? Ou seja, estou a escrever isto para mim ou para quem me lê? Não sei.

O que sei é que, com isto em mente, não me apetece falar das esculturas ou das ideias do Rui Chafes ou de outra coisa qualquer. Ou, agora que acabo de ouvir que o maluco da Coreia quis mesmo atirar um míssil, apenas não conseguiu, também não tenho paciência para esse peditório. Cambada de anormais. Cansam a minha beleza

Apetece-me é falar deste spray para lavar os sofás que é uma maravilha. É um spray que se vende na secção de automóveis, para lavar estofos. É uma espuma que se tira, depois, com uma esponja húmida. 

Também me apetece falar do detergente que usei e que cheira a sabão. Fica a casa a cheirar toda a lavadinho. Gosto muito de variar o cheiro do detergente: pinheiro, alfazema, mar. Mas este, com perfume de sabão, tem um cheiro a casa de antigamente. Conjugado com o cheiro do reparador de móveis e do óleo de cedro, fica a casa agradavelmente perfumada. E o sol traz também os perfumes das árvores e das flores e a casa fica verdadeiramente em festa.

E depois vim cá para fora, andei a apanhar sol e a fotografar. Até que, uma vez mais, aquela estranha sensação de estar a ser observada.


Virei-me devagar, olhei em volta. E lá estava ele. Enigmático. Imóvel, olhar fixo. Fui andando devagar e ele de olhos presos aos meus. Aproximei-me, a pele quase arrepiada, e ele sem se mexer, aqueles olhos misteriosos a fitarem-me. Baixei-me, fotografei-o.


Depois afastei-me. Já não foge de mim. Já me olha à descarada. É muito bonito. É tão dono daquele espaço quanto eu. Respeitamo-nos.

Os pássaros cantam, cantam. Os pinheiros estão enormes, os cedros também. As figueiras já quase compostas, a folhagem a ganhar aquela exuberância verde. As nêsperas começam a ganhar tamanho. Descobri uma última laranja e comi-a, dulcíssima. O rosmaninho começa a aparecer em flor. O tojo é o escândalo amarelo que se sabe,

Este é o lugar do mundo onde eu sou mais eu. Gostava que os meus átomos impregnassem esta terra. Quando vejo a minha sombra nas rochas, penso que uma parte de mim já vive dentros das pedras ou já percorre, na seiva, as árvores que ondulam ao vento. Talvez até parte de mim já viva nos pássaros que ali escolheram viver ou habite o corpo daquele gato branco de olhos cor de mel que me olha como se me conhecesse desde o início dos tempos.

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As fotografias foram feitas este sábado in heaven.

Julee Cruise, lá em cima, interpreta Summer Kisses Winter Tears

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E agora não desçam, por favor, até ao post seguinte. aquilo ali parece filme de terror, desde a casa aos habitantes. 
Cruzes, canhoto.

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E um feliz dia de domingo a todos.

E toca a renascer.

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1 comentário:

Pôr do Sol disse...

Local ideal para sobreviver à estupidez de dirigentes que ensombram o nosso futuro.
Bons dias in heaven na Terra.