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quarta-feira, março 08, 2017

Conversa de mulheres
[Onde a Prima conclui que Dindinha não é sapiossexual
-- e onde a criadora de ambas se demarca daquela conversa]




Dindinha diz:  "É dia da Mulher e parece que só se fala do lado chato e duro de se ser mulher. Não acha, Prima?"

Diana concorda: "É que, tantas vezes, não é mesmo fácil ser mulher, Dindinha. Sabes lá. Sei de casos. Tão duro. Às vezes, tantos disfarces para se conseguir suportar. E os medos, menina, sabes lá. Tantas dores que se engolem como se fossem lágrimas. Nem sabes, menina. Mas estou contigo. Prefiro festejar o facto de ser Mulher. E acho que dá mais força às mulheres se forem fortes, confiantes. Mas deixa. Olha, já pensaste como é que vais festejar o dia, Dindinha?"

Dindinha faz beicinho: "Não, Prima, não sei mesmo. O Tom anda armado em estúpido, agora deu em sonhador, diz que prefere sonhar com uma certa musa. Nem fotografias me quer tirar. Nem poesia me quer ensinar. Já lhe pedi: 'ao menos gramática, Tom...' Não quer, diz que tem mais que fazer, que eu dê pontapés na gramática à vontade. Já viu, Prima?"

Diana faz-se de desentendida: "Deixa, menina. Também tem idade para ser teu pai. E se calhar cansou-se de ser professor. Na volta pôs-se nas mãos de alguém que o ensine a ser gente"

Dindinha não é dada a subtilezas. Por isso, não presta atenção à ironia da prima e continua: "É um parvo. Um traidor. Hoje mandei-lhe uma sms a chamar-lhe isso, traidor. O estúpido respondeu 'Traduttore, Traditore'. Parvo. Sempre a querer armar-se em bom. Também não quero saber. Tenho um colega novo que é o máximo. Não sabe latim, nem grego, odeia filosofia, não vê boi de história, acho que nunca leu um livro. Mas é lindo de morrer e tem um corpo que me faz desfalecer"

Diana ri: "Não és, portanto, sapiossexual, Dindinha..."

Dindinha arregala os olhos: "Credo, Prima, não sei o que é isso mas digo já que não. Sou bi. A minha sexualidade é fluida, Prima. Confesso. Mas a sua também, não é não, Prima?"

Diana responde: "Não sei do que falas, menina."

Dindinha ri e diz, toda ela malícia no passar da língua pelos lábios: "Sabe, Prima, sabe sim, então não sabe...?"

Diana aborrece-se: "Qual fluida, menina. Sólida. Mas deixa. Olha, conta lá, que me quero divertir: o que mais aprecias num homem?"

Dindinha não hesita: "Num homem gosto do corpo, gosto da forma como me olha, da forma como mostra que me quer, gosto da forma como me agarra, gosto que me faça rir, que me faça ver estrelas, que não me faça sentir burra, que goste de estar comigo".

Diana fica a pensar. Depois diz: "E não gostas de quem goste de conversar contigo, que te escreva longas cartas, que te leia poemas de amor, que te surpreenda com as suas contradições, que te provoque, que te deixe a pensar, que goste de livros e de música e de arte e que te encha de dúvidas e de estremecimentos?"

Dindinha responde: "Oh Prima, até podia ser, mas só em doses ligeiras. Odeio, Prima, odeio aqueles chatos que, a propósito de cada coisa, se lembram de livros, que acham que toda a gente é igual a personagem de livro, que acham que são mais espertos que toda a gente, que gostam mais das histórias dos livros do que das histórias da gente. Odeio. São uma seca. O Kikinho, este meu colega novo, é o oposto. E tem umas mãos, Prima, umas mãos. Grandes, fortes, sábias. Passe a mão aqui no meu peitinho, Prima, veja como está uma seda... Pôs-me uma loção de alfazema, sabe, Prima. Cheire, veja como cheira bem".


Diana diz: "Não me atentes o juízo, menina."

Dindinha insiste: "Prima não queira ser essa tal sapiossexual que isso não me parece coisa boa. Descontraia, Prima, descontraia. Daqui a nada chega o Kikinho e vou dizer para ele passar a loção de alfazema na sua pele, Prima. Vá mentalizando o seu corpo, Prima. E depois vou dizer para ele lhe fazer também um estremecimento já que gosta tanto disso, Prima. Aposto que isso ele sabe. Aposto um beijinho, Prima."

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E, aqui chegada, a criadora de Diana e de Dindinha sai das águas em cujas profundezas habita, sacode as exíguas vestes, encolhe os ombros e, suspirando, lamenta-se: 'Estas duas, senhores, sempre a moerem. Como se eu tivesse alguma coisa a ver com estas parvoeiras. É que já começam a cansar a minha beleza. A história já acabada e mais que acabada e estas duas que não me largam, credo. Eu a querer debruçar-me sobre as cartas do Séneca e estas para aqui, troloró-troloró, só a distrairem a minha atenção'.

E, perscrutando o horizonte, demarca-se das suas crias e, segura e confiante, avança noutra direcção.


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De seguida, quando ninguém a vê, num inesperado volte-face, a autora arranca a máscara, uma e outra, todas as máscaras, todos os disfarces, todos, todos e, olhando os Leitores nos olhos, diz: "Esta sou eu. Com mil vidas, mil anos, mil mundos, coberta por mil palavras, mil recordações, mil rugas. Nua. Coberta por véus. Envolta em cores e em sonhos. Eu, aqui inteira perante vós. Uma mulher. Mil mulheres"


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A última fotografia é de Steve McCurry.
Lá em cima Sona Jobarteh interpreta Saya.


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E queiram, por favor, descer caso queiram conhecerem um Segredo muito especial.

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