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domingo, janeiro 15, 2017

O Novo Banco e a irresponsabilidade de Clara Ferreira Alves


Isto há coisas... Tinha eu acabado de exorcizar o espírito maligno do láparo que por aqui pairava depois de lhe ter dado uma valente desanda e começava já a afiar os dedos para deitar mãos ao tema que me mobilizava, o das velhas bibliotecas, quando começa o Eixo do Mal. Animada como estava  -- a ver vídeos e a ler um execelentíssimo artigo que mão amiga me tinha feito chegar -- nem me ocorreu higienizar o ambiente, desligando a televisão ou procurando melhor opção.

Por essa altura, o meu marido, mais pragmático que eu, retirou-se para o quarto. E eu entreguei-me ao deleite da Ôde aux vieilles bibliothèques.

Mas hélas, a Senhor Doutora Superiormente Sabichona Clara Ferreira Alves começou a falar, e tão grandiloquentemente o fez que a minha atenção foi desviada para a sua prosápia, uma prosápia temperada com aqueles seus bem conhecidos salpicos de spleen.


Falavam do Novo Banco e a ilustre comentadeira, maçada com tanta conversa sobre o assunto, dizia que se devia era acabar com aquilo. Qual nacionalizar...? Implodir. 

Ouvi estarrecida a senhora. Olhei-a. A camisola tinha uns brilhantes e os olhinhos aquele ar enfadado de quem faz o frete de por ali arrastar o seu ar blasé. A banca nacional dá-lhe fastio, acha que já provámos que não sabemos gerir a banca nacional. Acabe-se com aquilo de vez, diz ela, até porque, continua, nem sabe bem o que é o Novo Banco. E acaba dizendo que aquele fundo que vai desmembrar tudo, o Lone Star, se calhar ainda é o melhor, se calhar faz-nos o favor de nos vermos livres do assunto de vez. 



Em tempos, quando olhava para ela como jornalista, eu até gostava de a ler. Depois foi-se tornando cada vez mais convencida. Faz tempo que deixei de ler o Expresso pelo que não sei o que tem andado ela a fazer. Mas, nos últimos tempos, as entrevistas dela a sumidades eram frequentemente uma coisa do género das do Casanova. Falam eles, exibem-se, mostram que são letrados, opinam, decidem, fazem comparações, e, de quando em vez, lá se dignam disponibilizar a deixa para que o entrevistado diga qualquer coisita. Pior ainda quando se tornou opinadora. Aí passámos a ver a facilidade com que opina sobre tudo, incluindo sobre o que não sabe. Vejo-a como um exemplo acabado do que é o populismo ao serviço do jornalismo. E no Eixo do Mal, frequentemente, uma seca: cansa de tão pedante e leviana que é. Sabe tudo, enfada-se até de repetir argumentos que já explanou tantas vezes, fala com veemência de assuntos que notoriamente conhece apenas pela rama -- e, com as suas actuações, consegue que, cá em casa, mudemos rapidamente de canal.


O que me choca é que quem, nas televisões, decide quem convidar para programas deste tipo, equaciona certamente quem consegue ser mais polémico, dizer sound bites, criar factos políticos, lançar atoardas que aticem as redes sociais, etc. E não equaciona o sentido de responsabilidade que veículos poderosos como as televisões devem ter em cada uma das suas escolhas.

Sabendo-se o indesmentível poder de influência que as televisões têm, apenas deveriam ser convidadas para opinar pessoas com uma respeitabilidade, estabilidade emocional, dignidade e rigor à prova de bala.

Mas, infelizmente, a opção é a oposta. Quanto mais destrambelhados, mais mentirosos, mais fúteis, mais ressabiados, mais pedantes, mais levianos, mais desbocados -- mais assento têm nas televisões. 

(E assim se destrói o jornalismo.)

Mas voltando ao Eixo do Mal. De facto, só uma pessoa irresponsável ou que esteja de má fé pode, como uma estonteante ligeireza, dizer que, para não cansar a beleza de quem tem que ouvir tantas vezes do mesmo assunto, mais vale acabar com um dos maiores bancos do país. 


Pode ser que o Eixo do Mal seja visto apenas por quatro bichos caretas, entre os quais me incluo e que, portanto, os riscos de uma afirmação destas seja mínimo. Tomara.


Começar a lançar a ideia de que se calhar o melhor é acabar com o Novo Banco é meio caminho andado para lançar o alarme social e daí até a uma corrida aos depósitos é uma pequena fracção de tempo.

Custa-me perceber que uma pessoa minimamente estruturada lance um disparate destes para o ar. Se eu a parafraseasse, podia dizer que, para não ter que estar a aturar tanta parvoíce, mais valia atirar uma destas molduras pesadas à televisão e destruí-la de vez. Ou melhor: que para não ter que a aturar, mais valia ir à Sic Notícias e acabar com a estação. Ou pagar a um mercenário para rebentar com ela.

Só que acabar com um banco, um banco como o Novo Banco, é bem mais grave que isso.


Só por preguiça é que não vou repescar o que escrevi na altura em que o patego do Carlos Costa do BdP e os aventureiros malucos do ex-governo resolveram implodir o BES. Contra quem, na altura, achava que Carlos Costa era o máximo e que criar um Banco Bom e vendê-lo em seis meses era do melhor que havia, clamei tão alto quanto a minha fraca voz o permitia que o Carlos Costa era uma nódoa, que a decisão de acabar com o BES era uma loucura sem explicação e que a ideia de que seria possível criar um banco e vendê-lo em seis meses era um delírio sem pés nem cabeça (admitia que seriam necessários uns dois anos).



Hoje mantenho. Não percebo como foi possível cometer, a céu aberto, o que me parece um crime inexplicável. Uma coisa seria sanear o BES, limpar o que estivesse mal, obrigá-lo a reconhecer imparidades, rever a carteira de crédito, rever os critérios de avaliação de risco, provavelmente correr com meia dúzia de cabotinos e/ou incompetentes, julgá-los se caso disso -- e outra, muito diferente, foi implodir com um grupo económico, espatifar com uma poderosa marca, enfraquecer ainda mais o frágil sistema financeiro português. De toda a porcaria que o Governo de Passos Coelho fez (e foi muita! oh se foi...) isto deve ter sido do pior, do mais absurdo que se poderia imaginar.


A partir daí, da implosão do BES, foi tudo mal feito: escolhas mal geridas para a gestão, a começar com Vítor Bento, uma pressão absurda na venda. Mais: chamar para vender o banco à trouxe-mouxe Sérgio Monteiro, um aventureiro que já na TAP tinha dado vários passos em falso e anunciar aos quatro ventos que o banco era para vender à pressão e de qualquer maneira, só pode revelar um problema mental ou má fé.


O resultado é o que se vê: quando se atira milho para a rua logo aparece, vindos sabe-se lá de onde, um grupo de pombos. Não aparecem águias, gaivotas, garças reais. Só pombos-ratos.

E é o que tem acontecido com o Novo Banco: chineses sabe-se lá com que solidez financeira, fundos de reputação duvidosa, gente que não dá garantias, que não quer pagar e que quer deixar o osso e só levar o lombo, e isto para depois o fatiar e passar a patacos. Um vexame que deveria fazer corar o Carlos Costa. Mas não faz. Não tem competência, nem brio, nem vergonha na cara. É outro que não dança nem sai da pista. Há que tempos que deveria ter dado o lugar a alguém responsável e competente.


Não posso dizer qual a melhor solução pois não conheço os pormenores das opreações nem as contas do banco. Mas sei dizer que a solução não passa por acabar com o Novo Banco nem por vendê-lo como se fosse uva mijona. O Novo Banco deve voltar a ser um grande banco. E se tiver que ser nacionalizado que o seja. Pode ser uma solução transitória; mas entre ficar nacionalizado ou ir parar às mãos de fundos abutres, de jogadores, de trapaceiros ou de homens sem rosto e mãos invisíveis mas untuosas, prefiro mil vezes que permaneça nacionalizado.

Não é só uma questão de princípio, é, sobretudo, uma questão de racionalidade.


Quando se desmorona um banco, a seguir caem vários outros edifícios. Veja-se o que aconteceu quando caíu o BES (quantas mais empresas caíram a seguir...? Podemos começar pela PT e ir por aí fora). 

Um banco é um edifício cujos alicerces são a confiança de quem lá põe o dinheiro mas é um edifício que dá suporte a todas as empresas e pessoas que lá pediram empréstimos e cujas tesourarias assentam também na confiança no cumprimento de compromissos. 

Estou a ser simplista. Mas o tema é tão complexo que só espero que as televisões percebam que não devem dar voz a irresponsáveis como Clara Ferreira Alves e outros que tanto têm contribuído para que os portugueses formem ideias erradas e andem à mercê de quem os queira manipular.

Sinceramente: começo a ficar verdadeiramente farta de tanta estupidez e irresponsabilidade. Caraças.


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E falei na Clara Ferreira Alves porque foi a ela que prestei mais atenção. Mas idêntica leviandade me pareceu ouvir ao Luís Pedro Nunes. Há temas que, pelo seu melindre, jamais poderiam ser levados a debate por parte de quem não faz ideia do que diz.



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E, com isto, já não consigo falar nas velhas bibliotecas. Já agora, mal por mal, se ainda não leram, convido-vos a descer para verem aquilo da malapata que o Láparo tem com a TSU


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4 comentários:

Abr disse...

Meu caro "Jeito Manso"
Subscrevo,na íntegra,o que afirma sobre a sra. dra. Clara Ferreira Alves e o Eixo do Mal. Cabotinos e intragáveis,devo-lhes no entanto a graça de ter deixado definitivamente de ler "O Expesso" e ver os progaminhas de "debate" da SIC Notícias e quejandas. Já viu certamente o ar que rodeia as pessoas que sabem do que estão a falar.É tão reconhecível e tem um odor tão particular que até os peixes o notam. Deixemos os fraldiqueiros latir:dali não sairá sangue!
Um grande abraço

Rosa Pinto disse...

Confere.

Corvo Negro disse...

Cara UJM tive uma relação de proximidade com o BES/Novo Banco de 43 anos. Conheci relativamente bem a instituição por dentro e por fora. Só posso e só devo subscrever tudo o que aqui escreve sobre o Novo Banco. O que aconteceu naquela instituição foi criminoso. Criminoso por parte de quem geria o Banco e criminoso por parte de quem era responsável politica e regulamentarmente por ele (Governo e Banco de Portugal e BCE). Foi experimentalismo puro, com o BCE à cabeça da manada, o Costa a abanar a cabeça e o Governo a dizer amem. Ironicamente todos assistimos impávidos e serenos à destruição de uma parte significativa do tecido económico nacional, mas a estupefacção foi tal que ninguém reagiu. Assim foram extintos mais de 1.000 postos de trabalho no Banco e colateralmente mais de 5.000 nas empresas que se desmoronaram com a implosão, e ao fim de dois anos e meio não há arguidos, não há acusações, não há julgamentos nem ninguém preso, e os 3 grandes responsáveis pelo que ocorreu (Ricardo Salgado, Carlos Costa e Passos Coelho) vão passando pelos intervalos dos pingos da chuva porque o Ministério Publico tem mais com que se preocupar, nomeadamente em gastar à tripa forra o dinheiro dos nossos impostos para ver se encontra a "mala do dinheiro do Sócrates".
Quanto ao Eixo do Mal a à CFA, há muito que deixei de ver essa pantomina.
Bem haja pela pedrada do charco. CN

bea disse...

Eu não vejo quem poderia substituir a Clara pessoa e profissional que gosto de ver no Eixo do Mal ainda que reconheça que por vezes se excede nas opiniões. Julgo que sabe bastante de vários temas, escreve bem (quando lia a pluma caprichosa agradava-me e também li um livro de contos de que gostei), é um bocadinho geniquenta e convencida, mas deve ser feitio e não significa que seja mau. Algumas notícias da semana sei-as por ali e acho o programa preferível aos telejornais, sobretudo pelo humor e duração.