Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

segunda-feira, janeiro 16, 2017

Amanhã





Por estes dias terei que me deitar mais cedo. Tenho cá uns queridos habitantes que alvorecem cedo e para os quais quero estar disponível caso seja necessário. Acresce que hoje estou com uma dor de cabeça que me tolda as mãos. Isso a somar à dor de garganta que já está reduzida mas que ainda existe. Podia tomar um comprimido mas já basta quando são indispensáveis. Estou desde o início da tarde a ver se passa por si mas não. Também tive de tarde a casa cheia e, como sempre, o mais pequeno fez uma extraordinária performance, alto e bom som. Tirando ele, também os outros não pouparam nos decibéis. Ora barulho e confusão é do melhor que há para quem está com uma estúpida enxaqueca.

Não me queixo e tento disfarçar para não quebrar a alegria dos demais mas o incómodo foi avançando em crescendo.


Agora, quando peguei no computador, de cada vez que escrevia qualquer coisa aparecia-me uma voz a dizer, em voz alta, o que eu estava a fazer. Se eu escolhia um endereço, a voz lia, letra por letra, o endereço. Tinha sido o mais novo que, durante a escassa fracção de tempo em que mexeu no computador, não estando eu aqui, instalou a funcionalidade de 'narrador' que eu nem sabia que existia. O pior foi dar com a maneira de fazer calar a senhora. Valeu-me a mãe do pequeno génio que lá conseguiu dispensar a linguaruda.

Agora o computador está estranho, muito lento, com um delay entre o momento em que digito e o momento em que aparece¨m as letras no ecrã. Deve ter mexido noutra coisa qualquer. O poder de distruição de uma criança de quatro anos é incomensurável, Já o primo, com uns três anos, uma vez, num ápice, apagou-me do telemóvel os contactos, as fotografias, as mensagens: tudo. 

Portanto, estou assim: sem condições.


Não sei de notícias. Não vi o telejornal nem prestei atenção a Marques Mendes que, por acaso, até estava em fundo enquanto jantávamos. Mas vi agora no DN que Marques Mendes, o garganta funda do regime, contou que Passos Coelho convidou José Euardo Moniz para canditado por Lisboa. Não sei a que propósito, deve ser por ser uma cara conhecida. Na volta, se o marido da Manela der uma nega, o láparo avança para o Goucha. E, se o Goucha falhar, a Teresa Guilherme. Tudo gente na qual o pessoal laranja se há-de rever fortemente. Marques Mendes terá dado a entender que o Passos é um catavento mas eu acho que não é isso, inclino-me para que seja simplesmente destituído. E não digo de quê para não acharem que é embirração minha, na volta ainda fruto da dor de cabeça. 


Mas a sério. Uma pobreza franciscana de ideias, este PSD. Nem se consegue dizer muito mais sobre isto. Dá dó.


Leio também que nos States a perplexidade perante a aleatoriedade de reacções do Trump vai alastrando. Gente mais experiente aconselha-o a deixar-de de tweets destemperados ou a medir melhor o que diz ou a forma como destrata a comunicação social que não lhe agrada. E leio que os europeus estão preocupados não vá aquele maluco ainda arranjar um trinta e um e desencadear-se, para aí uma nova guerra.

Não é abstrusa esta preocupação já que uma coisa é a gente saber que em lugares relevantes haverá sempre alguém mais inteligente ou ponderado que evitará que um maluco qualquer carregue no botão errado -- e outra coisa é os botões perigosos estarem cada vez mais nas mãos de gente doida.

Custa perceber como tantos séculos de civilização descambaram nisto que se vê: essa mole humana que dá pelo nome de povo parece ter ganho aversão às elites (leia-se, aos melhores) e, quando vai votar, escolhe os mais básicos, os mais impreparados, os que se apresentam como palhaços, como biltres, como canalhas.

Dir-se-á que foram os tais melhores que estragaram tudo. Contraporei que, na minha modesta opinião, não foi bem isso. As elites tendem a preocupar-se com assuntos supostamente importantes e, para além disso, tendem a ser generosas e tolerantes para com os mais fracos. E o que me parece que aconteceu foi que não prestaram garnde atenção ao populismo que tem vindo a propagar-se e, não apenas isso, como deixaram que esses tais demagodos fáceis pusessem o pé à porta, que entrassem, que se fossem instalando. Ora lutar contra muitos medíocres instalados é complicado. Quem não é medíocre tem dificuldade em baixar-se para se pôr ao nível dos que o são. E a mediocridade e o perigo que daí vem alastra, quase sem resistência, como uma mancha de óleo imparável.


Felizmente ainda há quem se levante e denuncie, alerte, informe. Pode dizer-se que é chorar sobre leite derramado, chover no molhado, trancas à porta depois da casa arrombada. Pois. Mas mais vale isso do que nada fazer.

Kate Perry produziu um vídeo que não passa indiferente e que chama a atenção para os riscos que aí vêm caso o maluco do Trump ponha em marcha o seu desvairado plano de acções.

Se o fizer, o mundo vai continuar a regredir mas a regredir para onde pensávamos serem tempos mortos e enterrados.

Quando eu era jovem e assistia à integração na União Europeia com a expectativa de quem achava estar a entrar num mundo mais progressita e mais moderno, pensava que o meu futuro ia ser um mar de rosas e que o dos meus filhos seria a terra do leite e do mel e que os filhos dos meus filhos viveriam diariamente  a possibilidade de cumprirem a sua vocação, de construirem a sua vida em prosperidade e segurança.

O amanhã era, então, para mim a promessa de um dia sempre melhor.

Gostava muito de voltar a ter essa esperança inocente e despreocupada. Gostava mesmo. E gostava de saber o que fazer para lutar por isso.


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

E abaixo poderão ver o vídeo de que acima falei.

IS HISTORY REPEATING ITSELF?


President-elect Donald Trump promises a registry for all Muslim-Americans. This heart-rendering PSA from executive producer Katy Perry (via Mashable) draws the parallels between what Trump plans to do, and horrific national tragedy of Japanese internment camps.


Directed by Japanese-Australian filmmaker Aya Tanimura, it tells the story of 89-year-old Haru Kuromiya. Spoiler alert: In the end, there is a reveal that although Kuromiya's story is true, she's being played in the PSA by actress Hina Khan, in prosthetics.

Director Tanimura told the LA Times that they cast the Pakistani-born Muslim actress to draw the clear connection between what happened then, and what could very well happen again. She also took to Twitter to thank Katy Perry, and remind everyone not to normalize what is happening in this country.




¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

As fotografias que usei ao longo do texto são da autoria do fotógrafo francês Thierry Bornier.

A música lá em cima é Amanhã da União das Tribos.


¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

......

Sem comentários: