Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, dezembro 27, 2016

O que peço a sua mercê ouça com muita atenção e vontade, porque nisso favorecerá o partido de meu trabalho.





Alguns que escrevem livros acostumam fazer, nos princípios, prólogos de sua defensão, o que eu não fiz. E tenho esta rezão, que me não quero queixar antes de ser ofendido. E mais, quem pode dizer mal de mi, que bo seja, pois aos maus não posso fugir, mas por qualquer parte sempre me hão de mal tratar. E contudo eu não dou licença que alguém possa ser meu juiz, senão quem ler os livros que eu li, e com tanto trabalho e tão bem ou milhor entendidos. E ainda assi a sentença há-de ser que, para emendar meus erros, escrevam da mesma matéria outras obras milhores, nas quais mostrem saber mais q'eu disto de que falamos.

E senão, tudo o que mais fezerem é murmurar, que não cabe antre homens sabedores. Pois quant'à dos inorantes não faço conta, e bem sei que não deixam de reprender senão o que não entendem. E mais, porque algum tanto me fiz nestes princípios breve, reprenderão mui asinha o que dixe, e não saberão, louvando, manifestar o que calei (como diz Cícero no segundo livro a seu irmão).

E não convido eu aos que mais sabem, cuidando que os não há i no mundo, mas seria eu ditoso que minhas faltas fossem causa do proveito que sua doutrina pode fazer. Ser eu curto em meu escrever, e não muito ornado com bos exemplos, e a falta d'algumas cousa que devera escrever e não fiz, e a dissonância d'alguns termos novos nesta arte que pus, usando de vozes próprias da nossa língua, tudo ante quem não folga de dizer mal terá escusa com olhar a novidade da obra e como escrevi sem ter outro exemplo antes de mi. E isto muito mais escusará o defeito da ordem que tive em meu proceder, se foi errada.

E contudo, o que com rezão pode ser reprendido, eu confesso que o não escrevi com malícia, e pode-se emendar. Antes peço a quem conhecer meus erros que os emende. E todavia não murmurando em sua casa, porque desfaz em si.



[Capítulo L (e último) da Gramática da Língua Portuguesa de Fernão de Oliveira (c 1507 - c 1582 , edição Da Fundação Calouste Gulbenkian]

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Fernão de Oliveira nasceu em Aveiro, em 1507. Foi um homem de múltiplos interesses, tendo desenvolvido atividades como gramático, historiador, cartógrafo, piloto e teórico de guerra e de construção naval. Iniciou os estudos, aos nove anos, no Convento de S. Domingos daquela cidade, tendo sido transferido, em 1520, para o convento da mesma ordem, em Évora. Aos 25 anos, fugiu para Castela, onde se dedicou ao estudo da língua espanhola e se tornou clérigo secular. Em 1536, regressou a Lisboa, dedicando-se ao ensino e publicando a primeira gramática da língua portuguesa, intitulada Grammatica da Lingoagem Portuguesa. A partir desta publicação, passou a integrar o grupo dos gramáticos do Renascimento que se dedicaram à descrição das suas línguas maternas. Por volta de 1541, partiu para Itália, onde se dedicou à diplomacia secreta, provavelmente relacionada à complexa questão a respeito dos cristãos-novos que o rei D. João III manteve com a Santa Sé. Em 1543, regressou a Portugal, onde foi ameaçado de ser denunciado ao Tribunal da Santa Inquisição, por heresia. Temendo a perseguição do Santo Ofício, Fernão de Oliveira deixou o sacerdócio e fugiu para a França, onde se alistou como soldado e serviu na guerra contra a Inglaterra.

(Ler mais sobre Fernão de Oliveira...)

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Lá em cima o Te Deum Zelenka (Per singulos dies) é interpretado pelo Coro Gulbenkian e Orquestra Divino Sospiro

O título do post é a frase que fecha a primeia anotação que Fernão de Oliveira fez da língua portuguesa, dirigida ao mui magnífico e nobe fidalgo, o senhor dom Fernando d'Almada, filhor herdeiro do mui prudente e animoso senhor dom Antão, capitão-geral de Portugal, etc.

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1 comentário:

bea disse...

O coro Gulbenkian é amplamente um bom coro. E era um estudioso o tal Fernão de Aveiro que andou por tanto lugar da estranja.