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quarta-feira, dezembro 28, 2016

Como se lida com uma pessoa com uma depressão ou com um esgotamento?





Conheço uma pessoa que penso que está com uma depressão ou com algum transtorno emocional. Trabalha como se não houvesse amanhã, tem um fraco rendimento pois as horas de trabalho a fio traduzem-se em pouco, acha-se uma vítima dos colegas, do chefe, da família, de toda a gente. Volta e meia a passividade prega-se-lhe ao rosto e olha-nos como se não houvesse vestígios de vida no olhar ou como se estivesse a magicar na forma de nos matar. Outras vezes, do nada, nasce uma agressividade inusitada, grita com desaforo, é inconveniente, desafia quem calha. Logo depois, vendo o espanto no rosto dos outros e percebendo que pisou o risco, pede desculpa, muita desculpa, pode até chorar, pede ajuda, quase se humilha. Noutras ocasiões, querendo mostrar que está bem, ostenta uma euforia deslocada, diz piadas que deixam os outros perplexos ou incomodados: tudo forçado e desconcertante. Em paralelo com isso, envia mails com imagens como que infantis e que pretendem ser descontraídas ou humorísticas mas que se revelam, isso sim, patéticas.


Quando se lhe sugere que descanse, que trabalhe menos, que vá ao médico, que se trate, diz que já anda a tratar-se. E continua na mesma. De relações cortadas com parte da família e com o casamento em risco, com os colegas de trabalho preocupados achando que enlouqueceu ou que está em vias disso, o que relata, para se desculpabilizar, são factos bizarros em que se coloca sempre numa perspectiva de vitimização.

Não sei bem como lidar com uma situação destas pois, aparentemente, não acata conselhos e nada faz para se tratar pois, de facto, não reconhece que se passa algo de estranho consigo, colocando a responsabilidade integral pelo seu mal estar no comportamento dos outros. Não sou só eu a estar apreensiva: somos todos quanto observamos o que se passa. E todos constatamos o mesmo: quase não é possível lidar com uma pessoa num tal estado. 

Ao mesmo tempo, tememos o desfecho disto pois o isolamento é progressivo e o estado de esgotamento parece iminente.


Por vezes interrogamo-nos sobre o que se pode fazer num caso destes. Não se pode amarrar a pessoa que atravessa um problema destes e levá-la à força a um psiquiatra nem obrigá-la a meter baixa e ficar em casa a descansar.

Dizemos que passeie, que durma, que descanse a cabeça, mas a resposta é invariavelmente a mesma: que também queria fazer isso mas que as obrigações são mais que muitas, que tem que fazer isto, aquilo e o outro e que tomara ter tempo para fazer tudo o que recomendamos mas que não pode, que infelizmente não pode. Depois encolhe os ombros, baixa o tom de voz e acrescenta com auto-comiseração: apesar de ninguém reconhecer, apesar de ninguém agradecer... Penso que imagina que o mundo pára se da sua parte houver um abrandamento. Contudo, quase não consegue acabar um trabalho pois aparecem-lhe dificuldades que diz não controlar, depois verifica tudo mil vezes, depois encontra sempre problemas e volta ao início, num stress por não cumprir prazos nem entregar trabalho em condições.

Sei que não se deve abandonar à sua sorte uma pessoa que está assim mas a vontade de ajudar quem não quer ser ajudado também se esgota.

Não sei o se deve fazer nestas situações. Ouço falar em burnout, coisa muito na moda, mas não sei se é isto nem sei como se faz para uma pessoa 'apanhada' sair destes estados quase incapacitantes. Como se ajuda uma pessoa assim?


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As imagens mostram instalações 'psicadélicas' do austríaco Peter Kogler
O vídeo lá em cima mostra a cena final de 'Os Pássaros de Hitchcock.

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De manhã publico um outro post, com um balanço de 2016.
Já está quase pronto mas tenho que dar uma ajeitada nas fotografias e agora estou com sono.

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3 comentários:

José Ferreira Marques disse...

Nestes casos, o amor costuma ajudar...

Anónimo disse...

O amor ajuda bastante a ultrapassar este tipo de patologia.É mesmo essencial para que a pessoa deprimida ultrapasse a sua doença.

bea disse...

Já aviso que não tenho receita milagrosa. Mas, em geral, essas pessoas estão muito frágeis e agarram a primeira oportunidade para mudar a situação em que vivem e onde se sentem bastante desconfortáveis. Sozinhas não conseguem (se conseguissem já teriam saído; não há coisa mais triste que uma depressão que, se dá conta dos circundantes, imagine do próprio). Tem que haver alguém a conduzi-las para fora da espiral. Essa pessoa que a JM descreve parece estar para lá de infeliz, cuidado. Conheço umas deprimidas que não dão muita imbexação (esta palavra não existe, terei sido e que a inventei agora? Mau Maria; também não existe imbechação; e embexação, existirá?! Olha, também não). Pronto, então queria dizer que estão medicadas e não fazem estrilho. E nunca por nunca encontrei uma deprimida (sorry, que me lembre, não vi um homem deprimido) com olhar assassino. Ao contrário, acho-lhes um olhar tão desanimado que me entra e dói com força. Não pode estar bem quem assim olha para nenhures.

É verdade, o mundo não acaba se elas pararem. Às vezes nem sequer dá por isso.

Mas toda a gente, suponho eu, quando stressa, faz tudo ao invés e atrasa mais do que avança. A mim acontece-me. Uns pontapés na mobília e mais uns palavrões de que nem peço desculpa, costumam ajudar. E depois tenho de descruzar o que cruzei. Calha-me:).