Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, novembro 21, 2016

Outono in heaven




Fim de semana tranquilo. Chove e eu gosto de ver e ouvir a chuva. O campo está fértil, o musgo começa a aveludar a terra. Por onde passo, ouço o sobressalto dos bichos, o esvoaçar apressado dos pássaros por entre a folhagem. Depois aquietam-se, percebem que sou eu, a mulher-bicho que por vezes se ausenta mas que sempre volta, porque este pedaço de terra é a sua casa.

O medronheiro oferece-me os seus doces frutos. Desfazem-se-me na boca, pequenos pedaços de carne sumarenta a saber a mel. E oferece-me também a graça das suas flores, cachos de pequenos balões brancos. 

A serenidade sabe-me tão bem. Não me lembro do que vivi durante a semana. Essa é outra. Eu sou esta.


Vou passando, passeando e noto que o me mais atrai o meu olhar é o que mostra a passagem do tempo. Os ramos agora quase nus, a patine dos muros, o pó que se entranha nos azulejos. Não tenho vontade de os limpar. Também não tenho vontade de esticar a minha pele. Acho que o tempo acarinha a natureza, traz-lhe beleza. As cores misturam-se com as memórias numa simbiose perfeita.

E o frio, que me sabe tão bem, dá-me também vontade de ir para dentro, tapar-me com uma manta, pegar num livro, comer chocolate, diospiros, beber um chá quente e inaugurar o calor da lenha na salamandra.


Por onde passo, o chão está atapetado de caruma e folhagem. Há arbustos com bagas amarelas, cor de laranja ou encarnadas. Tudo me encanta. Onde outros verão um matagal à solta, vejo eu a harmonia da natureza. 

Não penso nunca na vida depois da morte. Mas penso muito na vida antes da morte e penso e sinto como é bom sentir o privilégio de me achar dentro do paraíso. 
Ouvir os pássaros, ver as cores das folhas, a dança dos ramos das árvores ao som do vento, olhar o deslizar da névoa do horizonte até ao céu, contemplar a delicadeza das flores, ouvir o musicar da chuva  -- é para mim uma felicidade que é difícil explicar.
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Elvis Costello interpreta Days

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana -- a começar já por esta segunda-feira.

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4 comentários:

bea disse...

a felicidade ou mesmo o bem estar não se explicam, sentem-se e basta. Foi isso que a JM andou fazendo.

Abe Chevrolet disse...

Jeito Manso: de certeza já sabe que o Paraíso fica sempre à sombra da Árvore da Sabedoria... Um forte abraço.

Um Jeito Manso disse...

Olá bea,

É verdade. Uma paz de espírito tão total como se tivessem sido varridos para bem longe de mim todos os momentos de cansaço e stress, como se apenas a tranquilidade da natureza me acompanhasse.

Obrigada pela compreensão que as suas palavras revelam.

Dias felizes também para si, bea.

Um Jeito Manso disse...

Olá Abe,

Será mesmo? Não é a Sabedoria inibidora da felicidade? O Saber não nos leva para a casa de todos os lamentos?

Seja como for, o forte abraço já cá canta. E eu agradeço-o.