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segunda-feira, novembro 21, 2016

Trump no Ginjal



Entre o campo e o rio se fez este meu fim de semana. Debaixo de chuva e vento quis ir ouvir o ranger das amarras e rever a bela cidade branca, agora envolta em névoa e dissipação.


Ninguém por estas bandas. Nem pescadores, nem turistas nem namorados. Lisboa, ao longe, não passa de uma mancha suave que se eleva das águas que se adivinham frias. 

Acredito que ali estejam casas com pessoas lá dentro mas a vida que por lá haja não se sente quando avistada desta margem. 

Também não há veleiros nem gaivotas. Recolheram as velas e as asas e procuraram abrigo. Chove muito.


Espreito estas casas. Nem um som. Há muito que os seus habitantes procuraram outras paragens mas, por vezes, alguém ainda se abriga ou marca encontro por aqui. Hoje nada. Nem gatos. Só nós dois.

O meu marido teme o estado precário de algumas paredes debaixo da força do vento. Aviso de derrocada, lê-se em algumas. Sei bem disso. Nalguns bocados de caminho, no chão há restos de vidros, restos de telhas velhas. Não há muito ruíu uma parede soterrando um rapaz que por lá se tinha encostado. Outras vezes é o chão que se abre, puxado pela força das águas.


Tinha estado a ler que o novo presidente americano, esquecendo-se da sua nova condição, continua a reunir-se com empresários do ramo imobiliário, indianos desta vez, e ufano, enaltece o florescimento dos seus negócios. Os seus conterrâneos civilizados olham com apreensão a falta de sentido de estado desta caricatura que os não civilizados elegeram.

Tinha lido também que reúne no alto da sua torre dourada à qual se acede por um elevador coberto de ouro e cravejado a diamantes. Pelo que vejo, parecem imagens de cenário de filme cómico. E, no entanto, milhões de eleitores acharam que era nele que deveriam votar e a ele entregar o destino do país.

E eu, chegada aqui, à beira do rio, caminhando à chuva, rente a este casario decadente, penso na felicidade que é viver num país normal, onde ainda não fomos tocados pela miséria de sermos governados por gente que acha que o país é pasto fácil para a sua ganância e cupidez, por gente ignorante e perigosa para quem a realização pessoal passa por atingir objectivos banhados a ouro, onde os cifrões ocupam o lugar dos sonhos.


Por aqui há varandas sem protecção quase suspensas por frágeis suportes, há casas sem tectos, janelas sem vidros, por dentro pode ver-se a ruína total, travejamentos caídos, madeiras roídas e tombadas, arbustos rompendo por entre destroços, trapos, redes velhas, restos nem se sabe de quê.

Mas sei que, por muito hiperactivo e imprevisível que seja o nosso presidente, não anda a pôr o nosso país em risco, não anda a negociar com Putin acordos com contornos suspeitos, não anda a trocar a liberdade ou, mesmo, a vida de gente (de Snowden, por exemplo?) por favores aqui e ali. 

Aqui, neste lugar onde há avisos de derrocada, debaixo de chuva intensa e de uma ventania inclemente, sinto-me mais segura do que se estivesse num luxuoso apartamento na Fifth Avenue.


Não sei que mundo é este que, desde há uns anos, parece querer pôr-se a andar às arrecuas. Não sei mesmo. Sabemos de oceanos gelados no interior de distantes planetas ou aprendemos a descodificar o cognetoma que nos define mas não sabemos como manter-nos no trilho certo que nos permitiria viver em paz, tranquilos, sabedores, solidários e felizes.

O que me apazigua é pensar que a história do mundo é tão imensa que estes arremedos de retrocesso talvez não passem de pequenos sobressaltos que ela, a História, que tem a sabedoria das coisas antigas, se encarregará de alisar.

Dos deuses e dos inspiradores mitos de outros tempos aos improváveis ídolos de hoje, parece que que o mundo caminha impiedosamente para o fim. A decadência parece inexorável, tal a absoluta fragilidade e imperfeição dos novos senhores do mundo.


Mas talvez não. Talvez o mundo caminhe no sentido certo e nós é que estejamos desatentos, talvez se esteja a escrever certo mas por linhas erradas. Não sei.

O que sei é que, pelo sim, pelo não, o melhor é fazermos coro com Jane Siberry e apelarmos também a todos os santos:

Santa Maria, Santa Teresa, Santa Anna, Santa Susannah
Santa Cecilia, Santa Copelia, Santa Domenica, Mary Angelica
Frater Achad, Frater Pietro, Julianus, Petronilla
Santa, Santos, Miroslaw, Vladimir
and all the rest
....

we're cryin' we're callin'
cause we're not sure how this goes

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E agora, caso vos apeteça procurar um outro abrigo, queiram descer para se acolherem in heaven.

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2 comentários:

bea disse...

O mundo não está nada pacato. Mas é como diz, a história já o mostrou assim de outras vezes. E ele refez-se e evoluiu e andou em frente. O ponto é que só andou em frente mercê de muito sofrimento humano, por norma dos mais fracos que morreram que nem tordos. O seu post, JM, faz-me lembrar o pedido de Cristo, "Pai se é possível, afasta de mim este cálice".

Um Jeito Manso disse...

É isso, bea, mesmo que ainda estejamos longe do fim dos tempos alguém resgatará os que perderam a vida no mediterrâneo, sob as bombas de aleppo, nos raptos de meninas em áfrica, nos atentados um pouco por todo o lado?

É isso mesmo, bea, se alguém me ouvisse, eu pediria: afasta de mim este cálice. Mas não sei se ouve. O mundo e os deuses parecem estar surdos.