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sexta-feira, outubro 07, 2016

Marissa Meyer, the Angel Face Lady
- ou os perigosos e invisíveis enredos em que nos enredam



Agora que já falei de Guterres na ONU e das árvores que têm mais sentimentos que muito animal descaroçado, hesito. Apetece-me fechar o dia com mais qualquer coisa. Aqui ando com as Anunciações ao colo, enlevada, enlevada, sim, e quem contempla a perfeição de um golpe de luz raríssimo, belo como o anúncio de que um novo ser começa a habitar o ventre de uma mulher, dificilmente dele se arreda para mergulhar as mãos na perplexidade que veste de obscuro sufoco o mundo quase invisível que nos cerca.


Mas, se estou tentada a sucumbir aos pés do sedutor arcanjo, a verdade é que sinto a necessidade de desabafar sobre algumas das minhas secretas inquietações.

Ao de leve, que não são horas para profundidades. Em vez de me preparar para um prato forte acho que me vou ficar pelos petiscos -- até porque não tenho competência para me adentrar pelo subterrêneo mundo dos labirintos sem lei.

Como amuse-bouche permitam que comece por mostrar com um caso prático que isso das mulheres louras, especialmente se forem bonitas, serem burras não tem nada a ver. Mito urbano. Há-as lindas, com cara de anjo, e inteligentemente perigosas como aranhas, daquelas que, com uma perna às costas, apanham as incautas presas em teias invisíveis.

Marissa Meyer é assim. Elegante, sofisticada, simpática, bonita, sorriso de menina e. imagine-se, toda dadas às informáticas, às inteligências articiais, danada para engendrar complexos algoritmos que, com fantástica limpeza e total discrição, põem as vítimas a serem manipuladas como pequenas marionetas. 

Mas não só. 


Apesar de ter apenas 41 anos, o CV de Marissa Angel Face é já estrondoso, certamente poporcional à dimensão da sua fortuna. 

Não vou alongar-me percorrendo os seus múltiplos feitos. Cito apenas dois casos que vieram a lume e que teriam tudo para causar alarme: para não prejudicar a valorização da empresa para a qual trabalha, a Yahoo!, escamoteou o roubo de nomes de utilizadores (cerca de 500 milhões) e passwords dos seus clientes. Mas ainda pior: para fornecer informação aos serviços secretos americanos, permitiu que a Yahoo desenvolvesse um software que, sem que ninguém o soubesse, varria, em tempo real, toda a correspondência que chegava aos utilizadores enviando, de imediato, informação classificada à National Security Agency e ao FBI. Sem que as pessoas sequer sonhassem com isso, milhões e milhões e milhões de mails foram varridos em busca de palavras suspeitas ou indícios de qualquer coisa. 

Procura-se onde e o quê? - já perguntava Snowden.
Em todo o lado, tudo - alguém responde de .
A inteligência artificial é uma coisa tramada. Quem já por esses campos se aventurou sabe bem a tentação que é. A matemática toda ao serviço do raciocínio mais puro, mais rápido, mais acutilante. Se sempre foi matéria vertiginosa, agora -- com a tecnologia disponível e com os melhores cérebros a serem puxados para a utilização de coisas misteriosas como as block chains, a computação distribuída, o self-organized chaos -- conceitos abstractos como a ética caem que nem tordos.

O mercado global é guloso,  o fascínio que as mentes brilhantes têm pelo controlo é quase irresistível -- e, do outro lado, está uma informe mole humana que deixou de se importar com a sua privacidade, que se exibe também em tempo real, que não se importa que, por detrás do facebook, do instagram, e dos yahoos desta vida, estejam grandes olhos que tudo observam, que manipulam emoções, que vendem publicidade, que espiam e cedem informação para os mais variados fins. 

Marissa Meyer, a loura bonita e inteligente, a ex-Googirl que lançou grande parte dos produtos Google entre os quais os mais rentáveis e mais invasivos, que, toda fofinha, levou o bebé para o escritório ao mesmo tempo que permitia (ou incentivava?) que os empregados com avaliações mais baixas fossem despedidos, andou a colaborar com os serviços secretos permitindo que os clientes da Yahoo! fossem vítimas de uma espúria violação de privacidade.


Os outros grandes, Apple, Google, Facebook, já vieram dizer que eles não que eles são santos e tementes à lei e ordem. Contudo, não foi o Facebook que tinha (e já não tem?) um algoritmo que seleccionava as notícias que figuravam no mural de cada um de forma a animar as pessoas e a estimular a sua vontade de consumir?

E não é verdade que, sendo estas plataformas gratuitas, de algum lado vem o dinheiro que as sustenta? E não estamos todos fartos de saber que esse dinheiro vem da publicidade que as pessoas, quase sem darem por isso, consomem? E dos dados que, voluntariamente expoem para que alimentem grandes bases de dados onde potentes algoritmos encontram padrões, apetências, vulnerabilidades?

E não é verdade que ninguém quer saber disto para nada...?

(E não é verdade que, também eu, estou para aqui a falar para o boneco...?)

Por precaução, marketing ou gestão de imagem bem pode Marissa ser afastada dos holofotes que, não tardará, logo, logo será contratada a peso de ouro.
Não há nada mais útil do que uma mente brilhante que desconhece essas coisas maçadoras e filosóficas que não criam valor.
(Ética....? O que é isso?!)

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Não sei se vem a propósito mas, já agora, fica aqui:

Spider Sonnet de John Whitworth (lido por Tom O'Bedlam)


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E queiram, se tal vos aprouver, descer até ao tema da actualidade.

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4 comentários:

bea disse...

Pois é. Salvo raras excepções - na sua maioria de gente já para o velho - a JM está mesmo a pregar no deserto. Há uma geração de Marissas que até parece espontânea, tanto prolifera.

Anónimo disse...

Essa Marissa Meyer é um coiro sócio-moral! Daquelas/es Yuppies de ambição desmedida, a quem só interessa o sucesso profissional, não olhando a meios e pessoas – colegas. De que tudo são capazes para atingir objectivos que no fim lhes tragam dinheiro e “reconhecimento profissional”. Gente sabuja! Já há por por cá dessa estrumeira de gente. É a globalização da “filosofia da empresa”, embora muitas não aceitem (ainda!), nem praticam esse tipo de comportamentos. Mas, a partir de certo nível de volume de negócios, rareiam.
P.Rufino

Anónimo disse...

é verdade, ela é a maior, e o Snowden é tratado como um criminoso, os implicados nas escutas continuam a verem-se e a darem beijinhos, e todos assobiamos para o lado.E depois fico na duvida se os algoritmos são poderosos ou se as cobaias é que são fáceis de lidar. Queria colocar um vídeo aqui , mas não o encontro. e por fim a verizon comprou a yahoo, e vai fazer mossa á google e facebook e outros, daí (talvez) estas fugas de informação. E por fim mesmo, quem era utilizador da yahoo também não bate muito bem, como isso diz respeito a 99.99% de amaricanos, só se perde as que caem no chão

Bob marley

Um Jeito Manso disse...

Gente como ela é frequente, cada vez mais, gente ambiciosa, auto-centrada. Mas costuma haver alguém acima dessa gente frenética que quer agradar, 'cumprir'. O drama é quando uma pesoa destas chega a lugares de topo, com poder para fazer o que quer. Um perigo.

E é verdade: não será até muito difícil já que o terreno é fértil. As pessoas expõem-se a toda a hora. Quando por vezes falo nisto há quem diga 'estou a publicar isso apenas para os meus amigos, não é público'. Como se os amigos não pudesse copiar e divulgar e como se não o estivessem a escrever em plataformas geridas sabe-se lá por quem, de que forma, com que objectivos.

Mas, enfim, são estes os nossos tempos.

Um abraço a todos!