Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, outubro 24, 2016

Conversar




Não sei se chove lá fora. Há pouco, estava eu a escolher as fotografias do mar e a ouvir um ribombar surdo, ao longe. Ontem à noite, aconchegada num canto do sofá, a ver na RTP1 um filme francês muito bonito sobre uma prova de vela em solitário, ouvia chover, a chuva a bater com força nas janelas. Soube-me tão bem.

Agora, como habitualmente, a sala está quase às escuras, apenas a televisão com o som baixo e um foco de luz sobre mim para ver o computador. Gosto muito de estar assim.

Hoje acordei com vontade de pegar no tapete de arraiolos que, em tempos, deixei a meio. Antes gostava muito de me sentar num cadeirão pequenino, baixinho, as grandes carpetes sobre os joelhos, eu rodeada de lãs, a tecer, a fazer aparecer figuras, cores. Mas depois troquei esse prazer, bordar noite dentro, pelo de escrever aqui. Já tinha feito tantas carpetes que já não tinha onde as pôr. Hoje olho para todas elas quase abismada, sem compreender como consegui eu fazer tudo isto.


Mas não consegui matar essas saudades. De manhã fui para a praia e almocei por lá, peixe a saber a mar, depois fui às compras, depois fui para casa do meu filho onde a minha filha se nos juntou para lancharmos. Depois foi a costumeira algazarra dos pimentinhas, as jogatanas de futebol entre os rapazes (de todas as idades) e ela, a única menina, a fazer comidinhas na sua cozinha de brincar (parece que agora diz que, quando for grande, quer ser cozinheira em Paris). Já era quase noite quando regressei a casa. 

Coloquei a roupa a lavar. Arrumei outras roupas. Deixei de lado a roupa de amanhã.

Como, durante a semana, chego sempre tarde, deixo feita a comida para que seja só aquecer. Por isso, seguiu-se a horinha da culinária.

Estive, então, na minha cozinha. Conto-vos.

Sopa de cenas
Numa panela com água, deito duas cebolas grandes, cinco cenouras de bom tamanho, um chuchu, uma courgette avantajada (tudo descascado e cortado aos bocados) e sal. Ponho ao lume (não é lume porque a placa é electrica -- mas isso é pomenor), espero que ferva e depois baixo a temperatura.
Num tachinho ao lado, deito uma cenoura cortada aos cubinhos e uma courgette mais modesta também cortadinha. Da panela ao lado, depois de levantar fervura, despejo um bocado de água sobre os legumes e ligo o lume. Faço esta manobra do transbordo da água para regular melhor a quantidade total da sopa. Quando ferve, baixo a temperatura. Depois de uns minutos, junto uma embalagem inteira de folhas de espinafres já lavadas. Continua ao lume por mais uns minutos.
Depois de desligar, junto um fio generoso de azeite virgem à panela, e moo até ficar um puré bem macio. Junto-lhe então os legumes e o caldo do tachinho. Com uma colher grande, envolvo tudo bem.

Mão de borrego no forno, com sabor a campo
Ligo o forno à temperatura máxima (calor em cima e em baixo) enquanto preparo o tabuleiro de pirex. No fundo, coloco vinho tinto. Espalho duas cebolas cortadas aos bocados no fundo. Estendo então a mão do borrego (limpa de gorduras, lavada e com uns golpes) sobre essa cama. Ponho algum sal por cima. Ponho ainda uns dentes de alho cortados, 3 ou 4 folhas de louro, alecrim esfarelado e polvilho ainda com orégãos. Rego com azeite. Coloco, então, o tabuleiro no forno e reduzo a temperatura para uns 190º. Passados uns minutos volto a reduzir para os 160º e passado mais um bocado volto a reduzir para os 150º. Na segunda hora baixo para uns 140º. De vez em quanto, viro para que, à vez, uma parte fique mergulhada no molho e a outra exposta ao calor de cima. Não sei bem quanto tempo ao todo, talvez umas três horas. Vejo que está bom quando a carne se afasta do osso e mostra um ar apetitoso.

Quando jantámos ainda o borrego estava no forno. Mas nem eu, depois de lanchar, teria fome para carnes. O meu jantar foi sopa (o meu marido, ao comê-la, disse: a sopa está mesmo boa e eu fiquei toda contente) e depois queijo fresco que comi ao mesmo tempo que uma maçã e uvas. Como sobremesa, comi um figo seco, daqueles que a minha mãe torrou e recheou com amêndoas. Depois, quando estava a sair da cozinha, voltei atrás e fui rapinar outro. Claro que fiz isso à socapa de mim pois os figos engordam que se fartam e eu devia dosear. 

Só depois aqui cheguei. Estive a colocar um brilhozinho nas unhas, não ando em maré de unhas gritantes, só um brilhinho transparente. Como estou com uma blusa fininha de verão, deu-me o frio. Ainda pensei ir buscar um casaco mas, por preguiça, deixei-me aqui ficar. Peguei então numa mantinha, que estava sobre um dos braços do sofá, e cobri os ombros. Está a saber-me bem.

Estive também a ler alguns blogues. Há quem escreva muito bem ou sobre assuntos bem interessantes. Leio-os com a surpresa de ter, à minha disposição, palavras tão bem entretecidas, palavras ainda jovens, acabadas de escrever e, tantas vezes, a saberem já a palavras boas, antigas.


Enquanto escrevo, vou vendo a televisão. Agora estou a ver Maria João Seixas com José Pedro Serra. Não o conhecia a ele mas já o googlei, já vi quem é. Falam da mitologia grega. O programa chama-se Afinidades e ele fala com paixão de Cassandra e diz frases muito belas. Ela olha-o com aquele quase sorriso que é todo empatia. Desde que lhe morreu o filho, Maria João está sempre com um ar tão triste, tão em suspenso, como se pairasse num tempo que lhe fugiu. Admiro-a pelo que ela é e também pela coragem. O cenário em que estão -- o fundo negro, umas flores lindas com um toque de carmim que se conjuga com o baton dos lábios dela; sempre tão elegante, ela -- anula qualquer hipótese de distração. Apenas a conversa interessa e a forma como se olham enquanto a conversa flui. Sorri ele, enquanto fala da simbologia grega, daquela cultura que encapsula todas as culturas por vir. Escrevi simbologia sem querer, queria dizer mitologia. Mas simbologia talvez se possa aplicar neste contexto. Fica.


Sorri serenamente Maria João enquanto José Pedro Serra diz poemas e eu olho-os e não sorrio, porque fico quase paralisada quando ouço falar assim. E já vejo Maria João quase emocionada. Ao terminar diz que vai querer voltar a ouvi-lo a falar da Eneida, de Nietzsche. José Pedro Serra sorri agradado e conclui dizendo que as viagens afins é difícil saber com quem as podemos fazer. Maria João sobressalta-se, sorri, quase tímida.

Não sei porque não está a televisão cheia de momentos assim. Em vez de futebóis a toda a hora, reportagens infindáveis sobre crimes e fugas, incêndios, um jovem que foi para Londres e armou confusão no aeroporto, o advogado de outro que foi agredido pelos filhos do embaixador, ininterruptas entrevistas a criaturas descerebradas como ao láparo ou à cristas -- não seria mil vezes mais interessante ouvir pessoas inteligentes a conversarem, aprender com quem sabe mais que nós?

Ah, mil vezes sim, mil vezes.
O que eu preciso de aprender -- tanto, tanto que não sei -- e o que eu gosto de aprender (mesmo que, logo de seguida, tente esquecer para, numa próxima vez, ser de novo surpreendida).
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Já é tarde. Daqui a poucas horas inicia-se mais uma destas minhas semanas meio loucas, em que um trabalho ciclópico parece abater-se sobre mim de forma quase torrencial. Os dias passam num instante e eu tento introduzir-lhes travões. Tento manter os almoços tranquilos, tento conseguir fazer uma caminhada à noite, mesmo que curta, tento manter-me acordada aqui à noite para descansar a cabeça enquanto converso convosco. 

Fico-me, pois, por aqui que o sono já se faz sentir. A conversa já vai longa e só eu é que estou a falar. De vocês nem um ai. Já devem estar fartos de tanta tagaralice, não? 

Tenho aqui ao meu lado um livro muito bonito com poemas de Pedro Tamen mas já não vou abusar mais da vossa paciência. Um dia destes logo transcrevo um poema.

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Reparei há pouco que ultrapassei hoje um milhão e setecentas mil visitas. Lembro-me do dia em que, incrédula, cheguei às mil, depois às dez mil. Mais ainda quando atingi as cem mil. Eram números que estavam para além do que alguma vez poderia esperar. Até que passei o milhão. Fiz uma festa, chamei a família. E agora acredito que um dia ainda chego aos dois milhões. É uma sensação inexplicável. Eu aqui sossegadinha na minha sala, a escrever despreocupadamente, e tantas pessoas aí a lerem estas minhas palavras. Afinidades, também? Gostava que sim, que pessoas que não conheço se sentissem estranhamente próximas de mim. Mas, próximas ou não, agradeço-vos do fundo do meu coração. A vossa companhia silenciosa sabe-me bem, é como se me agraciassem com a vossa generosidade.

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As fotografias que coloquei ao longo do texto mostram as paredes grafitadas do Ginjal.

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E, caso queiram ver como estava magnífico o mar neste domingo de alerta laranja, desçam por favor até ao post que se segue.

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8 comentários:

bea disse...

Um milhão e setecentas mil visitas e tão poucos comentários. Mas a JM está contente com a companhia. Portanto, vou sair de fininho porque já vi que gosta que sejamos leitores mudos e quedos. Faço-lhe a vontade.

Anónimo disse...

Eu cá me encontro todos os dias. Para aprender sempre e também por afinidade. Só no imposto do sol (que afinal se eclipsou), é que não estive muito de acordo consigo. Mas tem que haver sempre uma excepção à regra!

Um Jeito Manso disse...

Olá bea, boa noite!

Houve uma altura, tinha eu uma vida um bocado mais descansada, conseguia chegar ao computador mais cedo e a primeira hora passava-a a responder aos comentários, era uma conversa boa. Respondendo-se aos comentários, os Leitores sentem-se mais estimulados a interagir. Infelizmente, cada vez chego mais tarde e mais cansada e muitas vezes, a maioria, não consigo responder.

Às vezes penso se não seria mais justo fechar a caixa de comentários já que tantas vezes deixo os Leitores/Comentadores sem uma palavra de volta. Mas vou deixando aberta pois egoisticamente gosto de ler o que me dizem, é como se sentisse que há pessoas de verdade aí desse lado e não apenas estatísticas. E muitas vezes fico a pensar, vejo as coisas sob outra perspectiva ou aprendo com o que me dizem.

Mas eu, como Leitora de blogs, também sou assim: posso gostas muito e, muitas vezes isso acontece, e também não comento.

Mas fique sabendo, bea, que gosto imenso de ler os seus comentários. Obrigada.

Um Jeito Manso disse...

Olá Anónimo/a, boa noite!

É que aquele imposto, da forma como foi anunciado, prestava-se a toda a espécie de subjectividades e os impostos querem-se inequívocos, simples, justos.

Mas isso agora não interessa. O que interessa é agradecer as suas palavras e a sua presença aí desse lado. E que vivam as divergências.

Obrigada!

Anónimo disse...

Afinidades, sim, diárias e indispensáveis...
Maria Luísa

Um Jeito Manso disse...

Olá Maria Luísa,

A minha primeira boneca acompanhou-me durante algum tempo. Não era uma boneca vulgar, tinha uma personalidade própria. O nome que lhe dei foi Ana Luísa. O que eu gostava do nome, talvez até mais do que dela. Aquele Luísa era, para mim, um sinal de um requinte pouco usual. E quando vejo o seu nome, Maria Luísa, fico sempre dividida: se fosse hoje, chamaria à minha boneca Ana ou Maria Luísa...?

Obrigada pela companhia e pela simpatia, Maria Luísa!

Tété disse...

Já não venho em cima da hora mas quando li - "Lembro-me do dia em que, incrédula, cheguei às mil, depois às dez mil..." o que eu recordei as nossas trocas de opiniões e a confissão de algumas das nossas afinidades.
Tenho saudades desse tempo em que era menos conhecida e os temas debatiam-se quase como que em família - a família, a saúde (muito principalmente a nossa), algumas desventuras de feitos por alcançar (mais do meu lado)e como éramos já mais amigas que desconhecidas.
Os tempos mudam e até verifiquei que o meu insignificante "Natuereza" já nem consta no lateral do seu, tão diversificado e ao mesmo tempo tão intelectual.
Vai chegar certamente aos muitos milhões e quem sabe se num futuro muito próximo não será o Blogue do Ano.
Desejo-lhe muitos exitos pessoais e profissionais e sobretudo muita saúde para poder continuar a jogar nas suas plurifacetadas frentes com a sua assertividade e carisma habituais.
Um abraço
Teresa (Tété)

Um Jeito Manso disse...

Olá Teresa-Teté,

Não sei se deu conta mas um dia, para minha surpresa, reparei que a barra lateral do meu blog onde estavam os outros blogs tinha desaparecido. esperei que voltasse a aparecer mas não. Como eu lhes dava outro nome, vi-me grega para os recuperar. Felizmente um leitor enviou-me um backup que tinha feito do Um jeito Manso e aos poucos tenho vindo a repô-los. Mas já tinha tantos que ficava um lençol por ali abaixo. Então resolvi deixar ficar apenas os que são actualizados mais regularmente. Não leve a mal mas a razão foi só essa, para que não ficasse uma lista imensa de blogs em que, metade, ficavam sempre cá em baixo por não serem actualizados diariamente ou quase.

E a razão de não responder aos comentários como antes fazia é que a minha vida profissional mudou um bocado fazendo com que chegue a casa muito tarde. Ao fim de semana, com os programas familiares, é a mesma coisa. Quando me sento aqui no sofá geralmente adormeço. Tenho que optar entre continuar a escrever os posts ou responder. Como disse no outro dia, até já ensei não ter caixa de comentários para não parecer mal educada por não responder. Mas também gosto de ler o que quem quiser vai escrevendo.

Um abraço, Teté, e saúde para si e para os seus!