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domingo, julho 24, 2016

Pedrinho, Luisinho, Nini - e os sonhos que foram ficando pelo caminho
[Ou a história dos que andam correndo atrás de sonho que corre ainda mais rápido, mesmo rápido pra cacete]





Pedrinho sonhava de ser cantor de ópera, coisa séria, porque não até mesmo no S. Carlos? Sua companheira da altura, moça de girl band, incentivava. Vai Pedrinho, porque não? Vai ficar toda a vida abrindo porta? Ou fazendo bolo p'ra vizinhos? Vai que eu apoio você.

Pedrinho foi mas não deu certo. Filipe queria moço mais talentoso. Bem que Pedrinho tirou aula de canto mas não deu, faltava-lhe alma, para ser alguém nisso da cantoria não basta ser capaz de puxar dó de peito, tem que vir emoção junto. Por isso, voltou ao de sempre. De biscate em biscate, Pedrinho se foi safando, chegou onde nunca ninguém alguma vez acreditou que chegasse. A falta de vergonha na cara e de miolo na cabeça são boas aliadas das trepadas fáceis. Esteve quatro anos no poleiro fazendo desfeita p'ra todo o mundo, causando desgraça pr'ó país, e fazendo frete p'ra todo o poderoso. Até que caíu, sem perceber como, e não deixando boa lembrança. Ainda anda por aí, feito gente importante no exílio, bandeirinha na lapela, causando troça de todo o mundo. Mas Pedrinho não liga para bobagem. Sua inteligência não chega para tanto.

Outro é Luisinho. Quando era pequenino sonhou de ser grande. Mas quando era já hora de ser grande ainda ele era mindinho. Arranjou amigos grandes a ver se a grandeza era contagiosa. Não foi. Deu jantares em casa, estabeleceu contactos, foi ministro, agenda sempre bem nutrida, mas nada: minguingo continuou. Sonhou de ser chefe de partido, de ser importante, arranjou amigos entre a gente com dinheirão fresco nas malas, olhos em bico, tanto fazia. Fingiu de isento, de conselheiro, de comentador bem informado. Ainda por aí pisa mas, coitado do Luisinho, ninguém leva o pininim muito a sério. Sua catraice é ladina e seu sorriso parece de bom moço, mas já não leva ninguém no bico. Luisinho continua sendo aquele puto manhoso que se quer fazer passar por grande.

Ah, e o Nini. Nini sonhou de ser estimado como o outro que também começou nas Finanças e acabou eleito figura de Portugal. Nini queria isso, o reconhecimento. Andou sempre dizendo que não era político (apesar de viver dela), que pr'a alguém ser tão sério que nem ele só nascendo duas vezes e outras algaraviadas mal paridas do mesmo género. Todos os bêpêénes por que passou e todas as aleivosias que foi construindo foram fazendo com que fosse cada vez mais desprezado pelo povo, mas o Nini é outro que não se enxerga. Acabou fazendo comentário brejeiro sobre fornicação de cavalo e lisonjeio pr'a vaca, cagarra e, na fase final, até pr'a banana. Assim sua esposa, a gaiteira D. Maria, possessiva como uma velha governanta, não ia pegar no seu pé. No fim, saíu pl'a porta baixa, todo o mundo desejando ver a múmia ressabiada p'las costas. De vez em quando, todo o mundo pensando que a enfernizada criatura se mantém esquecida a escrever inúteis roteiros, volta a sair à cena. Mas só em situações inconvenientes é que dá as cara: para ver se ainda chateia alguns. Aí, vem na dele, continuando a insinuar que sabe muitos segredos e acreditando que alguém está p'ra se interessar pelas suas inventonas pueris. Só pode ser por caridade que ainda ninguém lhe disse que se pode deixar ficar na rósea palaçota, que lá é que está bem. Coitado do Nini.

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O que acima escrevi foi inspirado no texto da Revista Bula, da qual transcrevo abaixo um excerto

ESTOU CORRENDO ATRÁS DE UM SONHO, MAS ELE CORRE RÁPIDO PRA CACETE


Felipe sonhava em construir foguetes para a NASA. Imaginem só, um brasileiro na agência espacial norte-americana. Dizem que já existe um por lá fazendo feijoada, tocando pagode, pensando em esquemas. Coisas de Brasil. Felipinho tinha talento nato para fugas homéricas do planeta. Com a cabeça no mundo da lua, hoje ele bate o polegar em beira de estrada, pede carona para qualquer pessoa que veja, vai para qualquer lugar que seja, desde que siga em frente. Para onde o nariz aponta qualquer lugar serve. Sua mente solitária é confusa, ferve.

Rebert sofria excesso de verve. Sonhava em ser mais famoso do que Jesus Cristo e os Quatro Garotos de Liverpool juntos. Um escândalo digno de se espatifar discos de vinil na cara dele em praça pública. Convertido ao mais completo ateísmo e abissal anonimato, ele carimba (com toda descompostura, é bom que se diga) alvarás na secretaria municipal de códigos de postura. Ganhou notoriedade entre os despachantes por cobrar cafezinhos para liberação das licenças. O sonho não somente acabou, como Rebert se transformou numa espécie de pedra rolante, a passar por cima de tudo e de todos, inclusive da lei vigente e do seu extinto entusiasmo adolescente. 

(...)

Zecarlos sempre fora o mais sonhador de todos os sonhadores dessa joça que estou a escrever, pois sonhava, não apenas por si, mas pelo resto da humanidade. Aquelas coisas de paz mundial, de fim da opressão, de justiça social, de distribuição da renda, love and peace e outros delírios que carregava desde 1968. As pessoas rotulavam-no como um político de esquerda, mesmo que ele não fosse filiado a nenhum partido, senão ao coração partido de que cantava Cazuza. Portanto, tinha um altruísmo que poucos compreendiam. Era gentil demais, constrangedor demais. Duvidam dele. Desconfiavam que ele possuísse interesses escusos por trás daquela sanha de justiça. Ora, ninguém era capaz de amar ao próximo daquele jeito. Zecarlos não era santo (já fora acusado de ter alma feminina e um pacto com o cão). Ele continua a correr atrás do sonho de um dia vivermos todos em paz, como irmãos.

Paulo Laranja nunca sonhou com porra nenhuma. Nada que merecesse ser ressalvado aqui nesse texto, e ponto final. Aplacado por um ceticismo revoltante (de arrancar santos-de-barro do oco), nos incontáveis meses de vida que os médicos lhe atestaram (afinal, arrancaram-lhe cerca de sete metros e meio de tripas, e nem assim foram capazes de fazer nele um coração), contenta-se em escrever crônicas semanais para uma revista literária (a menos lida no seio familiar e no seu vasto círculo de ex-amigos). Ele se ocupa em enterrar esperanças. PL teve o disparate de batizar a sua coluna semanal como Cemitério de Sonhos. Vai ser desagradável assim lá em casa.


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As imagens, como é bom de ver, não têm qualquer relação com o texto que, como também é bom de ver, pelo menos na parte que me diz respeito, também estão muito aquém da realidade. São apenas fotografias a que acho piada da autoria do fotógrafo francês Maurice Renoma que, no início deste ano, teve a sua obra exposta em 7 lugares distintos em Paris.

A senhora que lá em cima canta a plenos pulmões é Edita Gruberova cantando a Cunegonde da ária "Glitter and be gay" da opereta Candide de Leonard Bernstein.

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