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domingo, junho 12, 2016

Ah, isso, menino é que era uma grande embaçadela!




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Faziam isto invariavelmente, sempre com os mesmos gestos, sem esquecer um só pormenor. O meu amigo admirava-se com aquela devoção quase próxima duma mania. Procurava inquietá-las, fazia-lhes perguntas sobre a fé, propunha enigmas e salientava absurdos. As boas senhoras ouviam-no, sem parar de lidar, e sorriam com afabilidade e finura. Até que, um dia, o hóspede, mais ladino do que ateu, lhes disse:

- Já pensaram as senhoras que, depois de tanto trabalho e corrida para não faltar à missa, à oração e à novena, pode não haver nada depois desta vida? - E repetiu: - Sim, e se não houver nada?

Então uma delas, apressada, procurando o terço e soltando do pé o chinelo de ourelo para calçar o sapato de ceilão, disse:

- Ah, isso, menino, é que era uma grande embaçadela!

E lá foi, com a outra, embuçadas nas écharpes dos Pirinéus, que estava frio e eram cautelosas tanto quanto devotas.

É assim que nós somos. Mesmo quando cumprimos lealmente com as ideias e os sentimentos, dominamos uma zona do hemisfério cerebral que nos permite ser livres com respeito ao nosso próprio acontecimento. Não sei se há outro povo no mundo que se comporte assim; alguns primitivos reagem de maneira muito semelhante, só que isso para eles é mais vital do que comunicável. Connosco, isso corresponde a um desprezo extremamente entranhado na alma, desprezo pelas circunstâncias, pelo que obedece a uma norma.

Desde que uma experiência se estabelece como norma, pode ser perfeitamente acatada, mas deixa de pertencer à inspiração. Então podemos amar e crer, mas sempre com essa lúdica versão de desprezo, que nos desliga da objectividade, seja do fenómeno colectivo seja do próprio caso individual.

Digam agora se não é impossível governar gente assim.

Mesmo entendendo-a, não se governa; porque uma gente assim, seja vulgar ou excepcional, seja urbana ou campesina, só conhece na vida uma forma de coerência: a de não se comprometer com as suas próprias virtudes. Elas estão entre a existência pessoal do ser humano, mas não são o ser humano. São algo de individual ou de social, mas só isso. Governar pertence a essa região onde proliferam os erros e sobressaem as virtudes. Mas o homem, como acontecimento, não lhes pertence. Por isso é ingovernável. E o contrário é que seria assustador.



[Excerto da crónica escrita em Dezembro de 1978, 'Há muitas receitas' -- Agustina Bessa-Luís, in 'Crónicas da Manhã', ed. Babel]

Pinturas de Graça Morais. Teresa Silva Carvalho interpreta 'Quem sou'.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um glorioso dia de domingo

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