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domingo, junho 12, 2016

O amor verdadeiro e o electrão





Acredito no amor verdadeiro.

Passei duas décadas da minha profissional a estudar o acasalamento humano. Nesse período, documentei fenómenos que iam daquilo que os homens e as mulheres desejam nos seus pares até às mais diabólicas formas de traição sexual. Descobri as maneiras espantosasamente criativas que homens e mulheres empregam para enganar e manipular-se uns aos outros. Estudei caçadores furtivos, perseguidores obcecados, predadores sexuais e assassinos de cônjuges. Mas, ao longo desta exploração das negras dimensões do acasalamento humano, permaneci inamovível na minha crença no amor verdadeiro.

Ao passo que o amor é vulgar, o amor verdadeiro é raro, e acredito que poucas pessoas têm a sorte de experimentá-lo. Os caminhos do amor comum são muito frequentados, e se os seus marcos miliários são bem compreendidos -- a atracção mesmerizada, a obsessão por um ideal, a satisfação sexual, o auto-sacrifício frequentemente profundo, o desejo de combinar ADN. Mas o amor verdadeiro segue o seu próprio caminho, através de território desconhecido. Ignora limites, não conhece barreiras ou fronteiras. É difícil de definir, ilude a medição moderna, parece cientificamente inconsistente. Mas eu sei que o amor verdadeiro existe. Só não posso prová-lo.


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Acredito na ciência. Ao contrário dos teoremas matemáticos, os resultados científicos não podem ser provados. Podem apenas ser testados uma vez, e outra e outra e outra, até que somente um louco se recuse a acreditar neles.

Não posso provar que os electrões existem, mas acredito fervorosamente na sua existência. E se vocês não acreditam neles, tenho um aguilhão de alta voltagem, para o gado, que estou disposto a aplicar como argumento em sua defesa. Os electrões falam por si próprios.


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Throw away the lights, the definitions,
And say of what you see in the dark
That it is this or that it is that,
But do not use the rotted names.

[Excerto de Wallace Stevens no poema "Man With the Blue Guitar"]

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O primeiro texto é da autoria de David Buss que é professor na Faculdade de Psicologia da Universidade do Texas, em Austin, EUA.

O segundo texto é da autoria de Seth Lloyd que é engenheiro especializado em mecânica quântica e professor no Departamento de Engenharia Mecânica do MIT.

Os dois textos fazem parte da colectânea 'Grandes ideias impossíveis de provar' , um livro feito com a coordenação de John Brockman, ed Tinta da China, e que tenho lido com deleite enquanto apanho sol debaixo da minha big fig tree que rescende como nunca, sob este calor que prenuncia com vigor o verão que aí vem.


As fotografias foram feitas in heaven.

Lá em cima Aretha Franklin interpreta What I Did For Love sobre imagens do filme Sweet November 
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E, por falar em amor verdadeiro, uma vez mais a Petite Mort de Jiri Kylian pelo Netherlands Dans Theater


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E queiram, por favor, descer até a Ah, isso, menino é que era uma grande embaçadela!,
 um texto fantástico de Agustina Bessa-Luís.

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4 comentários:

Rosa Pinto disse...

já percebi.
Quando os spins são opostos os malandros dos eletrões que andam a rodopiar em cenas divertidas...fazem faísca...parecido ao fogo de artifício....e ficam emparelhados!

Anónimo disse...

Olá UJM. Um bocado triste essa distinção entre amor verdadeiro e amor comum. Parece que se está a desprezar algo que deve ser sempre celebrado. Além disso não concordo. O amor não é raro. Amo muita gente, marido, filhos, família, amigos. Por uns sou capaz de morrer, por outros talvez não. E acho que isso é tudo. Uma boa semana para si. Rita

Um Jeito Manso disse...

Olá Rosa,

Acho que não dá para perceber. Tem dias. Os electrões tais como os amores existem, produzem efeitos, provocam até choques mas, à vista desarmada, que é deles...?

Mas que existem, existem, pelo que estejamos disponíveis para aceitar a sua existância.

Um abraço, Rosa!

Um Jeito Manso disse...

Olá Rita,

Coisa de escritor: gostam de extremar. Mas é um facto que há amores que são arrebatamentos, paixão louca, eterno enamoramento.

E há outros que são mais aquietados, em que a coisa vai andando como um comboio interregional, pára arranca, devagar, devagarinho.

Claro que o amor dos filhos não entra nestas prosas: o amor dos filhos é incondicional, está acima de tudo, de qualquer classificação.

E aquele que sentimos pela família e amigos é também outro campeonato, uma estima, um afecto, que é sujeito a estados de espírito, a sentimentos de dever, a laços de sangue ou a solidariedades, etc.

Acho eu. Mas é um tema muito subjectivo.

E obrigada!

Uma boa semana também para si, Rita!