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segunda-feira, maio 09, 2016

Querido Diário - 5
Hoje vi uma igreja muito bonita


De tarde, andámos a passear. Depois de um sábado em que mal pus o pé na rua, este domingo o azul que espreitava entre as nuvens e o solzinho que, a medo, lá se ia afoitando, foi tentação a que não me dei ao trabalho de resistir. Passeio ao princípio da manhã, à tarde e quase até à noite.

Já não íamos há algum tempo ao Jardim da Estrela. Dantes atravessava-o todos os dias pois morava lá perto e ficava-me em caminho. Anos depois, ia por ali perto frequentemente mas por razões distintas. No entanto, na Basílica não entrei muitas vezes. A bênção das fitas da minha filha foi lá. Sem ser baptizada nem nunca ter tido práticas religiosas, naturalmente que não ia afastar-se do grupo de colegas e, portanto, lá fomos, a família inteira, avós incluídos, a minha mãe, claro, toda de lágrima no olho. Cantaram, acho eu. Estava toda feliz, elas e os colegas. Volta e meia ainda vejo algumas, continuam a dar-se.

Hoje apeteceu-me entrar. Bonita. Gosto muito de igrejas, são edifícios de uma arquitectura vigorosa mas elegante, com uma escala que pretende trazer a iluminação divina aos que pisam a terra.



Ouviam-se cânticos. tentei perceber se estava algum coro mas não vi, talvez fosse uma gravação. Eram vozes femininas suaves que ondulavam como as florzinhas que veria depois, no campo.

Estava pouca gente, apenas algumas pessoas rezando. Nunca estive assim, em silêncio, sentada, numa igreja, só por mim. Quando não estou em acontecimentos familiares ou festivos ou tristes, vou em turismo: entro, olho, dou uma volta, sinto que aquele ambiente que me traz uma grande tranquilidade. Penso que talvez tenha a ver com a dimensão do espaço, com a luz velada, com o silêncio ou, neste caso, com os cânticos, e, também, com a quietude que se sente no semblante dos outros que lá estão.

Um dia tentarei deixar-me estar assim, um bocado, sem fazer nada, sem olhar, sem fotografar, sem pensar. Tenho que ter cuidado com isso pois, não sei porquê, mal me distraio, em lugares assim, dá-me para mentalmente agradecer. Geralmente sinto-me agradecida mas não sei a quem e, ali, vá lá saber porquê, dou por mim a agradecer. Ou, então, o que é ainda mais sem jeito, a pedir. Claro que, mal tomo consciência, me recrimino: a que propósito aproveito para pedinchar? E a quem é que estou a pedinchar?


Mas estas coisas não são conscientes. E eu estou longe de ser coerente. Muito menos perfeita. Por isso, frequentemente faço coisas irracionais e que, mesmo que queira, não consigo justificar.

Mas, independentemente do significado de tudo isto, acho estas imagens de uma grande beleza. Mesmo que me quede pelo lado estético, confesso que me sinto pequena perante a dimensão da beleza algo transcendental destas imagens, destes espaços. Ou desta luz. Ou do cuidado com que tudo está disposto, acarinhado. Não sei. Mas acho que não vale muito a pena tentar saber.

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Sobre os cânticos lá em cima, Ave Maria e Quam Pulchra, transcrevo: Il coro femminile Eos, diretto dal Maestro Fabrizio Barchi, al concerto eseguito presso la Basilica Papale di San Giovanni in Laterano in Roma in occasione del pellegrinaggio dei Cavalieri del Santo Sepolcro di Gerusalemme per l'anno mondiale della fede.
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Convido-vos a descer até ao último capítulo do meu diário relativo a este domingo.

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