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segunda-feira, maio 09, 2016

Querido Diário - 6
Hoje vi florzinhas do campo e moinhos e castelos


Ao fim da tarde, depois de encontros familiares, andei pelo campo. Campo, campo. Li uma vez que o Sebastião Salgado só tinha conseguido fotografar uma tartaruga quando ela confiou nele e não se retraíu nem recuou. Para isso ele teve que se pôr ao nível dela, deitado no chão, olhando-a nos olhos, ela sentindo-o como igual.



Acontece-me também sentir isso mesmo em relação a florzinhas, especialmente às pequenas florzinhas do campo, aquelas pequeninas, muito delicadas, perfeitas na sua singeleza. Se as fotografar de cima, pode correr-se o risco de que pareçam insignificantes, nós grandes na nossa prosápia e elas rasteiras, frágeis. Ora, é o contrário. Por isso, para retratar a realidade tal como a sinto, baixo-me, ponho a câmara perto delas.

Aquela estrela da serra, caída em verde, dançando ao vendo sobre a rocha. Tão bonita. A rocha tem ainda restos de musgo, folhas secas, pedrinhas que alguma menina deixou cair, talvez eu a brincar às pedrinhas, pedrinhas na mão, virando a mão, vendo quantas se aguentavam enquanto eu as atirava ao ar e as tentava aparar. Não aqui, longe, mas talvez o vento ou as minhas recordações as tivessem trazido. E a estrela verde dança, estrela do mar, estrela do céu, estrela verde da terra.

E depois há algodõezinhos, pelinhos cor-de-rosa, pluminhas brancas, tulipazinhas peludas, delicadas espigas.

Passávamos a mão pelos caules, ficávamos com as espigas na mão, depois atirávamos à roupa uns dos outros para ver quantos namorados teríamos, e eu gostava de ter várias espigas. Meninas e meninos inocentes como este campo de florzinhas.


Gostava de conseguir ouvi-las. Não, não ouvi-las que talvez elas não falem, mas ouvir o que elas ouvem. A aragem junto aos seus caules, o vento que as faz oscilar. Soar-lhes-á como uma feroz ventania? Gostava também de saber se têm percepção umas das outras. Acredito que sim. Não sei se existe entre elas uma hierarquia. Talvez sim, talvez umas sacrifiquem os alimentos de outras, para seu próprio proveito. Mas, vendo-as assim, sorridentes e verdejantes, parecem tratar-se, umas às outras, como iguais.

Se alguém depositar o pó em que um dia me transformarei na terra onde crescem florzinhas assim, terão elas consciência de que ali está o que em tempos foi uma mulher humilde que desejou ser aceite por elas, seres infinitamente superiores?


Conversas sem raíz, estas minhas, talvez palavras envoltas em sonhos. Não sei. Digo-as como palavras de verdade mas não sei se alguém mais as achará razoáveis. Não faz mal. Já voaram.

Ali, na Serra do Louro, mais ao longe o castelo de Palmela, mais ao longe ainda o Sado e outras serras - o campo, tão campo, tão perto da cidade.

Estava já frio, o vendo tornou-se instável, tive que colocar uma écharpe. A écharpe é de lã fininha, em verde claro e tem bordadas umas florzinhas encarnadas e tem cosidas umas pequenas lantejoulas em verde ainda mais clarinho. Mesmo a condizer com as florzinhas do campo.


Antes de vir para casa fui comer caracóis. Ou melhor: caracoletas. Há quem não goste. Eu gosto. Belas, rijas, saborosas, sabendo a campo e a orégãos. Depois, quando cheguei a casa, pus a roupa a lavar, arrumei umas coisas e, quando estava tudo feito, deitei-me no sofá e comecei a ler a biografia de Isadora Duncan até que adormeci. Agora estou fresca como se fosse de manhã.
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The Sleeping Beauty - Bluebird and Princess Florine pas de deux 
Yuhui Choe e Alexander Campbell da The Royal Ballet
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Lá em cima, era Catrin Finch na sua harpa tocando Blessing de John Rutter

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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