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sexta-feira, maio 27, 2016

O artista dos mamilos


Penso que todas as mulheres conhecem o potencial erótico dos seus seios. No outro dia ouvi uma mulher dizer, num vídeo que aqui coloquei, que a mente masculina é que implantou erotismo nos seios femininos porque a função deles é amamentar os filhos. Não vou avançar por aí porque essas discussões do ovo e da galinha ou do homem versus mulher não me interessam. Os homens gostam dos seios femininos e ponto. E penso que, por isso ou independentemente disso, as mulheres gostam de ter seios bonitos ou gostam que gostem dos seus seios. Claro que haverá excepções mas, como não fiz qualquer estudo sobre o assunto nem me documentei, falo de cor, falo do que conheço. Claro que uma mulher gostar dos seus seios não significa que os ache perfeitos pois tal como o cabelo, as pernas, as ancas, a estatura e tudo o mais, nunca nada está na medida certa. Mas, enfim, é o que há e, portanto, em vez de uma pessoa viver infernizada com a sua natureza, o melhor é tomar os seus atributos por aliados e, na medida do possível, valorizá-los.

Mas por vezes a natureza é traiçoeira.

Do que sei, quando a uma pessoa é diagnosticado cancro, a sensação é de que uma traição ocorreu e que a vida está prestes a entrar no beco de todas as desgraças onde o pior pode acontecer.

Quando a minha mãe foi fazer uma colonoscopia, convencida de que não tinha nada de especial, felizmente estando acompanhada por uma amiga, ficou quase sem acção quando a médica, no final, lhe disse que tinham que conversar, que deveria marcar com urgência mais uma série de exames e que deveria ser operada o quanto antes. Nessa altura, ela ligou-me e, num fio de voz, disse-me que era melhor eu ir lá porque havia coisas a combinar.

Voei, aflita, e, quando cheguei, encontrei-a com a amiga, a amiga em silêncio e ela, branca, voz quase sufocada, pensando no que iria acontecer ao meu pai, naquele estado, estando ela fora, no hospital. Antevendo o pior para si própria, era sobretudo com ele se preocupava.

Em cerca de umas duas semanas estava a ser operada, meio cólon para o lixo, e felizmente, até ver, tudo a correr bem. Provavelmente apanhou o bicho mau ainda no início. Quando me fala no que aconteceu quase a querer considerar-se doente digo-lhe que esqueça, que teve uma porcaria dentro dela mas que, em boa hora, deu por isso e que acabou, está boa, melhor agora que antes porque antes a semente do mal provavelmente andava por lá e agora, tendo sido detectada, foi varrida de cena. Digo estas coisas assim, provavelmente carregadas de ignorância, mas que me tranquilizam e que, sobretudo, quero que a tranquilizem a ela.

A mulher de um colega meu também teve uma má notícia: no peito. Um seio à vida. Teve menos sorte que a minha mãe porque teve que fazer quimioterapia. Passou mal. Caíu-lhe o cabelo. Esteve cá em casa na altura em que usava peruca. Fomos todos dar uma volta a pé menos ela que não quis, estava vento e tinha medo que o cabelo voasse. Teve uma menopausa antecipada. Tornou-se hipersensível. O marido sofreu por ela e pelo que teve que lhe aturar. Fez uma reconstrução. Não sei se ficou bem pois nunca falou no assunto. Mas ficou livre do cancro e isso foi o mais importante.

Aquela amiga da minha mãe, uma corajosa ex-professora de oitenta e tais anos, viúva, já não tem seios nem parte do estômago. Tudo isso lhe aconteceu tarde na vida. Mas vive descontraída e feliz como uma menina que nada soubesse da vida. Passeia que se farta. Fala com acentuado sotaque alentejano, cheia de bom feitio, disponibilidade e graça. De vez em quando, encontro-a em casa da minha mãe: conversam e riem-se. Por vezes, lá vem à baila alguma preocupação. 

No entanto, imagino que, nos casos em que a reconstrução mamária não é perfeita, sobretudo quando a mulher ainda tem uma vida sexual activa ou um parceiro com quem partilha a sua intimidade, subsistirá alguma frustrante inibição, a nudez deve ser uma provação -- como se a lembrança do que aconteceu lhe tivesse ficada gravada na pele. Esta é uma mama a fingir porque por aqui passou um bicho mau que devorou a original.

Vi uma reportagem da The New York Times, que já não é de agora, sobre um homem que dedica a sua vida a fazer tatuagens em seios reconstruídos, simulando na perfeição os mamilos. Gostei de ver. Geralmente associamos as tatuagens a alguma subversão ou a um tipo de estética alternativa e, no entanto, a tatuagem pode também ter uma função em que nunca tinha pensado.

Partilho convosco este vídeo que a mim me comoveu pois pode acontecer que seja útil a alguém. 

The Nipple Artist | The New York Times




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2 comentários:

Fernando Ribeiro disse...

Em fevereiro do ano passado, foi-me diagnosticado uma neoplasia na bexiga, depois de eu ter começado a urinar sangue. Fui operado de urgência para estancar a hemorragia e extrair o tumor. Em abril voltei a ser operado, porque a própria bexiga tinha sido invadida pelo cancro. Tiraram-me a bexiga e fizeram-me uma bexiga artificial, com um pedaço de intestino delgado.

Sabe como foi que eu superei psicologicamente a difícil situação? Continuando a publicar o meu blog, como se não estivesse a acontecer-me nada, como se eu continuasse são como um pero. Cheguei ao ponto de publicar o blog deitado na cama do hospital, com três tubos a sairem-me da barriga, além de uma algália num certo sítio e um tubo de soro metido no braço. Abençoada internet e abençoado blog! As minhas navegações na internet e a minha preocupação com a publicação do blog distraíram-me o espírito e mantiveram-me com vontade de continuar a viver, pois acompanhava a vida que continuava lá fora e dialogava com ela.

Estou bem, tanto quanto é possível dizer que estou bem. Faço uma vida ativa e normal, pois o cancro não voltou a dar sinais de "vida". Disse-me o cirurgião: «Pode considerar-se curado. Ainda tem muitos anos de vida pela frente». E cá estou. Espero que não tenha notado nada de fora do normal no meu blog durante este ano que passou.

Rosa Pinto disse...

O cancro é uma doença terrível. O tratamento é violento. Cada pessoa tem o seu modo de reagir.
Infelizmente perto de mim já muitos casos aconteceram.
Por vezes, assim como uma aragem gelada ressoa na minha cabeça - e se fosse comigo?
Fecho logo a janela fo pensamento. Logo se verá. Acredito que slgimas estrelas no céu olham por mim.
Coragem aos que lutam. Vivam cada momento.