Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, maio 18, 2016

De quantas camadas de pele tem um homem que se despir até que os outros percebam que está em carne viva?


Clara imprimiu uma fotografia de um lugar recôndito da China chamado Yili, um lugar tão lindo que parece um sonho, comprou uma moldura e pregou-a junto à janela, na parede da sala do pequeno apartamento onde Pedro agora vive. É para lá que ele olha quando lhe parece que o mundo escureceu e que um manto de sombras viscosas e doentes se abateu sobre os seus dias. E, por vezes, vendo a poeira dourada que se solta à passagem dos cavalos, quase se sente de novo a cavalgar pela herdade, livre e feliz como então julgava que era. 



Mas depois desvia o olhar. Não quer sonhar sonhos mortos. Prefere olhar o vazio. Há mais verdade no negrume que o circunda do que no rosa florido de árvores longínquas ou no cavalgar ao sol de cavalos que talvez nunca mais torne a ver em liberdade.


De quantas camadas de pele tem um homem que se despir até que os outros ercebam que está em carne viva?

Nos últimos tempos, Pedro foi atravessando, uma a uma, todas as provações que a vida lhe tem reservado.

       Muitos trabalhadores, alguns de tão longa data, estão no desemprego, outros com salários em atraso, outros a trabalharem para novos patrões em condições tão piores que as que tinham. O sentimento de deixar no desamparo aqueles por quem uma pessoa se sente responsável é muito dolorosa. Uma pessoa sente-se desleal, não confiável, um fracasso.

       A mulher de quem já estava quase separado antes de tudo acontecer, moveu-lhe um processo de divórcio litigioso, parece tomada pela insensatez mais absoluta.

       Os filhos parece terem herdado o lado materialista e agressivo da mãe, revoltam-se contra ele, desprezam-no, acham-no um fraco quando antes viviam confortavelmente à sua sombra.

       As irmãs divorciaram-se e ficaram pouco mais que na miséria, para além de deprimidas, meio perdidas, incapazes de se situarem numa nova realidade.

       Vários sobrinhos menores saíram de casa e, por vezes, ninguém sabe bem por onde andam.

      Um dos irmãos suicidou-se, o outro tentou sair do país apesar de proibido e, tendo reincidido, agora está preso.

      A mãe vive num estado de ausência que ninguém percebe se é demência, se é uma fuga à realidade: pouco fala, pouco se queixa.

     E o pai está muito mal, internado, com uma insuficiência cardio-respiratória. Ligaram-lhe do hospital e Pedro, a contragosto, vai visitá-lo.

Antes de ir, uma vez mais, Pedro senta-se em frente da janela, cabeça baixa, e olha o vazio. Por vezes ensaia um sorriso, gostava que o pai o visse forte. Mas logo o sorriso se esvai e fica apenas uma angústia a apertar-lhe o peito.


Embora no desvario que se apossou da família todos culpem todos e, de uma maneira geral, seja sobre si próprio que recaem quase todas as culpas já que, tendo o pai funções não executivas, era ele o administrador executivo com maior poder, Pedro tem dificuldade em assumir-se como inteiramente responsável por toda a hecatombe que, em pouco tempo, submergiu todo o grupo.

À luz do que se passou, não tem dúvidas em concordar que a gestão praticada assentava em bases mais do que frágeis mas a legislação favorecia a não utilização de capitais próprios, as escolas ensinavam que a maximização da criação de valor para o accionista se conseguia quando se recorria a financiamento alheio, nomeadamente ao bancário, os bancos viviam da concessão de crédito, os banqueiros recebiam bónus tanto maiores quanto a carteira de crédito concedida, e assessores e consultores ajudavam na optimização fiscal, na maquilhagem das contas - e o que era preciso era expandir, internacionalizar, e todos os indicadores de gestão assentavam em índices de crescimento que se queriam ousados. 

Não tivesse havido a crise financeira e não tivesse falhado a primeira pedra e todas as outras talvez se tivessem mantido no equilíbrio em que viviam desde há anos. Mas a crise precipitou tudo. E os bancos começaram a executar garantias e, às tantas, já não havia nada material para dar, só dívidas, hipotecas, obrigações a valerem zero, mãos cheias de nada. Os últimos dias foram trágicos com traições familiares, muitos de cabeça perdida, e o pai, prepotente, a fazer disparate atrás de disparate. De quem foi a culpa? Dele? Talvez. Mas de muitos mais. Do poder político, do poder financeiro, da comunicação social que ajudou a manter as aparências, que dourou pílulas que eram tudo menos douradas, da sociedade que fingiu nada perceber. Da família, que se achou dona do mundo. De todos.

Mas, quando o chão foge, fica-se sozinho. Os outros, todos os outros, desaparecem. Quem são? Todos e ninguém. Todos aqueles que, mensalmente recebiam muitos milhares a troco de nada, supostamente a troco de contactos, de uma agenda telefónica bem recheada, esses nem o reconhecem se o virem na rua. 

Por isso, Pedro foi sendo desapossado da sua pele, da sua identidade, da sua auto-estima. Dos seus tão amados livros. Da sua vida. Até das suas memórias. E, as que sobram, ele teima em apagá-las. Em carne viva, agora, Pedro vai visitar o pai.

Clara, uma vez mais, vai acompanhá-lo. Encontram-se em casa dele. Não voltaram a fazer amor mas estão muitas vezes abraçados, em silêncio. Clara tenta animá-lo, sorri enquanto fala e Pedro sente-se mais tranquilo quando ela está por perto.


Pedro não sabe o que vai encontrar no hospital. Não sabe se o pai está lúcido, se também o culpa. Provavelmente sim. É fácil acusar aquele que todos acusam -- e do pai, desde há muito, está habituado a esperar o pior. O velho empresário sempre foi um exemplo para a sociedade mas, em casa, sempre teve um comportamento muito pouco exemplar.

Pedro nunca o disse a ninguém, nem sequer a Clara: na opinião dele, a nível familiar, o culpado de tudo é o pai. As benesses que distribuíu, os contratos ruinosos que fez, as promessas que fez sabendo que dificilmente as cumpriria, o dinheiro que desviou da companhia ainda que de forma que se pode considerar lícita, milhões e milhões, as mentiras que foi contando, a ficção que construiu à sua volta, os investimentos absurdos com que comprometeu as empresas - tudo obra do pai. E ai de quem o contestasse. Talvez só Pedro e um dos irmãos, o Filipe, que não resistiu ao descalabro, soubessem daquela contabilidade criativa e clandestina de que só o pai, na íntegra, tinha conhecimento. Mas também não é agora, em que nada há a fazer e em que não quer correr o risco de precipitar uma morte que se avizinha, que Pedro o vai denunciar.

É, pois, com as mãos transpiradas, ansioso e, até, com medo, que Pedro se aproxima da enfermaria em que o pai está internado. Da porta, olha as camas. Três velhos e nenhum parece o pai. Clara aperta-lhe o braço, tenta encorajá-lo. Ele avança na enfermaria, o coração enervado, sem perceber. Algum daqueles velhos é o pai?

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Lá em cima Bernardo Sassetti interpreta Sonho dos Outros. Com excepção das suas fotografias, as outras que aparecem no vídeo são da autoria de Robert Mapplethorp.
Aqui mais abaixo Kenneth Branagh diz To be or not to be do Hamlet de Shakespeare

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O episódio de hoje vem no seguimento de A primeira noite de amor. De lá poderão ir recuando para os capítulos precedentes. E termina com 'Pedro e Clara - a vida continua'

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Entretanto, aqui já abaixo poderão encontrar um post a que dei o nome de Smile ou Give me a kiss to build a dream on que fala e mostra como é que eu vejo o mar (e quem assim olha o mar fala também da liberdade que sente quanto fotografa, pinta, escreve ou faz tapetes de arraiolos).


1 comentário:

Rosa Pinto disse...

Coitado. Há que dar a volta e voltar a sorrir.
Situação parecida é trabalhar com muitas mulheres venenosas. ..sim porque não há quem lhes ganhe...julgam que os outros assim pensam...mas não. ..ressabiadas isso sim - para não dizer em bom português.