Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, março 26, 2016

Um par de sapatos


Um par de sapatos -  Vincent van Gogh, 1886


Se, entretanto, já leram o que escrevi no post mais abaixo, saberão que, a ler livros que percorrem os caminhos do pensamento, não sou flor que se cheire. Não fui feita para nadar nas funduras, sou mais de procurar a luz que beija a superfície. Os labirintos do fundo do mar, que são parecidos com as convoluções da mente, contêm meandros onde há que ter vagares para se lá estar; ora, eu não sou de me deter, em sossego, nos desvãos por onde algumas mentes gostam de vaguear. Se por, um acaso ou incontida curiosidade, não resisto e por lá entro, logo quero perceber onde eles levam, quero atalhar caminho, fazer batota, chegar ao fim. O verdadeiro prazer de percorrer os caminhos apenas o alcanço se vou sem ir pela mão, se puder ir, em campo aberto, a correr ou aos saltos se assim me apetecer, se puder interromper, mudar a meio, parar a olhar para o outro lado, sair do trilho, subir a rochas para de lá olhar noutra direcção.

Mas, se isso é verdade, não o é menos se eu disser que inesperado e gostoso prazer tenho também se, andando por lá, ansiosa, querendo ver a luz -- sentindo que mergulhei num deserto sufocante feito de corredores cheios de intermináveis prateleiras, e prateleiras cheias de infinitas gavetas, e gavetas cheias de minúsculos e incontáveis compartimentos, e tudo, tudo, tudo, com etiquetas, etiquetas desnecessárias, repetitivas, ilegíveis -- descobrir, de repente, um oásis, uma clareira, uma luminosa e acolhedora capela.

Transcrevo:

(...) Pela pintura de van Gogh nem sequer podemos determinar onde estão estes sapatos. À volta deste par de sapatos camponês não há nada a que possam pertencer, nem aonde, apenas um espaço indeterminado. Nem sequer estão pegados a eles torrões de terra do campo de cultivo ou dos carreiros, o que poderia ao menos apontar para o seu uso. Um par de sapatos de camponês e nada mais. E, apesar disso...

Da abertura escura do interior deformado do calçado, a fadiga dos passos do trabalho olha-nos fixamente. No peso sólido, maciço, dos sapatos está retida a dureza da marcha lenta pelos sulcos que longamente se estendem, sempre iguais, pelo campo, sobre o qual perdura um vento agreste. No couro, está a marca da humidade e da saturação do solo. Sob as solas, insinua-se a solidão do carreiro pelo cair da tarde. O grito mudo da terra vibra nos sapatos, o seu presentear silencioso do trigo que amadurece e o seu recusar-se inexplicado no pousio desolado do campo de Inverno. Passa por este utensílio a inquietação sem queixume pela segurança do pão, a alegria sem palavras do acabar por vencer de novo a carestia, o estremecimento da chegada do nascimento e o tremor na ameaça da morte. Este utensílio pertence à terra e está abrigado no mundo da camponesa. (...)

Todas as vezes que a camponesa, já noite dentro, põe de lado, no seu cansaço dorido mas são, os sapatos e, estando ainda escura a madrugada, os volta a tomar para si, ou quando, nos dias de descanso, passa junto deles, ela sabe tudo isto sem quaisquer considerações ou observações. (...)

Camponês e camponesa plantando batatas -  Vincent van Gogh, 1885



Prelúdio em B-flat Minor, BWV 867 -- J.S. Bach, Nancy Gerst, pianista

com as palavras de Martin Heidegger em 'Caminhos de Floresta' 

no capítulo 'A origem da Obra de Arte'

(de onde também transcrevi as palavras acima a partir do livro da ed. Fundação Calouste Gulbenkian )


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E queiram, então, se para aí estiverem virados, claro, descer até ao post seguinte onde se fala também de arte com alguns casos práticos.

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6 comentários:

Joaquim Castilho disse...

Olá UJM!
Acrescento ainda alguma coisa à minha longa “narrativa “ de ontem uma vez que, só depois de enviada, reparei que me esqueci (???!!!) da linguagem dos sons.. e talvez seja falando de música , da linguagem músical, que o meu texto possa ganhar alguma verosimilhança!
O canto gregoriano, a ars nova, as linguagens trovadorescas medievais , as oratórias. os madrigais , o nascimento da ópera, a música pré-barroca , o barroco , a musica clássica o romantismo, o impressionismo etc. ,etc.
Linguagens que poderemos ir compreendendo e que nos vão facilitando a recepção de sonoridades diversas , de diversas épocas, que traduzem emoções ,memórias, planícies e montanhas que descobrimos e por onde é bom viajar.
Encontrámos desde o século passado o dedecafonismo, a musica minimal repetitiva e outras linguagens como a do referenciado Eric Satie, inclassificável como ele próprio, depois becos sem saída como Scelsi, Stockausen, Boulez , Xenakis que sábia e honestamente tentaram novos caminhos. Novas clareiras com Gubaidulina ,Ligeti ou Part e tantos outros que procuram e talvez tenham encontrado e que terão aberto caminhos que os “ mais famosos” vieram a revelar.
Botas como as de Van Gog ou torturadas paisagens como as Caspar David Friedrich enriquecem-nos porque terá havido sempre e continuará a haver alguém que, através da Arte, nos quererá dizer qualquer coisa e nos irá sendo possível sentir o que nos querem transmitir mesmo sem os compreender. Ligação absolutamente necessária entre o emissor criadore o receptor fruidor da obra de Arte .
Chega de pseudo erudição de pacotilha!
Termino com o mesmo elogio deslumbrado mas sempre muito sincero que lhe costumo fazer, perdoe-me a híperrepetição, o seu texto neste post é mais uma vez uma maravilha!

Um abraço

Rosa Pinto disse...

“Grandes realizações não são feitas por impulso, mas por uma soma de pequenas realizações.” - Van Gogh

Um bom domingo de Páscoa para si e todos os seus.

P. disse...

Este tema, sobre o que é a Arte é muito interessante e estimula uma boa e saudável discussão. Aqui há uns bons meses comprei um livro na FNAC que aborda esta questão de uma forma curiosa e mesmo cativante. Uma excelente obra. O autor é Julian Bell e o livro intitula-se, “Espelho do Mundo – Uma Nova História de Arte”. Já conclui a sua leitura há uns tempos e não me arrependi um momento sequer. É um livro grande, de muitas páginas, que leva tempo a ler – com atenção. Como o levei outro dia para o meu escritório, para dá-lo a conhecer a um colega (que tinha manifestado vontade em o ver), logo volte ao trabalho se descobrir no seu conteúdo algum contributo que ajude a enriquecer esta discussão sobre o tema do que é Arte, envio-lhe. No fundo, o significado de Arte tem também a ver com as sensibilidades de cada um. Da percepção que temos de objectos (um quadro, uma escultura, por ex) e sons (música), por exemplo. Mas, julgo também sobre o sentido desses mesmos objectos e sons. Da sua beleza. Da sua capacidade de nos atrair. Daquilo que podem significar e transmitir. E talvez também da dificuldade da sua execução (quer pela duração da sua concepção, quer pelo esforço mental que exigiu, etc). Há muitas variantes no que respeita ao conceito que nos leva a definir Arte. E a Arte e o seu conceito evoluiu, ao longo dos tempos. E houve momentos em que aquilo que se seguiu, um novo estilo, foi rejeitado de início, para ser admirado mais tarde. Na Pintura (recordemos as primeiras reacções aos artistas Impressionistas, um dos vários exemplos), como na Escultura, como na Música (Stockausen, Xenakis, etc, aqui mencionados por outro Leitor que gosto de ler). Mas, também na Literatura. António Lobo Antunes, se bem me recordo, teve os seus contestatários pela forma como se revelou a escrever, ao não seguir a escrita com a pontuação tradicional (o mesmo para Saramago, que depois foi Prémio Nobel). Nalguns casos, o que chocou o conceito de Arte foi a sua (total) inversão. Por exemplo, como dizia um crítico, a descontrução de se conceber Arte. Picasso e outros foram exemplos disso (todos os movimentos que se seguiram ao Impressionismo, para além do Cubismo, o Surrealismo, o Expressionismo, Fauvismo, Futurismo, etc, ousaram reinventar a concepção de Arte). Passaram a conceber a Pintura de uma forma até ali completamente diferente. Foram ousados e criaram um novo estilo. Inovaram. Goste-se ou não, ninguém discute hoje as suas qualidades artísticas e o seu lugar – relevante - na História da Pintura. Naturalmente que há e houve em muitos casos, na concepção de determinada obra (Pintuta, Escultura ou Composição musical), razões de natureza pessoal, experiências ou vivências desse tipo que levaram à concretização dessa obra. Os exemplos são vários, alguns até fascinantes. Agora, também terá de haver algum rigor para se considerar, ou incluir no conceito de Arte, determinada obra. É que nem sempre um excesso de ousadia, ou de inovação, ou de desconstrução, ou de abstracção, pode, ou deve, ser considerado Arte. Ou não deveria. Hoje, todavia, relativizou-se muita coisa, até na Arte. Por mim, desde que uma composição musical, um quadro, uma escultura, um livro, me fascine, pelo gozo que me deu de o desfrutar, já me sinto feliz.
P.Rufino
(PS: tenho imenso respeito por Martin Heidegger (com quem Herbert Marcuse colaborou, em particular num trabalho sobre Hegel – sempre admirei muito Marcuse), mas ainda hoje me custa entender aquela sua atitude perante o Nazismo, sobretudo vindo de alguém da sua estatura intelectual. Ficou a dever bastante a Hannah Arendt(com quem teve um “affair”, a sua recuperação , ou “desnazificação”). Outra nota: embora goste de Van Gogh, prefiro, por ex, Renoir (ou Monet, Manet).

Um Jeito Manso disse...

Olá Joaquim,

Pelo interesse e abrangência, vou tomar a liberdade de pegar neste seu texto, juntá-lo ao anterior e a um do Leitor P. Rufino e fazer um post.

Gostei de ler... muito!

Uma boa Páscoa para si e para a sua família.

Um Jeito Manso disse...

Olá Rosa Pinto,

Obrigada pela citação que vem a propósito e que acho que reproduzem a situação comum.

Agradeço os seus votos e retribuo: uma boa Páscoa para si e para a sua família.

Um Jeito Manso disse...

Olá P. Rufino,

Tal como referi na resposta ao comentário do Joaquim, vou tomar a liberdade de pegar no texto do seu comentário e fazer um post. é um tema que me interessa e acho interessante dar voz a outras vozes.

Obrigada.

E uma boa Páscoa para si e para a sua família.