Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, março 09, 2016

Depois de, abaixo, ter falado do camiliano Henrique Raposo, porque é que no Dia da Mulher praticamente não falo do Dia do Mulher nem dessa coisa que é a condição feminina?


Que há muitas mulheres injustamente relegadas para plano secundário, há, que há muitas mulheres ignobilmente mal pagas, há, que há muitas mulheres exploradas, há, que há muitas mulheres alvo de todas as espécies de injustiça, há. Tal como há muitos homens.

Por isso, não vejo que a solução para isso passe por andar a afunilar as acções de protesto apenas numa parte do problema. A questão, penso eu, é que as sociedades em que isto se verifica são sociedades atrasadas, em que prevalece a mediocridade, em que as elites são néscias, onde, por todo o lado, há burros que andam em duas patas.

Fantástico friso de mulheres bigodudas que Leitor, a quem muito agradeço, me enviou

Eu, que vivo a maior parte do meu tempo, especialmente a nível profissional, num mundo de homens, nunca me passou pela cabeça protestar contra alguma coisa que me aborreça atribuindo culpas ao facto de me tratarem assim ou assado por eu ser mulher: se protesto é porque acho que alguém agiu estupidamente. Luto contra as injustiças e as burrices sejam elas dirigidas contra homens ou mulheres e venham elas de homens ou de mulheres.

Um homem (ou uma mulher) que ainda pense que as mulheres são seres inferiores só pode ser um ser mentecapto. Por isso, a primeira coisa a fazer é tirar-lhe poder. A seguir é desprezá-lo. Depois, quando ele tiver ido ao lugar, se se achar que é recuperável, é tentar educá-lo. Se não se conseguir fazer nada dele, é esquecer. 

Tirando isso, acho eu que homens são iguais a mulheres? Claro que não. São diferentes e, como tal, devem ser tratados. Mas uma coisa é um homem ser gentil para com uma mulher, deixá-la passar em primeiro lugar, servir-lhe a água numa reunião, ter uma ou outra gentileza, e outra é achar que lá porque a mulher aprecia cavalheirismos, já aprecia ser, em todos os quadrantes, tratada como uma florzinha, uma débil mental.

Portanto, importante mesmo acho que é apostar na educação e na cultura de toda a gente. Quanto mais atrasada e inculta é uma sociedade mais o machismo terá terreno fértil para se exercer. Gente matarruana, sem mundo, padece de machismo tal como padece de mil outros males.

Bem disse Malala Yousafzai:


Além disso, isto de as próprias mulheres se auto-censurarem com medo de ficarem mal vistas ou, então, o que é desgraçadamente muito comum, caírem a pés juntos sobre outras mulheres que ousem levantar a garimpa, é do mais castrador que há e só ajuda a perpetuar o social-labreguice que impera nas sociedades atávicas.

Já lá dizia Eleanor Roosevelt:

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O porque, sobre isto do Dia da Mulher, nada mais me ocorre dizer, é que não me dá para me pôr para aqui com loas às maravilhas da condição feminina ou com farpas ao género masculino.

Peace and love é o que eu desejo a homens e mulheres. E um banho de educação em cima de todos os que ainda andam à cata de minhocas quando a guerra requer armas mais maciças.

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E, se descerem até ao post seguinte, encontrarão a razão pela qual ainda não me tinha pronunciado sobre o livro dessa novissumidade que dá pelo nome de Henrique Raposo nem sobre a guerra que lhe moveram nas redes sociais. E, de carrinho, ainda poderão ler a minha opinião sobre mais uns quantos que por aí andam (como, por exemplo, o Henrique Monteiro que parece que apresentou o opúsculo alentejano da sumidade). O Expresso os vai parindo, o Expresso os vai amamentando e eles, aos poucos, o Expresso vão destruindo. Lamento se desiludo alguns de vós ao dizer isto mas é o que é: acho que o que escrevem e dizem não vale um caracol furado. Mas, enfim, sobre isso falo a seguir.


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1 comentário:

P. disse...

Hoje assisti a este episódio:
Era uma mulher jovem. O comboio ia cheio. Como o apanhei já quase a partir, fiquei em pé, quase toda a viagem. Arrependi-me, sei lá porquê, de ter usado o comboio. Ela estava sentada ali perto de mim, ou melhor, era eu que estava de pé, ali perto dela. Passaram três estações e entram entre outras pessoas, um homem idoso. Apoiado numa bengala. E fica ali, perto dela. Ela, olhando um pouco de soslaio para ele, fechou o livro que estava a ler, levantou-se e disse-lhe: “sente-se aqui, eu cedo-lhe o meu lugar!”
O idoso ainda tentou protestar, que não, ela era uma mulher, etc. Resposta dela: “bem sei, mas sou mais jovem e é o senhor que mais precisa deste lugar!”
O velho senhor agradeceu com um sorriso meigo e, aceitando, sentou-se.
Logo depois, outro individuo, no lugar ao lado, ofereceu-lhe, a ela, o seu lugar. Mas, ela recusou, com um sorriso nos lábios.
A lição estava dada. De forma magistral. Por aquela mulher jovem. Por mim, sorri-me. Curiosamente, no Dia Internacional da Mulher. Pensei: “aquele idoso já leva uma pequena história para contar, lá para casa”.
E ainda tive tempo para comprar umas flores. Sei que ela, lá em casa, gosta. E se assim é, porque não dar-lhe esse pequeno prazer e fazê-la sorrir. Sorrir para mim. Porque não?
P.Rufino