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quarta-feira, janeiro 13, 2016

Viver no céu -- Quando a tarde cai, quando a noite se aproxima [Sexto (e último) de seis postais ilustrados do Gerês]




O dia, que começara entre nuvens, veio a acabar dourado, os montes reflectidos na superfície espelhada das águas, as árvores belíssimas e suaves orlando com delicadeza as margens. O ar perfumado de musgo molhado e de cedros altíssimos estava mais fresco mas a baixa temperatura ainda amena, a luz dulcíssima, a terra atapetada de fetos encarnados, molhados, e, por todo o lado, muitos fetos verdes, rebentando das rochas, e, omnipresente, a água jorrando da terra. Mas, com o entardecer vem a quietude, as cores ficam mais profundas, a beleza mais intensa.


Gostava de poder sentar-me numa rocha e ficar em silêncio, demoradamente, contemplando estas paisagens perfeitas, até que a noite caia, até que a aurora desponte, até que o sol suba pelos ares, até que, depois, se deite, afagando o horizonte. Gostava mesmo.

Mas já anoitecia e o meu marido começava a impacientar-se, que não gosta de andar em lugares sem ninguém, em estradas estreitas, de terra batida, com buracos, estradas florestais onde não há sinal de telemóvel,


E, como, perdida nos meus devaneios, não levo a sério as suas preocupações, concretiza: se rebenta um pneu? se o carro se avaria? chamas quem? como? a que distância estás da próxima localidade? fazes ideia?

Por fim, já a ficar arreliado, dispara: Mas achas que ainda temos idade para andarmos assim, por aqui, por estes caminhos?

A essa pergunta eu sei responder: acho que sim. Mas, como não sei responder a nenhuma das anteriores, percebo que, se calhar, ele tem razão e, estando a noite a cair, talvez seja prudente voltar para trás, voltar ao piso alcatroado, ver se encontramos alguma aldeia em que nos consigamos situar.


Mas tanta, tanta, a maravilha, tanto o encantamento. As cores, o espelhamento, o silêncio, os cheiros, a harmonia de tudo aquilo: ah como é possível que sejamos os únicos? Percorremos quilómetros, subimos montes e calcorreamos vales, andamos junto a quedas de água, a enseadas, a ribeiros, junto a árvores e a rochas molhadas e cobertas de musgos -- e, em lago algum, encontramos quem quer que seja.

Eu gosto, sinto que estou a nascer num mundo magnífico, onde reina a paz. Eu e o meu marido, só nós dois, entre uma beleza iniciática, infinita, sobrenatural.


Mas, por outro lado, tenho pena. Será que as pessoas pensam que, por ser inverno, estes lugares tão perto do céu, não são bons para visitar? Se for, daqui vos digo: engano. É agora que a beleza é mais autêntica, mais pura.


Cai a noite, arrefece, e eu rendo-me. Lá em baixo o rio é um rasto espelhado de um azul ultramarino, as serras envolvem-se também num manto azul, as luzes acendem-se, o fumo sai das chaminés, é tempo de recolhimento e afagos.


Abrigamo-nos, portanto. Regressamos, então, para a beira da lareira. A lenha arde, perfumada. Aproximo-me, sabe-me bem o calor. Leio, a luz é coada, o corpo está apaziguado, tratado com oxigénio e beleza, a alma renascida.

Penso: devem ser felizes as pessoas que têm a sorte de viver sempre por aqui, dentro do céu.

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(E, se ainda tiverem paciência para me continuar a aturar, desçam por favor -- abaixo, a interrogação que mais me apareceu hoje nas estatísticas de palavras-chave que, a partir do google, trouxeram mais leitores até aqui: porque saíu a Ana Lourenço da SIC?)

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1 comentário:

Fernando Ribeiro disse...

Admiro-lhe a coragem de ir até ao Gerês em pleno inverno. As pessoas da Grande Lisboa fogem a sete pés do Minho (quanto mais do Gerês), com medo da chuva e do nevoeiro. Fez muitíssimo bem. Mesmo com chuva e nevoeiro, o Gerês (e o Minho em geral) ganha umas tonalidades tão suaves e fica com um ar tão puro, que até é um crime não ir lá no inverno.

O Agnus Dei de Samuel Barber fez-me lembrar uma inesquecível interpretação do Adágio para Cordas (que esteve na origem do Agnus Dei) que ouvi há tempos no Youtube. Julgo ser a melhor interpretação que eu já ouvi até hoje e é por uma orquestra portuguesa dirigida por um maestro português. José Atalaya é um maestro de primeira água, cujo real valor nunca foi reconhecido por ninguém. Bem diz o povo que "Santos da casa não fazem milagres". Ao contrário da ambiência angelical do Agnus Dei, o Adagio para cordas é trágico. A interpretação da orquestra Raízes Ibéricas dirigida por José Atalaya torna sublime, o que seria apenas trágico sob a batuta de um outro maestro qualquer. Se me der na bolha, coloco o vídeo no meu blog também. O vídeo é este: https://www.youtube.com/watch?v=eJTLNuaw8_4.