Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, janeiro 25, 2016

No rescaldo das eleições presidenciais.
Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente da República e eu só espero que ele se contenha e não queira festa a toda a hora.
O PSD de Passos Coelho bem pode ir pondo as barbas de molho.
E era bom que o PS percebesse o que se passou pois, uma vez mais, se espetou neste assunto das presidenciais.
O Bloco de Esquerda soma e segue e Catarina Martins não perdeu tempo a reivindicar o seu papel como agregador da esquerda dos trabalhadores.
O PCP teve a prova que os fiéis indefectíveis já não passam de uns 3 ou 4% e que a malta de esquerda já não está nem aí para o sectarismo ou para os dogmas de antanho.
E a brutalidade dos valores da abstenção: a indiferença de uma parte significativa da população é inquietante.




1. Senhor Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa



Agora que Marcelo Rebelo de Sousa -- ao colo da comunicação social -- foi eleito Presidente da República, o que eu desejo, a bem do país, é que ele ponha de lado a sua veia de zelig, a sua veia de entertainer, a sua veia de catavento, a sua veia de fazedor de factos políticos e etc e, comedido, sensato, ponderado, exerça com equilíbrio e elevação as suas funções. O discurso de vitória foi ajuizado, entre o tranquilo e o formal, talvez um bocado forçado, ele a encenar já a figura de presidente -- mas, enfim, do mal o menos. Só espero que o frenesim não tome conta dele e que se consiga manter, nos próximos cinco anos, num registo atilado. 
E que, uma vez chegado ao Palácio de Belém, perceba que não precisa de ir fazer brushing às senhoras que lá trabalham nem passar revista às unhas das convidadas. Muito menos precisa de ir passar a ferro as toalhas de mesa nos dias em que haja recepções. 
Bem. Vamos ver.
E, muito a sério, o que desejo é que Marcelo, enquanto no exercício das suas funções de Presidente da República, tenha sorte, saúde e estabilidade emocional. Melhor que o Cavaco acredito que será e, portanto, corações ao alto.

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2. O PSD a caminho de se ver livre de Passos Coelho



Para além disso, uma coisa é certa: Marcelo pode ter mil defeitos mas não é um burro nem um saloio nem um deslumbrado. Por isso, tenho para mim que Passos Coelho vai sentir que a hostilidade de Marcelo lhe vai pesar e que, aberta ou veladamente, sentirá que o novo PR favorecerá outra liderança no PSD. 

E as hostes laranjas começarão a ficar inquietas: Passos Coelho é um líder a quem a realidade prova todos os dias que seguiu, ao longo de quatro anos, uma política errada e, portanto, a quem os seus correlegionários não tardarão a querer ver pelas costas. Marcelo, PSD convicto, terá a vida facilitada se houver barrela e se for afastada a pessoa que personificou um erro tão grosseiro e tão nefasto para o País. Portanto, para mim, a eleição de Marcelo é uma guia de marcha para Passos Coelho.

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3. O PS novo, o PS velho, e a falta de tino quando se trata de escolher um candidato a Presidente da República






Quando perguntei à minha mãe em quem é que ia votar, fiquei arreliada: disse-me que ia votar no Marcelo. Questionei-a. Disse-me que acha que ele sabe qual o papel de presidente, que acha que vai ser equilibrado e, sobretudo, que os outros não a convenciam e que o PS estava dividido, com os candidatos do PS em luta um contra o outro. Tentei demovê-la -- mas não consegui. Sugeri a Marisa. Que não, que não a estava a ver como presidente. Há bocado, já o Marcelo eleito, voltou a dizer-me: deixa lá que o PS também deu um lindo espectáculo... não foi capaz de se decidir por um, pôs os dois à bulha um contra o outro, muito bonito.... Já não lhe disse nada, a coisa estava feita, não vale a pena chorar sobre leite derramado. Até porque não lhe tiro a razão.

Outra surpresa que tive foi com um amigo meu. Socialista ferrenho, um daqueles que bate no peito quando se fala no PS, disse-me que ia votar no Marcelo. Fiquei de queixo caído, pensei que estava no gozo. Não estava. Disse-me que o Nóvoa não percebia bem qual o papel de um presidente. Que o Marcelo sabe o que a Constituição impõe a um presidente, que é honesto e inteligente -- e que o PS não apresentou alternativa viável. Fiquei sem saber o que dizer. Dele nunca esperaria este voto.

Mas a verdade é que também não me revi na candidatura do Nóvoa -- apesar de o achar digno,  bem preparado, civilizado, mobilizador, com um discurso que sabe empolgar.

Claro que a candidatura da Maria de Belém só veio agudizar o problema: um tiro no pé, uma coisa que não se percebeu, que só serviu para dividir o eleitorado (e, pior, sem que se percebesse ao que ia). Dá ideia que o PS não consegue unir-se em torno de uma ideia, de um nome, de um propósito. Ver cada um dos dirigentes para seu lado deu cabo de tudo. O problema não foi ter dividido os votos dos socialistas ou simpatizantes: o problema é que, perante a ausência de uma alternativa válida e perante aquele triste espectáculo, muita gente, do mal o menos, votou no Marcelo. Ou seja, a divisão do PS afugentou parte do seu eleitorado.

Há uma reflexão a fazer em torno disto. Num partido (e isto sou eu a dizer, eu que nunca fui filiada em coisa nenhuma, quanto mais num partido) tem que haver utopia, sonho, ideais -- mas tem que haver também pragmatismo, capacidade para ler os sinais, inteligência para saber captar o ar do tempo. Ao PS parece faltar o equilíbrio entre estes dois lados. E, nos momentos em que são chamados a unirem-se, não senhor, tornam-se adversários, canibalizam-se.

Ou aprendem com os erros, e este foi mais um, ou um dia destes vão ter um desgosto.

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4. O Bloco de Esquerda na linha da frente da esquerda. 



Há uma linhagem de guerreiras nestas mulheres que avançaram para a frente do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, Mariana Mortágua, Marisa Matias. Não perdoam, não vacilam, não se desfocam. Preparam-se como nenhuns outros, vão à luta, vencem, declaram a vitória, marcam o território. 

Em tempos, nos primórdios do BE, um amigo meu, anarquista de direita dizia-se ele, gozava com os bloquistas, dizia-me que aquilo lá era só charros e orgias. Eu dizia que ele era parvo dizendo coisas daquelas e ele ria e respondia: diz que sim, que são parvoíces... Não faço ideia. O que sei é que o Bloco de então, que se dividia, que eram meia dúzia e, mesmo assim, havia um dissidente novo todos os dias, já lá vai. O Bloco agora é uma força que se quer mostrar como implacável, que enfrenta sem complacência quem quer que esteja à sua frente e que defenda interesses contrários aos que o Bloco defende.

Os dirigentes do BE sabem interpretar as ansiedades da população, sabem informar-se do ponto de vista técnico e político e têm uma grande vantagem sobre os outros: falam claro e marram a direito. 

Catarina Martins, no seu discurso sobre o resultado das eleições foi inequívoca: o terreno das lutas dos trabalhadores já é também do Bloco e cada vez será mais.

(O PCP deve ferver ao ouvir isto. Mas, em vez de ferver, deveria era tentar perceber.)

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5. O PCP na sua trajectória descendente



Ao longo da campanha, fui sentindo cada vez mais simpatia por Edgar Silva. Mostrou ser um homem sério, convicto dos seus ideais, simpático, simples, próximo das pessoas. Não admira, conhecendo-se o seu percurso.

Contudo, volta e meia sentia-se que tinha alguma dificuldade em falar sem peias. Parece que há, no PCP, um formato estabelecido que deve ser seguido aquando de questionamentos mais melindrosos, parece que o PCP não consegue assumir que tem que haver novos caminhos, caminhos que se desviem de uma ortodoxia ultrapassada.

Os trabalhadores de hoje já não são as ceifeiras, os trabalhadores do 'balão' do Barreiro, os operários metalúrgicos de há quarenta anos atrás: os trabalhadores de hoje são pessoas que se habituaram ao consumo, gente que tem filhos formados que não arranjam emprego cá e que vão para fora, ou que tem filhos que não conseguem doutorar-se cá, ou gente que tem cursos e não arranja emprego razoável -- e todos trocam opiniões nos facebooks desta vida e têm hábitos que já não se coadunam com os ditames do comité central. Ou seja, os explorados de hoje são de uma outra geração, habituados a uma outra conversa. Conversas que metam PIDE, Caxias, reformas agrárias, etc, já não dizem nada à maior parte dos trabalhadores ou desempregados de hoje. 

Persistir em temas ou lemas ou jargões situados nesse horizonte datado é um erro. O PCP vai perdendo eleitores à medida que os seus apoiantes dos gloriosos tempos de Abril de 74 vão desaparecendo.

O PCP tem nas suas fileiras gente muito válida, gente evoluída, aberta, capaz de representar os interesses dos pobres e explorados (que são tantos!). Se quer sobreviver como partido relevante o PCP tem que puxar para primeiro plano essas pessoas. E, apesar dos resultados, é minha convicção que Edgar Silva é uma dessas pessoas. 

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6. A abstenção que revela bem o interesse com que os portugueses encararam estas eleições



Foram várias eleições de seguida, as presidenciais muito em cima das legislativas, depois nove candidatos não muito convincentes contra um que andou semanalmente desde há muitos anos a ganhar a habituação dos portugueses -- presença habitual e simpática, nas suas casas, a voz da moderação, um aconselhamento afável, que sabia responder a todas as perguntas, desde coisas de futebol até ao estado do tempo (que fosse um manipulador de primeira era pormenor...). A coisa estava, pois, decidida à partida. Depois, a overdose de comentários políticos nas televisões que faz com que as pessoas já quase vomitem quando lhes aparece algum político pela frente. Tudo junto. Gerou-se, com isto, um tédio. Votar? Para quê? Em quem? Tenho mais que fazer! - era o que mais se ouvia dizer.

A comunicação social anda a intoxicar a opinião pública. Há uma tendência para a mediocridade, para a banalização. Isto leva à abulia, ao desinteresse. Isto mina a saúde da democracia.

Talvez fosse um bom tema para o novo Presidente da República apadrinhar, este. Digo eu.

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NB: Não falei do CDS porque acho que não tem expressão.

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E mais não digo porque já estou cansada de tanto escrever. Se alguém tem conseguido ler isto tudo é um herói. My hero. E isto vai tudo sem rede, sem qualquer revisão, sem nada. Se encontrarem gralhas -- e acredito que vão encontrar muitas -- por favor relevem.

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As ilustrações são da autoria das gentes da Design Crowd
E a cantoria (Contado ninguém acredita) está a cargo dos Deolinda.

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Abaixo encontrarão uma apreciação crítica em relação a três toilettes da jornada eleitoral: António Costa, Paulo Portas e Marisa Matias.

Mais abaixo ainda, poderão ver o desenrolar das minhas opiniões à medida que ia sabendo os resultados eleitorais.

Ainda lá mais abaixo, o registo é outro: as pessoas da beira-Tejo. Um passeio à beira rio com Lisboa em fundo.

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4 comentários:

Anónimo disse...

Não é que tenha sido surpreendido pela vitória de Marcelo, mas alimentava ainda assim uma vaga esperança numa segunda volta. Enfim, não sucedeu e terei de aceitar e habituar-me ao resultado. Concordo com as observações que fez. Pelo menos tive a satisfação de ver a candidatura que apoiei – Marisa Matias – a obter o resultado que conhecemos. O BE, desde que “foi tomado” por aquele grupo enérgico, determinado e muito articulado e capaz, de mulheres como a Catarina, a Mariana e a Marisa, entre outras e outros de igual fibra e sobretudo ao tomar uma posição mais realista e menos radical nas soluções (que levou ao anterior desgaste do BE), como por exemplo o apoio institucional ao PS/Costa, em vez de optar pelo confronto, tem vindo a crescer e a conseguir penetrar nos diversos distritos eleitorais (e já não só em alguns como antes), bem como nas várias camadas da população e de gerações. Gostaria que assim sucedesse com o PS, mas temo que tal não venha a verificar-se. A irracionalidade nas Presidenciais foi um desastre e ou se põe ordem na casa, ou o PS acabará menorizado. Quanto ao PCP, teve o que mereceu. Ou se renova, o que implicará colocar à frente do Partido um dirigente jovem, ou o bolor tomará conta daquilo e esvaziar-se-á. Haverá agora que esperar que MRS, em Belém, faça esquecer rapidamente o inquilino cessante e venha a ser um factor político de equilibro e não o contrário (como desejam Passos, Portas, etc). Não tive pachorra de ver até ao fim os comentários políticos e preferi ir buscar um Madeira velho e bebê-lo, devagar, enquanto via parte de um filme. Depois fartei-me, desliguei o aparelho, fui passear os 2 cachorros e fiquei a ler um pouco, antes de me deitar. E como nestes últimos dias tive algumas chatices pessoais que me incomodaram, a vitória do Marcelo acabou por ser um mal menor.
P.Rufino

ECD disse...

Este post é a prova provada que se podem fazer muito boas análises políticas...sem se ser politólogo. Simplesmente alguém que ouve-vê-lê-pensa e que escreve bem. Ontem nas televisões os politologos, os novos e muito requisitados ai jesus do comentário, em pouco se distinguiram, por exemplo, do vidente Mendes ou dos "cranios" Fernandes, Costa, .... . Só banalidades e, na maioria, o mal disfarçado contentamento pela vitória do "pirilampo" Marcelo.

Anónimo disse...

Para além de me ter incomodado a vitória de MRS pela apreciação negativa que faço do respectivo carácter, outras duas coisas me incomodaram a noite passada: a primeira foi a utilização da FDL como palco para noites eleitorais; revelou falta de tino o Conselho Directivo ao autorizar, mas principalmente revelou falta de senso MRS ao pedir. Já em campanha me repugnou ver uma entrevista dele na sala dos professores da faculdade, e na altura pensei que usava a mesma como se fosse a casa dele, ou instalações pagas por ele, para se promover. Como antigo estudante da casa não gostei à primeira e detestei à segunda.

Outro incómodo foi ver Eduardo Barroso a ser entrevistado às 19:00 horas e nessa entrevista fazer a apologia do amigo Marcelo , quando as urnas ainda não tinham encerrado nos Açores. Os termos que usou ficariam bem em qualquer campanha eleitoral, proibida naquele dia até ao fecho das urnas em todo o território nacional. Logo a seguir uma senhora que produz vinhos preparava-se para fazer a mesma coisa, sem que a tonta da jornalista a impedisse, como também não tinha impedido Barroso - valeu que Marisa Matias tinha chegado à sede de campanha e a emissão foi desviada. Razão tinha o Rangel (não o Paulinho lingrinhas, mas o Emídio) quando dizia que a televisão pode vender sabonetes e presidentes... Quanto aos autores destes comentários fora de tempo, não posso garantir não vir a precisar dos serviços de Eduardo Barroso (lagarto, lagarto!), mas a senhora dos vinhos fica a saber que lá em casa os produzidos pela empresa dela não voltam a entrar. É para aprender a apoiar quem quiser, mas a manter a boca fechada quando o deve fazer, resistindo à visão sedutora de um microfone.
MPDAguiar

Anónimo disse...

Concordo com MPDAguiar, aquilo do MRS ter utilizado a "minha" FDL, com toda aquela parafernália, não me agradou, nem um pouco! A vaidade do homem, uma vez mais, ficou ali demonstrada. Estou para ver e observar como vai ser a sua convivência com este governo de A.Costa (mas também com o PSD de Passos).
P.Rufino