Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, dezembro 07, 2015

Para as mulheres que gostam de se sentir "sexy, fortes, poderosas e belas (tudo ao mesmo tempo)*" se inspirarem. Eu, por exemplo, fico com vontade de me tornar prendada.



As minhas avós tinham máquina de costura Singer e a minha mãe, que sempre foi muito habilidosa, quando queria fazer alguma costura, usava a máquina de uma delas. Mais tarde apareceu uma máquina em nossa casa. Não sei se era da minha avó paterna que nunca usava a dela nem era nada dada a lavores, se foi a minha mãe que comprou. 

Agora que escrevo isto, penso que deve mesmo ter comprado pois creio que a da minha avó foi para o apartamento que os meus pais adquiriram depois para, ao fim de semana ou nas férias, estarem mais perto de nós, em especial dos netos. É isso: na varanda fechada para a qual dá o quarto dos meus pais é que está a máquina da minha avó. A da minha outra avó e uma outra que era de uma tia do meu marido foram transformadas pelo meu pai em mesas. O pé foi todo limpo e restaurado por ele e pela minha mãe e em cima tem um tampo com azulejos pintados e com um vidro por cima, isso feito pelo meu pai. Estão as duas in heaven e já aqui as mostrei** pois gosto imenso delas não apenas por terem sido de pessoas de que muito gostei mas também pelo trabalho de recuperação e transformação ao qual os meus pais se entregaram com tanta dedicação.

Entretanto, a minha mãe adquiriu uma máquina eléctrica, pequena, muito mais prática. É nela que faz tantos trabalhos. Ainda no outro dia lhe levei umas calças minhas com que já não gostava de me ver, tinha as pernas um bocado largas. Ajustou-as e agora assentam-me às mil maravilhas e têm um look bem mais a meu gosto.

A mim nunca me deu para a costura. Claro que bainhas ou pregar botões ou coser alguma coisa que se descosa isso faço. Mas fazer arranjos profundos, de descoser tudo, ajustar e voltar a coser, ou fazer peças de vestuário de raiz, isso nunca tentei.

Quando era miúda, queria aprender a usar a máquina e a minha mãe ou as minhas avós tentavam ensinar-me. Dava-se ao pedal, com a mão dava-se balanço na roda de lado e aquilo engatava e seguia, sempre dando ao pedal. No entanto, não sei porquê, parece que eu não dava o balanço suficiente porque aquilo, às tantas, andava para trás e a minha mãe gritava para eu parar antes que enleasse a linha ou partisse a agulha. E quer ela, quer eu, desatávamos a rir com a minha incapacidade para manobrar  o bicho. Por isso, acabei por me desinteressar da costura. Mas sempre me ficou a vontade por experimentar. Gostava de ainda vir a tentar fazer peças a meu gosto, com tecidos bonitos, macios, veludos, sedas, vestidos com um desenho incomum, coisas assim, capas com o seu quê de exótico.

O contacto com os tecidos, o imaginar a obra feita, a escolha dos adereços, as 'provas', tudo isso sempre foi, para mim, uma coisa fascinante.

Guardo as melhores recordações das tardes no atelier da 'vizinha modista' ou das tardes em que a minha mãe ia a casa da mãe do meu grande amigo Tó, que era modista, mais moderna que a 'vizinha', menos prepotente (a minha mãe queixava-se que a 'vizinha modista' acabava sempre por levar a dela avante), e a quem a minha mãe levava revistas e com quem dialogava, vendo modelos, vendo também as revistas que ela lá tinha, e falavam de tudo, eram tardes de conversa, a mãe do Tó mais silenciosa, a minha mãe mais bem disposta. Lembro as tardes de tagarelice entre aquelas duas, trocando confidências, intenções, vivências. Eram amigas de sempre, de infância, e assim se mantiveram vida fora. Na adolescência, a minha mãe continuou a estudar ao passo que ela se ficou pela antiga Escola Comercial e, mesmo assim, não tentou arranjar emprego, ficou em casa - eram outros tempos, isso era normal. Como, nas férias, tinham andado a aprender costura na 'vizinha modista', ela resolveu depois não se limitar a ser dona de casa. E, como toda a gente lhe reconhecia arte, passou a exercer a sua actividade de forma regular mas apenas para meia dúzia de pessoas, se tanto. E nunca arranjou empregadas, era só ela, mais como um hobby. A mãe do Tó, embora tivesse uma pele muito branca, recordo-a pálida, tinha olhos pretos e um cabelo também preto, sempre muito arranjado, muito lustroso; a minha mãe era o oposto dela: loura, muito loura, olhos muito azuis. Se vejo fotografias delas, dessa altura, vejo-as elegantíssimas, sempre com vestidos muito bonitos, jovens, bonitas, quase poderiam ser artistas de cinema daquela época.

Mais tarde, a minha mãe foi dar aulas para outra escola e eu entrei no liceu, longe da escola que era ao pé da casa da minha avó (e do Tó). Por isso, passámos a ir a casa da minha avó apenas ao fim de semana e a minha mãe arranjou uma outra modista, a Bia.

A Bia era solteira e vivia com uma tia doente e com o irmão, também solteiro, uma figura típica da cidade que confidenciava com a irmã as 'cenas' em que andava sempre metido, em especial quando tripulava o barco de uns tais debochados, um dos quais, mais tarde, um bocado mais velho que eu, claro, veio a ser meu colega, mantendo-se ainda um bom malandro, um sedutor militante, namoradeiro como só ele.

As sessões na casa da Bia eram outra maravilha. As mãos dela eram mãos de artista. Os trabalhos que saíam das mãos dela eram sempre perfeitos. Com alfinetes, com agulha e linha de alinhavar, ela cingia a roupa ao meu corpo, ela percebia as ideias e conseguia traduzi-las em peças de vestuário de que eu me orgulhava.

Vem tudo isto a propósito do vídeo da colecção Chanel 2015/2016 que abaixo vos mostro. Vejo as imagens e dá-me vontade de ir a uma loja de tecidos, escolher um belo tweed, um veludo a condizer para mandar forrar botões (será que ainda há quem forre botões?), uma seda ou uma viscose para fazer uma blusinha com pedras coloridas aplicadas, uma renda para fazer uma gola flutuante em volta de um decote generoso. Gostava de chegar a casa com os tecidos, abri-los em cima desta mesa, desenhar a giz o sítio por onde cortaria, depois talhar, depois alinhavar. Depois iria pôr-me ao espelho a ver se me estava a cair bem. Claro está que não sei se, mesmo que conseguisse fazer alguma coisa de jeito, sozinha conseguiria provar a roupa a mim própria e ver os ajustes a fazer. Mas, enfim, sonhar não custa. Pode ser que, quando, daqui por mil anos, me reformar (que a idade da reforma é um alvo móvel e acho que, quando chegar a minha vez, terei talvez já uns noventa e cinco anos e três meses), me encha de coragem e me atire de cabeça a essa arte. Até lá vou vendo estes vídeos e sonhando.


Também pode acontecer que, para me treinar, em vez de começar por fazer roupa para mim, faça para o meu modelo privativo. Roupa de homem é coisa complicada mas não sou moça de me sentir atrofiada perante desafios bicudos. Camisolas e pullovers já lhe fiz, dúzias, na altura em que, em vez de fazer rendas, bordados, tapetes de arraiolos, pintar ou estar aqui a maçar-vos, me dedicava ao tricot. Agora camisas e calças... Não sei. Não estou a ver-me a fazer trabalhos de alfaiataria. Bem, talvez comece por fazer-lhe um avental, coisa simples.
Quando ele amanhã ler isto vai achar que não devo estar boa da cabeça. Já estou a ouvi-lo a dizer com ar de quem já nem sabe o que fazer perante tanta maluquice: Avental...?! Para mim?! Para quê? Não cozinho nem sou maçon.
Pois. Se calhar avental também não. Olhem, faço um avental para mim: um aventalinho todo sexy. Deve ser fácil e é sempre útil.



Behind the Scenes Film - Paris in Rome 2015/16 Métiers d’Art show - CHANEL


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* Usei no título deste post aquilo que uma das convidadas do desfile disse da moda Chanel: que é para mulheres que gostam de se sentir sexy, strong, powerful and beautiful at the same time

** Aqui vos deixo o link para um texto antigo onde se pode ver uma dessas minhas mesas que resulta da transformação de uma máquina de costura.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

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