Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, julho 06, 2015

O grito de orgulho do povo Grego ao votar NÃO, a saia justa em que Varoufakis* e Tsipras estão, o labirinto estreito e armadilhado em que terão que se mover até que alguém os deixe sair --- e os contabilistas de dente arreganhado, os láparos ressabiados e todos essas criaturas míopes, broncas e mesquinhas que ainda não perceberem que um projecto como o da União Europeia não se pode construir em cima de povos humilhados, vergados e esfomeados. E A História Imortal. E, para terminar, Varoufakis Minister No More!


Este domingo, depois de caminhada na praia, almoço até às tantas e uns quantos afazeres, regressei a casa por volta das seis da tarde. Estava com uma moleza em cima de mim que não vos digo nada. Mas, antes de poder descansar, ainda tive que arrumar roupa, arranjar umas calças, fazer sopa, preparar o jantar de hoje já a contar com o de amanhã, telefonar à minha mãe, separar umas compras que tinha feito já com presentes para mais uma leva de aniversários que aí vem e sei lá que mais. A essa hora já tudo indicava que os gregos tinham levantado bem alto a cabeça para afirmarem perante uma chusma de credores, avençados e vencidos da vida o seu orgulho e a sua dignidade. Mas eram os primeiros resultados, ainda faltavam as grandes províncias. Esperei para ver.




Não sei que horas seriam quando me deitei no sofá para ler um pequeno livro. Antes ainda liguei à minha filha e estivemos na palheta como é nosso costume. Mas eu já bocejava por todo o lado. Talvez já passasse das vinte, não sei. Claro está que, mal comecei a ler, adormeci. Não dormi muito, contudo.

Quando acordei já era claro que os gregos, uma vez mais, mandaram que os que os querem vergar se fossem catar.

Enquanto jantava uma refeição ligeira, na televisão, Varoufakis* -- numa tshirt cinzenta clara, físico vigoroso, belos braços ao léu, semblante grave de conquistador que sabe que nada mais melancólico do que uma derrota no campo de batalha do que uma vitória -- falava com ar convincente mas, ao mesmo tempo, com ar de quem já perdeu o gozo iniciático destes enganadores avanços. 

Claro está que não percebi uma única palavra do que ele disse e o tradutor pouco ajudou. Mas percebi que estava orgulhoso mas certo de que o caminho que o espera está pejado de feras, de abutres, de minas, de pragas de toda a espécie. Mas tem com ele a legitimidade do voto do povo. E antes dele está Tsipras que tudo arriscou - e que ganhou o respeito dos outros.


Voltei então ao meu pequeno livro e fui lendo, ávida. Boa escrita, boa história. Gosto quando o enredo está suportado por uma escrita fluente e cuidada e por uma tradução inteligente. 

O livro é A História Imortal de Isak Dinesen (de facto, Karen Blixen, 1885 - 1962) com tradução de José Miguel Silva, numa edição de bolso da Relógio d'Água.


Um homem de negócios ambicioso, rude, sem pruridos nenhuns em deixar na ruína quem lhe fizesse frente  - uma vida inteira assim, ao serviço da conquista do sucesso no negócio. Solitário, inculto, insaciável nos negócios.
Quando, já velho, fica incapaz de sair de casa, um casarão imenso, passa a receber a visita de um dos seus contabilistas de confiança, um homem sem ambição, um solitário também, que a única coisa que deseja na vida é poder chegar a casa, em segurança, e poder estar sozinho, a desfrutar dessa segurança. A vida que levou até então explica isso.
Durante dias e noites o contabilista lê os livros de contabilidade ao velho patrão. Recua no tempo, livros de contas com anos e anos. Até que o velho lhe pede que lhe leia livros sem ser de contas. Nenhum dos dois sabe que livros sejam esses. 
E aí começa verdadeiramente a desenrolar-se a história. Não a vou contar para não estragar a graça. 

[Em tempos, alguém (que, pelo estilo, logo reconheci) escreveu um comentário anónimo dizendo que eu me portava como uma nova-rica, exibindo livros como quem exibe euros. Tive pena que alguém pensasse isso pois nunca na vida me passou pela cabeça que, falando dos meus livros, alguém pudesse pensar que eu estava a exibir o dinheiro gasto e não apenas a divulgar os livros que despertam o meu interesse. Nunca sabemos quem nos lê e, de facto, pode acontecer que haja quem não nos veja como nós nos vemos a nós próprios.

Por isso, em especial a essa pessoa, informo que estou a falar de um livro de 5 euros que a mim, por ter cartão de cliente, me ficou por 4,5. 

Os livros estão caros, sim, mas ainda os há a bom preço. Além disso, não sou exibicionista e, apesar de não ser pobre, longe disso, também não me considero rica. 

Ainda há bocado cortei o cabelo a mim própria e, com este assunto em mente, pensei: com o que agora poupei, já posso comprar mais um livro

Enfim, não interessa. Adiante]


Mas depois interrompi a leitura do livro para ouvir o que as virgens assarapantadas, os papagaios e algumas pessoas inteligentes diziam na televisão. Não cheguei a conclusão nenhuma. Acho que as coisas não vão ser fáceis mas é bom que muita gente ponha os olhos na lição de cidadania que os gregos deram ao mundo.

Governar é governar para o bem dos cidadãos e do seu futuro. Podem dar-se tropeções, podem cometer-se erros mas o mais importante é que se tenha sempre isso em mente: as pessoas, a vontade das pessoas.




Fariam bem os europeus em geral se percebessem que o que estão a fazer -- ao exigir austeridade, esforços infindáveis e sangue -- é um jogo de soma nula, que mais valia que se unissem para o bem de todos e não apenas para o que pensam ser o bem do seu próprio umbigo.

Era bom que, de repente, acontecesse um milagre e emergisse um ser lúcido, inteligente, bem intencionado, honesto, generosos, com visão - e desse um murro na mesa, pondo nos eixos do desenvolvimento e da verdadeira democracia esta Europa (que, agora, mais parece a casa da mãe Joana, uma bagunça, um bordel, um albergue de entra e sai, uma chafarica sem rei nem roque).


Transcrevo do The New York Times:

In Ilisia, a middle-class neighborhood, the poet Titos Patrikios, 87, voted at a school that was surrounded by pink and white oleander.

Mr. Patrikios seemed to embody much of his country’s modern history. As a teenager during World War II, he took part in the resistance against the German occupation. After the civil war, he was imprisoned for his leftist sympathies. And after the military seized power in 1967, he was forced into exile.

Mr. Patrikios said he was voting yes, but urged everyone to vote their own consciences. “I vote yes because the real dilemma is inside or outside of Europe,” Mr. Patrikios said. “In Europe, things are difficult sometimes, they are critical. But outside Europe is the catastrophe. So we have to choose between catastrophe and difficult.”

He added that the most important thing was to avoid pitting Greeks against Greeks, but that he was not too worried: “I suffer from one illness and that is incurable optimism.”

Athanasis Chryssochoidis, 76, a pensioner and a friend of Mr. Papantoniou’s, said Greece was being made an example in case other Southern European nations tried to challenge the dictates of the eurozone.

“Tsipras and all of them want to negotiate,” Mr. Chryssochoidis said. “But as soon as they said yes to something, the Europeans put up more demands. The issue is that Syriza is a left party and they don’t want such mischief.”

“We’ve reached our limit,” Mr. Chryssochoidis said. “This is not a society of beggars.”




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Já agora, voltando à História Imortal, um pequeno excerto do filme.

The Immortal Story de Orson Welles, numa adaptação do autor dinamarquês Isak Dinesen (= Karen Blixen), com Jeanne Moreau



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* Escrevi o texto no domingo à noite. Esta segunda, de manhã, soube que Varoufakis tinha escrito no seu blog: Minister No More!

(...) Soon after the announcement of the referendum results, I was made aware of a certain preference by some Eurogroup participants, and assorted ‘partners’, for my… ‘absence’ from its meetings; an idea that the Prime Minister judged to be potentially helpful to him in reaching an agreement. For this reason I am leaving the Ministry of Finance today. (...)

Não fiquei especialmente admirada com a demissão de Varoufakis, confesso. 


Qualquer coisa na expressão dele me pareceu conter o orgulho melancólico da despedida. A história grega, agora como sempre, é feita de momentos de tragédia (tragédia grande, pequena, definitiva, provisória, e tantas vezes servida em conjunto com actos de paixão, polvilhada com momentos de desespero, de orgulho, de loucura ou de transcendência).

A ver, pois, quais os próximos actos, quais os próximos actores e, sobretudo, se algum se destaca na resolução do grande imbróglio que está armado nesta caldeirada europeia de que ninguém parece conhecer a receita ou ter mão para o tempero.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma excelente semana a começar já esta segunda-feira. 
Boa sorte a todos.

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1 comentário:

Rosa Pinto disse...

Os gregos reforçaram a sua posição. Se foi bom, não sei, o futuro dirá. Sei apenas que mostraram ser um povo de carácter e corajoso.
Varoufakis revelou-se um verdadeiro grego. Serviu o seu país naquilo que ele e o povo pensam ser melhor para eles. Continua a servir, quando se demite. O desapego ao poder em prol do que pensa ser melhor.
Pena não haver um Varou português.