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sexta-feira, junho 19, 2015

Um véu, um silêncio.








Para disfarçar a tristeza, a mulher escondeu o olhar com a penugem das flores mais delicadas, um véu, um silêncio triste. Talvez assim ninguém veja o que lhe vai na alma. 

A mulher não suporta mais. Talvez não seja por mal, talvez seja apenas uma incapacidade de comunicação, talvez qualquer outra coisa, mas tudo o que ele diz a magoa. Ele não sabe falar com ela, tem espinhos, arranha os seus sentimentos, fá-la sangrar. A mulher afasta-se.




O homem tem flores numa mão. Parecem flores de jacarandá. Esconde parte do rosto. Uma metade é uma coisa, outra metade é outra. Anjo e demónio misturados. Umas vezes parece sofrer, outras vezes parece ficar feliz fazendo-a sofrer. Ela não o percebe, ele não a percebe, ele não se percebe. Um abismo triste vai ficando cada vez mais cavado entre ambos, um espaço insondável, habitado por monstros, por medos, por raivas, por desgostos.

Espreitam-se. Desconhecem-se. Vigiam-se, incapazes de comunicar. Estrangeiros. Quase inimigos.




A mulher deseja voltar à natureza, cobrir-se de flores, ver o mundo através de flores transparentes, mas não consegue, não quer ver o mundo, não quer pensar. Olhando-a, dir-se-ia serem apenas filamentos de tristeza o que lhe cobre a mente, o olhar, o coração.

Tenta sorrir, lembrar-se do diminutivo pelo qual a família a trata, soa-lhe a ternura, a abracinhos bons. Mas essa ternura não chega até si. Pensa 'será isto o luto?' e os olhos enchem-se-lhe de lágrimas.




O homem diz depois, 'é tudo a brincar', 'olha como sorrio', 'olha as flores alegres que tenho no meu rosto'. Mas não sorri. O olhar é mau.

A mulher olha para o homem e tem medo, sabe que este homem apenas sabe fazer-lhe mal. Não percebe porquê, mas é o que é.

E então afasta-se.

E, sem voz, quase num soluço, murmura bye bye.

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I won't have words I've said all that there is to say
I won't have words
Cause I know you'll just throw them away
I won't have words
Cause by the time that I do you'll be gone

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As fotografias tão bonitas e que me inspiraram este texto que, por causa delas, me saíu assim tão triste, pertencem à série “Dandelion” e "Etamine" e resultam do encontro entre a fotógrafa Isabelle Chapuis e o artista que trabalha com plantas, Duy Anh Nhan Duc.

A música faz pendant: Melody Gardot em Gone


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Agora, por favor, para espantarem esta tristeza toda que apareceu aqui do nada (bolas para as fotografias, tão bonitas, mas tão cheias de tristeza), desçam, por favor, até ao post seguinte. Humor, pois claro.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma sexta-feira cheia de alegria
(E, às pessoas tristes de verdade, deixem que vos lembre que tristezas não pagam dívidas)

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