Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, junho 25, 2015

Como se eu fosse a árvore e tu fosses um espelho -- [Uma história levezinha entre o poético e o erótico]


Depois de um dia de trabalho, a mulher foi a um debate seguido de concerto. São normais estes convites. O local não podia ser mais agradável. Um edifício apalaçado com um grande jardim mesmo no meio de Lisboa. 

No entanto, tinha estado com uma certa dor de cabeça. Tinha acordado de madrugada, tinha ficado com calor apesar da janela estar aberta. E as muitas reuniões do dia, umas complicadas, tinham ficado a desfilar na sua mente. Isso e outras coisas. Muita vida a decorrer em muito pouco tempo, muitas camadas de vida, umas visíveis, outras ocultas, muita canseira, muito livro para ler, muitas viagens por cumprir, e saudades, e incompreensões e preocupações, e, em cima de tudo, muito sono para pôr em dia; e logo, a meio da noite, o sono haveria de se evaporar.

Finalmente, já de manhã. adormeceu. Passado um bocado tocou o despertador e, obrigada a levantar-se de imediato, não conseguiu ter um despertar progressivo e, logo ali, a cabeça mostrou desconforto.

E foi em crescendo, ao longo do dia. Desabituada de comprimidos, foi esperando que passasse por si. Mas não passou.

Portanto, pouco antes da hora de sair da empresa para atravessar a cidade em direcção ao local do evento, hesitou. Pensou que devia era ir para casa, meter-se debaixo do chuveiro, comer um pêssego e um iogurte, atirar-se para o sofá e adormecer. Mas o programa e o local eram aliciantes. Foi à copa, preparou uma infusão. Sentou-se a bebê-la devagar. Sentiu que talvez estivesse a melhorar.

Foi à casa de banho, viu-se ao espelho, avaliou-se. As olheiras estavam fundas mas nada de dramático. Foi, então, ao gabinete, desligou o computador, avisou que ia sair mais cedo. Entrou de novo na casa de banho, passou uma sombra nos olhos, nos lábios um gloss em tom nude, passou o pente ao de leve pelo cabelo de modo a mantê-lo com ar despenteado. Despiu a blusa, ficou apenas com o top. Desceu à garagem, dirigiu-se ao carro, trocou de sapatos, os de salto alto normal por outros mais elegantes, mais altos.



E arrancou.

Na rua, deixou-se ir com a janela do carro aberta. O ar fresco da tarde sabia-lhe bem. Ajeitou o retrovisor e viu-se ao espelho. De repente, lembrou-se de uma coisa. Que esquecimento. Na estação de serviço mais à frente parou. Tinha uma fita preta, larga, na carteira. Apanhou o cabelo ao de leve com uns ganchos quase invisíveis e prendeu-o melhor com a fita a que deu um nó de lado, as pontas curtas espetadas, quase um turbante. Riu. Será que já não tinha idade para isto? Riu de gosto. Pensou: que se lixe. Arrancou, prego a fundo, a janela aberta.




Na rádio, a Callas interpretava o O mio babbino caro. Perfeito.

Quando saíu do carro, vestiu o blaser. Atravessou a rua. A sala estava cheia. Sentou-se numa das filas de trás. Debatiam a futuro da Europa, falaram da Grécia, uns a favor de uma valente lição a ver se aqueles malandros aprendem, outros que o problema é político e que é melhor não abrir a caixa de pandora. Tretas. O drama grego já a servir de entretenimento de fim de dia a gestores, empresários, advogados, jornalistas. Olhou em volta. Não viu jeito de estarem ali académicos, artistas, gente desempoeirada. Tudo executivos e a fauna que os rodeia. Uma maçada.

Levantou-se, então, e foi espreitar as salas em volta. A dor de cabeça tinha desaparecido. Sentia-se, de repente, aliviada, a cabeça leve. E toda ela se sentiu leve, livre.

Começou, então, a ouvir a música. Era chegado o momento musical. Então parou. A mesma música. Espreitou. Uma jovem cantava o que tinha vindo a ouvir no carro.

Em silêncio foi avançando pelas salas. Esculturas, pinturas, belos cadeirões revestidos a tapeçaria, pesados cortinados, um conforto requintado, uma decoração que preservado a riqueza de outros tempos.

De repente, sentiu-se observada. Um homem estava junto a uma janela mas, em vez de olhar para fora, olhava-a a ela. Sobressaltou-se. Colocou a mão no peito, como se querendo acalmar o coração. Disse: 'Assustou-me...'. Ele disse apenas: 'Não fiz nada'. Ela desculpou-se 'Sou eu, sou assustadiça e também não pensei que estivesse aqui alguém'. Ele disse: 'Se quiser, vou-me embora'. Ela sorriu, 'Que ideia'.

Então ele disse 'Estava a ver o jardim, daqui vê-se um recanto, a esta hora está bonito'. Ela aproximou-se, 'Que bonito, que paz'. Da outra sala chegava o canto, a luz que vinha da rua era uma luz coada, o jardim lá fora estava envolto em dourado: um momento perfeito. A mulher ficou ao lado do homem. Em silêncio. Depois, quando ela se virou para se afastar, o homem começou a dizer qualquer coisa em voz baixa, uma toada. Ela parou, pôs-se a ouvir. Aos poucos a sua pele foi ficando arrepiada. O homem, olhando o jardim, dizia

paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.

A mulher ficou parada a olhar para ele. No fim, como ela o olhasse, em suspenso, ele disse: 'Herberto'. Ela quis sorrir mas estava quase emocionada, e surpreendida. 'E sabe de cor?'. Ele encolheu os ombros, 'Sei algumas coisas'.

Então ela aproximou-se e com ar zangado disse: 'Fez mal'. Ele admirou-se: 'Fiz...?'. Ela confirmou 'Muito mal'.

Sério, ele tentou perceber: 'E posso perguntar o que fiz eu de tão mau assim?'. Ela fez um ar ainda mais zangado, 'Não se faça de inocente. Fez mal e vou ter que o castigar'. Ele sorriu ao de leve, 'Assim? Castigo directo? Sem acusação? Sem culpa formada?'. Ela zangou-se ainda mais: 'Ora, não brinque com coisas sérias; acha que podia dizer um poema destes, num fim de dia destes, com uma música de fundo destas, a olhar pela janela para um jardim destes, e nada lhe acontecer...? Não brinque comigo...!'.

Então tirou a fita do cabelo, apeteceu-lhe sentir os cabelos soltos sobre o rosto. Encostou o homem à janela. Depois ainda ensaiou puxá-lo a si pela gravata mas, vendo o ar assustado dele, desistiu. Resolveu, então, tratá-lo bem. Chegou-se, encostou o seu corpo ao corpo do homem, sentiu que ele estava expectante, sem saber o que fazer. Ela não se importou com o espanto dele. Roçou o seu rosto pelo rosto dele, sentiu o corpo dele no seu, sentiu o calor que vinha do corpo dele, o perfume dele, deixou que ele sentisse o seu.

Depois afastou-se, virou-lhe as costas. Abriu a portada de vidro e foi para a varanda. Ele foi atrás e, cavalheiro, colheu uma rosa branca de um grande vaso; num gesto tímido, ofereceu-lhe.




Ela disse, 'Não pense que é por me oferecer uma rosa branca que está absolvido'. Ele olhou-a, 'Eu? Não penso nada. Deixei de pensar'.

Sedutora, ela brincava com a rosa, mas não abrandou, 'Quê...? Está a querer passar por inimputável...? Não... Vai ter que pagar, não pense...'. Ele disse: 'Grande foi, então, o meu pecado'. Ela assentiu, ar de caso, ' Foi. Foi mesmo. Vai ter muito que rezar'.




Depois afastou-se e virou-se para trás como que querendo, de novo, puxá-lo pela gravata, como se fosse uma trela. O homem hesitou. Ela largou-o. Ele ficou parado.

Ela avançou, entrou noutra sala, escondeu-se. Pouco depois, ouviu-o a entrar. Procurava-a e ela escondida. Quando ele saíu para outra sala, ela foi atrás dele. Via-o procurando por ela. Perseguiu-o. Ele inquieto e ela atrás, predadora.

Até que viu um outro homem, mais jovem. Disse, então, em voz alta para o diseur, que apanhou um susto: 'Então está com medo...? Anda a fugir de mim...?'. O homem disse 'Não, andava era à sua procura'. Ela disse, 'Não se arme em simpático, não pense que escapa ao seu castigo'. 

Ele riu, 'Pronto, rendo-me, faça o que quiser'. Ela disse, implacável, 'Ah pois faço... E sabe qual vai ser o seu castigo?'. Ele sorriu 'Não faço ideia'.

Ela empurrou-o para a sala onde estava o homem mais jovem e disse 'Vai ensinar-lhe um poema para ele também me dizer, quero que me digam poemas, ora à vez, ora em coro, baixinho, quase num sussurro. Quem disser melhor, ganha um presente'. O mais jovem, muito admirado, disse, 'Não sei se vou ser capaz'. Ela riu-se, ficava amoroso com aquele ar atrapalhado, o aprendiz. Ela tranquilizou-o 'Será, será. Cuidarei que o mestre seja paciente. E temos a noite toda para o ensinar'. E, maliciosa, olhou o diseur. Este corou. Ela sorriu e fechou-se lá dentro, com eles.



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O poema é um excerto retirado de Photomaton & Vox de Herberto Helder.

"O mio babbino caro" da ópera Gianni Schicchi (1918), de Giacomo Puccini é interpretado por Maria Callas em Paris, Junho de 1963.

O vídeo, muito recente, é The AristoCrazy Collection, da campanha Outono/Inverno 2015 relativa aos elegantésimos sapatos de Giuseppe Zanotti.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.

(E não é que escrever esta historinha infantil me fez passar a dor de cabeça...? 
A sério. Passou mesmo. 
Ora aí está: quando tiverem uma dor de cabeça, nada de aspirina ou ben-u-ron: 
basta escrever uma história infantil. Boa. Já tenho matéria para um paper científico)

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