Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, junho 15, 2015

Clara Ferreira Alves e José Sócrates -- ou quando uma comentadora mostra a sua inconsistência. Foi no Eixo do Mal e parece que lhe deu uma coisinha má. [E ainda, também a propósito do Caso Marquês e do Preso 44, João Garcia e Rosário Teixeira; e Miguel Sousa Tavares e o Estado de Direito]






Ser-se comentador não deve ser fácil, especialmente para quem leve a coisa a sério. É preciso a pessoa manter-se informada, preservar a sua identidade apesar de ouvir opiniões de um lado e de outro, conseguir discernimento para ver um pouco mais além e ter ideias minimamente originais. Caso contrário, é vê-los feitos papagaios, repetindo-se uns aos outros, ou reproduzindo as notas com que os spin doctors presenteiam os media e amigos.

Devo dizer que costumava ter Clara Ferreira Alves em boa conta. De forma geral, gosto de ler o que escreve e até, salvo alguns excessos despropositados em que manifestamente embala e fala como se estivesse a representar para seu próprio prazer como auto-expectadora, gostava de vê-la no Eixo do Mal.

Mas há um tempo para tudo. Tempo demais a escrever o mesmo tipo de crónicas ou a aparecer no mesmo programa deve causar uma erosão anímica (para não dizer mental -- que é mais que compreensível que aconteça).

São anos a mais a opinar, a opinar por obrigação, sobre assuntos que umas vezes lhe devem interessar mas também sobre outros para os quais não deve estar nem aí.

De vez em quando, parece que já escreve ou fala em piloto automático, já sabe o que produz efeito, e, então, parece que já nem se dá muito ao trabalho de se documentar sobre os assuntos. Dá ideia que já vai na desportiva, acreditando que os anos de tarimba e o inegável carisma devem ser suficientes para ultrapassar alguma impreparação.

No outro dia, a entrevista no Expresso ao Houellebecq -- que li em papel mas que está disponível online --  foi uma desilusão das grandes. Partilho completamente a análise que Mestre Plúvio publicou sobre o assunto. Clara Ferreira Alves parecia estar a exibir-se perante a criatura. Claro que está mais do que na cara que Houellebecq estava morto de tédio, a fazer um frete dos valentes, nada naquela Clara lhe deve ter suscitado qualquer interesse para que despertasse do spleen em que se habituou a afogar-se. 

Uma jornalista armada em expert, cheia de teorias, pronta para fazer a festa sozinha, quase a querer demonstrar que sabe mais da obra dele do que ele próprio, foi nitidamente mais do que ele foi capaz de suportar. Cansado de existir, cansado de gente petulante, cansado de divulgar o livro, cansado de falar sobre o que deveria valer por si, cansado da situação em que vive, via-se que estava era deserto por que ela lhe desamparasse a loja. A entrevista foi uma autêntica desgraça.
E ainda eu não me tinha refeito deste passo em falso de Clara Ferreira Alves, eis que, no Eixo do Mal deste sábado, a vejo em mais uma prestação para esquecer.


(Aqui ainda o Nuno Artur Silva não tinha ido para a administração da RTP; agora é Aurélio Gomes, um charme e uma simpatia, que conduz o programa)


Instada a pronunciar-se sobre a situação vivida por Sócrates -- a insistência na prisão preventiva depois dele ter recusado a pulseira electrónica e sobre os últimos episódios -- Clara foi fiel a ela própria: que o que se passa tem sido um espectáculo mediático, logo desde a prisão e, que, por medo dele, fazem de tudo para o lincharem na praça pública, e as fugas de informação, e tudo o resto que se sabe, e aí foi ela disparada a dizer mal da Justiça e de tudo o que veio por arrasto (e, até aí, a conversa estava consistente com as posições que se lhe conhecem).

E, como se já estivesse sem travões, aí continuou a bela da Clara. Falando das paixões que Sócrates desperta (mas como se isso não se aplicasse a si própria) e dizendo que ele é uma verdadeira rock star, mesmo na prisão, aí continuou ela, desabalada, e, às tantas, de carrinho, já se pronunciava sobre a relação de Sócrates com o dinheiro, já se interrogava sobre se Sócrates, sendo leviano com o dinheiro como era, devia ter sido primeiro ministro numa altura em que o país estava quase na bancarrota, e que mau que era pedir tanto dinheiro ao amigo, e já falava de adjudicações directas e mais não sei o quê.

Ou seja, tendo começado por dizer que todo o processo tem decorrido de uma forma inaceitável, levando a que Sócrates seja condenado na opinião pública mesmo que, de facto, não exista ainda sequer acusação formulada, acabou ela própria a condená-lo sem provas, fazendo fé no que lê no Correio da Manhã e no Sol, e mais do que isso, até já a fazer juízos políticos retroactivos.

Mas a inconsistência não se ficou por aqui.

A seguir falou Pedro Marques Lopes (que, por acaso, até não estava naqueles dias que levam Mestre Plúvio a dizer, com aquela língua afiada e a graça que se lhe conhece, que, por efeito feromónico da vizinhança prolongada vem menstruando cada vez mais sincronizado com Clara Ferreira Alves) que falou com lucidez, denunciando o perigo deste poder justicialista que pode mandar uma pessoa para a prisão sem a acusar de nada, que pode mantê-la presa durante o tempo que entender, que vai alimentando a opinião pública de forma a justificar a prisão e a destruir a vida da pessoa, etc.

E aí, a bela da Clara, entusiasmada, foi atrás do Pedro e já se indignava contra quem condenava Sócrates sem provas, contra isto de as pessoas já darem por provado tudo o que vai saindo para os jornais do costume, etc, etc, e por pouco já parecia ela a mais indignada das pessoas por haver alguém que acredite nisso tudo e condene Sócrates antes sequer dele ter sido acusado (como se não tivesse, ela mesmo, acabado de fazer isso).

Juro: ouvi tudo aquilo perplexa. Que inconsistência: uma coisa e o seu contrário ditas com igual veemência, convicção, como se as suas intervenções fossem consistentes.

Eu sou tolerante com muita coisa, esforço-me por compreender as circunstâncias, o contexto, a cultura, o que for que possa justificar as atitudes das pessoas, mas, juro, tenho muita dificuldade em ter paciência para a inconsistência. E parece que cada vez há mais gente inconsistente: num dia anunciam uma coisa, dois ou três dias já aí estão, lampeiras, fazendo o contrário, ou prometem fazer alhos e, com a maior cara de pau, fazem bugalhos, ou começam uma intervenção dizendo uma coisa e, se for preciso, acabam-na a dizer o contrário. Não tenho paciência. Perco a confiança: como é que se pode acreditar no que dizem se, de seguida, as poderemos ver a dizer ou fazer exactamente o contrário?

Não dá. Risco-as do meu interesse, o meu radar deixa de as assinalar. Desisto delas. Desligo-me. Por isso, Clara Ferreira Alves: bye bye.

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Já agora, sobre o disparate que é este Processo Marquês (e de que as últimas saídas para os jornais, com aquelas indigentes perguntas, dando a ideia que a investigação anda aos apalpões, a atirar barro à parede, sem uma linha de rumo, sem se perceber como é que aquele labirinto ridículo pode acabar), transcrevo, do Expresso, um excerto da última crónica de João Garcia (que passou a Director da Visão) intitulada 'O Tudo ou o Nada':


A caricatura feita a Rosário Teixeira é a do magistrado que pergunta ao suspeito quem lhe fez o fato, como o pagou, de onde veio o dinheiro, onde comprou o tecido e depois pede o levantamento bancário das contas do alfaiate e da retrosaria num 'follow the money' que tem dificuldade em parar. De seguida abre um processo relativo aos sapatos e por aí segue alegremente.

É o que está a suceder na 'Operação Marquês', que passou por Paris, já anda na Venezuela, na Parque Escolar, em casas do Algarve, na urbanização de Vale do Lobo, em viagens a Veneza, na quinta que pôs Duarte Lima nas bocas do mundo, e tudo mais que lhe levantar suspeitas, numa viagem por contas bancárias que parece não ter fim. O caso que envolve José Sócrates não parece estar a ter outra estratégia.

(...) Num processo mediático e que tanta controvérsia suscita, cada dia que passa é um dia a menos para a credibilidade da Justiça.


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E também, já que estou numa de Expresso, transcrevo um pequeno excerto do artigo de Miguel Sousa Tavares a que, muito justamente, chamou 'O Preso 44 e o Estado de Direito':


Uma coisa é a convicção, mesmo que esmagadoramente sustentada pela opinião pública, de que ele é culpado; outra coisa é a prova de tal. Mas, face ao que se tem visto, a questão primeira é saber se José Sócrates alguma vez terá direito a um julgamento isento. E, se for o caso, a uma condenação baseada, não em suposições ou manchetes do 'Correio da Manhã', mas nessa coisa comezinha, chata e difícil de produzir, porém essencial, que se chama provas. O Estado de Direito não é um chá das cinco.

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Caso queiram assistir ao referido Eixo do Mal, deixo aqui o vídeo do programa. A intervenção de Clara Ferreira Alves sobre este assunto começa para aí aos 25 minutos. E daí para a frente é o que se verá.

O Eixo do Mal - vídeo  de 13 Junho 2015



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Talvez porque Clara Ferreira Alves fala sempre com certezas absolutíssimas, como se não duvidasse da sua superior presciência e sagacidade, lembrei-me da gata-Einstein (assim chamada porque deita a língua de fora tal como Einstein aparece numa fotografia célebre), uma gata que se chama Melissa, e que a sua dona, a fotógrafa Alina Esther, gosta de registar na sua pose preferida. É ela que aparece em duas fotografias neste post.

A música, como um sopro de oxigénio, é o Mário Laginha Trio* interpretando o Prelúdio n.20 op.28 de Chopin

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Sobre o funâmbulo francês Philippe Petit, que foi entrevistado para o Expresso por Pedro Mexia, e sobre o que é caminhar sobre o vazio e sobre o que isso tem a ver com religião e sobre as minhas vertigens falo no post abaixo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já nesta segunda-feira. 
Saúde, sorte, amor e dinheiro para os gastos é o que desejo a todos.

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7 comentários:

jose neves disse...

Há muito que noto, quer sobre CFA quer em todos os do eixo-do-mal e também e mais notoriamente no governo-sombra, precisamente isso que assinala; uma falta de de coerência no discurso que, como diz, no mesmo programa começam a dizer uma coisa e acabam a dizer o contrário.
A Clara é uma inconsistente e maria vai com as outras que quando todos batem no mesmo ela acaba indo na onda e, de repente, dá em zursir ainda mais forte e taralhocamente em quem antes defendia. Quase acontece em todos os programas e é por isso que me deixei de interessar por tal.
Mas com os outros é o mesmo; é preciso não esquecer que todos dependem dos donos dos media donde retiram o ganha-pão e Clara é administradora do tio Balsemão e o Daniel também é independente quanto baste e o LPM é um PSD que no tempo de Sócrates repetia em todos os programas; eu só tenho duas certezas i) que cavaco silva foi o melhor PM de Portugal ii) e que passos coelho será sempre melhor PM que sócrates. Agora ouça o diz o fulano destas duas almas.
Do outro, o exibicionista profissional, que se acha engraçado a fazer trocadilhos criticos com idiotices de pensamentos fascizantes, basta saber-se que depende do Belmiro e, como bom fretista que é, claro.
Mas o mal maior é que todos, de forma encapotada e uma maneira ou de outra apresentam o seu fretismo à direita embrulhado em palavreado de esquerda radical.
Também o chefe Artur Silva, sempre de sorriso pronto para-bloquista e troça para-PS, escapuliu-se para a administração da RTP e veja se o programa toca no assunto, é o tocas; e o substituto, é também ele, um sorriso permanente de alegria trocista para tudo que não seja as tiradas radicais à bloquista.
Enfim, todos uns pacchecos pereira falhados políticos, sem contudo, a bagagem livresca e a habilidosa prosa literária da pacheca figura.

Anónimo disse...

Olá, UJM!

Um pouco duro o seu texto! Quando li a entrevista ao Houellebecq, fiquei com a ideia de que ele era um homem desagradável e que a CFA gostava bastante e genuinamente dos seus livros e queria impressionar o escritor, para o tirar daquele torpor. Não conseguiu e acabou a falar muito mais do que o entrevistado, o que é sempre mau, e até fiquei com um pouco de pena dela.
Concordo com muita coisa do que escreveu, em todo o caso. Leio há muitos anos as crónicas da CFA, foi com a sua leitura que me fui introduzindo ao expresso (comecei ainda criança por ler as suas crónicas e quase nada do resto da revista, depois passei a ler a revista toda, a seguir já só não lia o caderno da economia e hoje não passo o fim de semana sem ler o expresso todinho, com a saudável censura aos henriques e ricardos desta vida). Por isso, tenho um carinho especial às crónicas da CFA (nem sou grande fã de crónicas, para ser sincera...) e acho que ela escreve muito bem, é inteligente, culta, tem uma ironia mordaz e um humor engraçado. Agora, não suporto, não vejo, nunca consegui ver o eixo do mal. Às vezes passo no programa, está o LPN a dizer uma barbaridade qualquer em tom jocoso e superior, com aquele ar de quem não se dá a grandes trabalhos para fundamentar o que diz porque não precisa, porque está acima disso e pergunto-me o que estará a fazer a CFA no meio daqueles animais (o luís pedro nunes é nojento, do cabelo às palavras, o pedro marques lopes tem sempre um insofrível ar de espertalhão - apesar de gostar de alguns dos textos que escreve, e o daniel oliveira tem aquela barba cerrada que me faz um bocado de impressão, mas pelo menos parece-me que fala mais como uma pessoa normal, sem todos aqueles jeitos e exageros dos primeiros dois, sobretudo do LPN). Também não gosto muito de ver e ouvir a CFA e penso que, se calhar, tantos anos de programa fizeram com que esteja cada vez mais parecida com os colegas, que mais parecem carroceiros a mandar bitaites aos gritos, mas sempre com aquele sorrisinho afetado, numa combinação de brutalidade e afetação que não consigo tolerar.
Acho que há muitos casos assim, de pessoas que escrevem melhor do que aquilo que mostram ser ao vivo: a CFA, o PML, o miguel sousa tavares, e tantos outros. Vou-me ficando pelas crónicas, portanto.

Boa semana,
JV



Rosa Pinto disse...

Excelente post. O programa deixou de ter interesse. Não dá ideias, não faz pensar, não esclarece, em suma não tem interesse, minha opinião, claro está.
Li e gostei do comentário do José Neves.
Por isso gosto de vir espreitar.
Continue....

Anónimo disse...

Vi o video com o programa já depois de comentar e não podia deixar de dizer isto: não encontro contradição nas palavras de CFA, acho que ela condenou o procedimento da justiça e, depois, condenou o de Sócrates, sim, mas não por achar que ele é culpado de qualquer crime, corrupção ou outro, mas sim pela integridade moral que um político deve aparentar (e não apenas ter). De facto, pedir muito dinheiro emprestado a alguém que preside empresas que o estado contrata para empreitadas de grande envoltura não é muito prudente. Não é crime, mas não é prudente. Pode-se argumentar que se trata de dois amigos, pessoas livres que podem celebrar os negócios que entenderem e, normalmente, valorizo mais este argumento baseado na liberdade do que os outros, mas talvez não seja a posição mais correta. No Borgen, que a UJM viu, a PM obrigou o marido a vender ações que ele tinha há 10 ou 15 anos porque um negócio do estado com a empresa ia fazer com que as ações se valorizassem. Porque era importante estar acima de qualquer suspeita. Acho um exagero, mas diz muita coisa sobre a leviandade com que as coisas se passam por cá. E acho que também tem razão a CFA quando diz que é duvidoso que alguém que tem tanta dificuldade em gerir o seu dinheiro possa gerir bem e com credibilidade os dinheiros públicos. Acho que Sócrates foi um bom PM, mas isso se calhar não basta. A gestão do seu dinheiro, mais uma vez, está dentro do foro privado do PM e isso deve ser respeitado, mas até pelo facto de um PM em dificuldades financeiras ser uma fonte de suspeições (tal como um juiz, por exemplo: um juiz nunca pode ganhar mal, porque senão suspeita-se que absolva um criminoso rico porque foi corrompido, mesmo que isso não seja verdade, e a justiça tem de estar acima de suspeitas, tal como um PM). É claro que muitas suspeições são criadas por pasquins maledicentes e grudam com a histeria mediática dos factos inventados ou deturpados, mas o que CFA disse parece-me razoável e não entendi como uma condenação por supostos crimes que ela diz, sempre, não saber se Sócrates os cometeu ou não.

JV

Anónimo disse...

Rarissimamente vejo o dito Eixo. Acontece que ontem, com o tempo “a modos que” mauzote, com chuvas intermitentes, deu-me para ir ver o que a TV tinha por ali para me entreter e, estando eu a fazer um zapping com a TV, fui cair no tal Eixo do Mal, que normalmente classifico como “estucha” (suponho que era repetido, pois ao Domingo à tarde só pode). E lá me pus a ouvir aquela rapaziada. Já estiveram melhor, dentro do fraco, mas ontem, ou fosse por causa do tempo, ou outra razão, aquilo esteve uns furos mais abaixo do que o que costume. O que me suscitou desde logo a atenção foi uma falta básica de conhecimentos mínimos de Direito, que um comentador deve possuir. Falou-se de Sócrates como arguido, putativo culpado e sei lá que mais. Ora, o homem é – tão só e apenas, salve-se a redundância – suspeito, visto ainda não ter sido deduzida uma acusação formal que o constitua arguido (e vai haver?), por parte do Ministério Público. Só depois, se vier a ser feita essa acusação e haver julgamento, antecedido ou não da fase de instrução, que é facultativa, e se se registar uma condenação – que venha a transitar em julgado (após um eventual recurso), convém sublinhar, é que se poderá falar em condenação e condenado. Outra confusão, embora compreensível, é a de se chamar a JS preso, quando ele é um detido. Quando muito, preso preventivo. A prisão propriamente dita é resultante de uma condenação, o que não é o caso de Sócrates. O problema é que alguns pasquins, como o CM e o Sol, já o condenaram na praça pública, com recurso a transcrições da Acusação. Só pode ter sido. E, claro, parte do público já o tem igualmente como culpado, ou influenciado pelos tais manipuladores de opinião, ou outras. Não tenho particular simpatia por qualquer dos artistas que ali estão a perorar, embora me irrite o convencimento e pesporrência da CFA, mas o Daniel Oliveira fez um comentário que talvez tenha sido o mais importante que dali se ouviu, de que, a Justiça, ou melhor, se não erro, o Ministério Público, ultimamente, em vários casos que tem investigado (o exemplo do Apito Dourado foi um dos citados) não consegue levar a sua avante, não tem sucesso probatório e perde os casos, ou em sede de julgamento, ou mesmo antes de lá chegar, seguindo-se um arquivamento. E que faz então o dito MP? Passa peças processuais cá para fora, aos tais pasquins e outros, e deste modo acaba por “julgar e condenar” os suspeitos, ou arguidos, se já tiverem sido constituídos. Ora isto é grave e mesmo muito preocupante. Sócrates, mesmo que porventura se venha a safar deste imbróglio, já está queimado e condenado. Na praça pública. No tal “julgamento popular”. Enfim, a justiça que temos. Que prende para investigar e depois se verá. Na cultura jurídica anglo-saxónica, faz-se o contrário: investiga-se primeiro e só depois se prende. Talvez seja tempo de começarmos a fazer o mesmo, a bem do Estado de Direito. Só uma nota final: a questão da recusa da pulseira, perfeitamente legítima, é, sobretudo, um acto de recusa de uma humilhação que o MP e o Juiz de Instrução lhe queriam impor, para permitir mais folclore junto dos “Media” e diminui-lo mentalmente. JS fez bem em recusar. No lugar dele teria feito o mesmo. Agora, a bola está nas mãos do tal Procurador e do tal Juiz. Estou curiosíssimo por ver o que vai sair dali.
P.Rufino

Anónimo disse...

A alguém que no seu comentário afirma:
"O que me suscitou desde logo a atenção foi uma falta básica de conhecimentos mínimos de Direito, que um comentador deve possuir."
De seguida escreve este rotundo disparate:
Ora, o homem é – tão só e apenas, salve-se a redundância – suspeito, visto ainda não ter sido deduzida uma acusação formal que o constitua arguido..."
Recomendo vivamente que vá ler o código de processo penal

Anónimo disse...

Caro anónimo,
Dar-me-ia um enorme prazer estar aqui a dirimir este tipo de questões. Mas, não abusemos do espaço da autora deste magnífico Blogue.
O tal CPP que refere começa logo no seu 1º Artº por definir a qualidade e situação de suspeito, cito:
“Suspeito: toda a pessoa relativamente à qual existia indício de que cometeu (o caso de JS) ou se prepara para cometer um crime, ou que nele participou ou se prepara para participar;”
Depois temos o que dispõem os articulados mais adiante (do 57º ao 62º). Logo aí se refere “assume a qualidade de arguido todo aquele contra quem for deduzida a acusação ou requerida a instrução preparatória num processo penal”, o que manifestamente ainda não foi o caso de JS. É claro que logo depois, o Artº subsquente, vem de algum modo contrariar a definição anterior, ao dizer que é obrigatória a constituição de arguido logo que, “correndo inquérito contra pessoa determinada, estar a prestar declarações perante qualquer autoridade judiciária ou...etc. Enfim, e poder-se-ia ir por aí fora. A minha interpretação e que mantenho é de que, nesta fase, não recaindo, ainda, uma acusação formal do MP sobre o ex-PM, ele deve ser considerado suspeito. Nesta sua situação de “suspeito” está a “beneficiar” e é “abrangido” do que dispõe o articulado 62º do CPP, como arguido(em termos de garantias de defesa) que repito, considero ainda não o ser, pelo que atrás aduzi. Naturalmente, outros poderão ter uma opinião diferente. Jornalistas, comentadores, ou colegas advogados...e magistrados. O Direito pode ser visto de diversos ângulos, dependendo de quem defense, de quem acusa, e por aí fora, so to say. Vamos pois aguardar com calma o que os "mui dignos magistrados" nos vão dizer "oportunamente" sobre este caso. Por mim, como disse, estou curioso.
Cordiais cumprimentos!
P.Rufino