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segunda-feira, junho 15, 2015

Caminhar sobre o vazio -- ou talvez uma questão de religião que, em latim, é religare, o que significa unir duas coisas com um pedaço de corda.


Acho que já aqui o confessei: sofro de vertigens. Penso que não seja um caso grave mas a patologia existe. 

Por exemplo, nos circos sempre sofri horrores durante os números de trapézio. Temia, mas temia quase como se fosse eu que ali estivesse, que se despenhassem lá das alturas. Espreitava aterrada e só descansava quando estavam com os pés em terra a agradecer os aplausos. 

Ou em alguns castelos, quando se sobe por escadas estreitas de pedra, sem protecção, e lá em cima se percebe o quão alto estamos e se pensa que bastará um passo em falso para que se caia sem apelo nem agravo. 

Quando era miúda, ia com os meus pais para praias de rochas em que havia pouca gente ou nenhuma, eram os melhores lugares da praia, com mexilhões agarrados às rochas, caranguejos, algas e limos maravilhosos. Mas, para lá chegar, era preciso fazer verdadeiras acrobacias, coisa mesmo arriscada. Ficaram-me pavores dessa altura. 

Ou, mais tarde, e já com amigos -- alguns chegavam nos barcos, e eram irreverentes, filhos-família armados em rebeldes, e gostavam de se aventurar em grutas e em rochedos altos em que se passava de uns para os outros em arriscados saltos, em que também um pé em falso seria o suficiente para se vir parar cá abaixo, provavelmente entalados entre as rochas. E íamos a nadar para outros rochedos no meio da água, e eles trepavam e davam arriscados mergulhos, cambalhotas no ar, coisas dessas. Esses mergulhos nunca consegui dar em sequer consegui subir, desprotegidamente, até tão alto. Ficava a meia altura e atirava-me a medo, sempre com receio de escorregar no momento de saltar, as rochas estavam cobertas de limos escorregadios. Mas, de resto, cheia de medo mas não querendo dar parte de fraca, lá me esforçava para os acompanhar.



Já adulta, a nível profissional, volta e meia organizavam, nas empresas onde trabalhei, cenas de team building, com exercícios em ambiente de montanha ou em rios, e com provas que envolviam escaladas, pontes suspensas, rapel, essas tretas que me estragavam um bocado de brincar e confraternizar ao ar livre. O que eu tive que me superar nessas coisas, não querendo prejudicar a equipa em que estava inserida mas temendo não sobreviver ou armar barraquinha, é coisa de que nem gosto de me lembrar, parece que revivo a sensação de vertigem. Felizmente isso agora caíu um bocado em desuso.

De vez em quando ainda sonho que estou a ir para um sítio qualquer e me aparecem obstáculos desse tipo, rochedos a que tenho que trepar e passar de uns para os outros através de um salto sobre o vazio.

A sensação é sempre a mesma: uma espécie de formigueiro nos pés, como que uma falta de força que vem do medo, uma espécie de angústia, como se soubesse que uma qualquer força me fará cair não tendo onde me agarrar.
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Vem isto a propósito do artigo da revista do Expresso sobre Philippe Petit, artigo a que o autor, Pedro Mexia, deu o título de A vida no arame.


Philippe Peteit tornou-se célebre ao caminhar entre as duas torres gémeas do Worl Trade Center. Tinha na altura 25 anos. 



E, à medida que lia e depois, agora aqui, ao ver vídeos de que fui à procura, voltei a sentir aquela impressão miudinha e incomodativa que está associada à sensação de vertigem, quase uma atracção para o abismo, o antecipar a queda desamparada no vazio.



Hoje, já sexagenário, Petit é artista residente numa catedral em Nova Iorque, vive nas montanhas Catskill e faz conferências um pouco por todo o mundo. Ao longo da sua carreira, caminhou, bem alto, nas cataratas do Niágara, em Notre Dame, numa ponte no porto de Sydney, no Central Park ou na Torre Eiffel (...)


Transcrevo dois pequenos excertos do artigo, onde é Philippe Petit que fala.


Quando vejo edifícios extraordinários a serem construídos, uma catedral ou uma torre mais alta, alguma coisa realmente esplêndida, que de alguma forma rompe com as regras da arquitectura e da engenharia, fico instantaneamente atraído. Tenho uma caixa com o título 'Projectos'. Quando a abro, há lá dentro todo o género de edifícios ou paisagens que chamaram a minha atenção. Se olhasse para esse ficheiro, veria desfiladeiros, catedrais, cataratas e até cavernas. Gostava de colocar um arame dentro de uma caverna, um dia. E gostava de colocar o meu arame num iceberg no oceano.
Sou um homem muito religioso, que não pertence a nenhuma religião conhecida. A etimologia da palavra religião, em latim, é religare, o que significa unir duas coisas com um pedaço de corda. 

Man on Wire





Philippe Petit: One Man Show - Philosophy on Life


"I can not kill the child in me. I refuse"



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Para ilustrar o texto usei fotografias do Cirque du Soleil (que, como devem saber, foi recentemente adquirido pelo grupo chinês Fosun, o mesmo que, por cá, por exemplo, comprou a Companhia de Seguros Fidelidade)

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1 comentário:

Rosa Pinto disse...

Solidária. Alturas não é comigo. Pânico e lá se vai a compostura.