Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, maio 23, 2015

Porque a vida, a vida, a vida, a vida só é possível reinventada.


Tenho, nos lugares mais diferentes, amigos à minha espera. Você já reparou que, entre centenas, em cada país, nós temos sempre aquela pessoa, que, sem mesmo saber, espera por nós e, quando nos encontra, é para sempre? Por isso é que eu gosto tanto de viajar, visitar terras que ainda não vi e conhecer aquele amigo desconhecido que nem sabe que eu existo, mas que é meu irmão antes de o ser.

Tenho amigos em toda parte. Mas sou feito o Drummond que é tão amigo quase sem a presença física. Esse meu jeito esquivo é porque eu acho que cada ser humano é sagrado, compreende? Eu sou uma criatura de longe. Não sei se me querem mas eu quero bem a tanta gente! Sou amiga até dos mortos. Amiga de muita gente que nem conheci. Você não imagina quanta gente eu levo ao meu lado. E fico emocionada quando penso como uma criatura só recebe tanto de tantos lados, de tantas pessoas, de tantas gerações!





 Billie Holiday - As Time Goes By


Nunca esperei por momento algum na vida. Vou vivendo todos os momentos da melhor maneira que posso. Quero realizar coisas, não para ser a autora, mas para dar-me, para contribuir em benefício de alguém ou de alguma coisa. Quando adoeci e tinha que repousar uma hora depois do almoço, ficava calculando quanto poema deixava de escrever, quanta coisa linda deixava de ler e conhecer naquelas horas perdidas. Mas aprendi também a renunciar. Não tenho poema predileto. Ainda não o escrevi. A intenção é que é perfeita. Às vezes, um poema viaja comigo muito tempo sem ser escrito. Se não lhe dou muita importância, vai embora. Tenho muita pena dos poemas que não escrevo. E também muita dos que escrevo.




Tenho um vício terrível” — me confessa Cecília Meireles, com ar de quem acumulou setenta pecados capitais. “Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.” “Em pequena (eu era uma menina secreta, quieta, olhando muito as coisas, sonhando) tive tremenda emoção quando descobri as cores em estado de pureza, sentada num tapete persa. Caminhava por dentro das cores e inventava o meu mundo. Depois, ao olhar o chão, a madeira, analisava os veios e via florestas e lendas. Do mesmo jeito que via cores e florestas, depois olhei gente. Há quem pense que meu isolamento, meu modo de estar só (quem sabe se é porque descendo de gente da Ilha de São Miguel em que até se namora de uma ilha pra outra?), é distância quando, na realidade, é a minha maneira de me deslumbrar com as pessoas, analisar seus veios, suas florestas.”

Olho para Cecília encolhida em sua poltrona, iluminando a penumbra do canto da sala. Vejo-a tão menina olhando o solo e descobrindo na madeira floresta e lendas, deslumbrada de azul! Uma ilha cercada de pontes por todos os lados. Pontes para a ternura, pontes para a poesia, pontes para a alma de cada um. E olhando-a assim, poesia ela mesma, tão alta e tão pura, percebo porque continua a ser a garotinha à procura do eco, correndo por todos os cantos e por todos os deslumbramentos, sem poder recolher o eco da própria voz: nós somos o seu eco, cantamos o seu canto, sem que ela perceba; somos todos um pouco habitantes de sua Ilha de Nanja “onde as crianças brincam com pedrinhas, areia, formigas”. “Solombra”, a última obra de Cecília, quer dizer só sombra. Cecília, para nós. é só luz.


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O texto é um conjunto não sequencial de excertos da última entrevista de Cecília Meireles. A escritora morreu alguns meses depois de ter concedido o depoimento ao jornalista Pedro Bloch, em maio de 1964.

As fotografias mostram (e desculpem-me por não traduzir mas mal posso com um gato pelo rabo, quanto mais traduzir mais do que três palavras seguidas...): 
Hawaii-born painter and street artist Sean Yoro (a.k.a. Hula) has created a stunning series of street art murals depicting women emerging from the water along the concrete walls of ruined and abandoned structures. At home on the water, he paddles on a surfboard to reach the best locations for his art, even managing to balance his paint cans as well.
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E hoje por aqui me fico. Andei na rua até tarde, mais concretamente no Terreiro do Paço a ver o espectáculo de luz, a passear à beira do rio, a aspirar a maresia fresca da noite, etc, etc, e isto depois de termos ido jantar ao Mercado da Ribeira que estava a animação do costume, e, portanto, agora estou mesmo é capaz de me ir entregar ao sono dos justos.

E, acabo agora de ver, não sou a única a falar do sono dos justos - o que é natural: it's friday, thanks God.

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Happy little moments
by Maori Sakai


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado cheio de momentos felizes.
E bons banhos de sol - e, sobretudo, bons banhos de mar a quem nele possa mergulhar. 
Eu espero bem poder fazê-lo.

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1 comentário:

frannloffler disse...

Muito bom seu blog e seus posts. Espero que você tenha um ótimo fim de semana e muita paz.