Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, abril 18, 2015

No coração da sua estranheza





Aquilo a que chamamos desejo: onda obscura de matéria inominável.






 'Era em Mégara, subúrbio de Cartago, nos jardins de Amílcar.'
-  o festim dos Bárbaros, quadro de abertura de Salammbô.


Os Bárbaros de Flaubert 'estendiam-se sobre as almofadas, comiam acocorados em torno de grandes bandejas ou então, deitados de barriga para baixo, puxavam para si os pedaços de carne e saciavam-se apoiados nos cotovelos, na posição pacífica dos leões quando dilaceram a presa. Os últimos a chegar, de pé encostados às árvores, contemplavam as mesas baixas, meio ocultas sob tapetes de escarlate, esperando a sua vez'.

'Estendiam-se sobre as almofadas'.

Flaubert escreveu inicialmente 'espalhavam-se'


Lógica daquele que vê: não a sintaxe das coisas que nascem e morrem, mas a sintaxe das coisas que estão ali. E, neste ali, passado e futuro não contam para nada, mesmo que que haja um passado que esmague tudo, ou quase, e devir não quer dizer nada, nada de nada, nada mais que a suspensão de um relâmpago.

Parábola sem herói nem moralidade: as imagens alimentam-se ostensivamente do que está no coração da sua estranheza, isto é, da plena luz sobre o seu quotidiano, libertadas de qualquer inquietação, inclusivamente a de durar, como se para durar houvesse um esforço a fazer, esquecidas de fingir que compreenderam (compreender é ainda aumentar o lastro, aumentar a dificuldade de deitar fora esse lastro), e esquecidas também do nada que não compreendem e que é aliás completamente indiferente, tal como a diferença entre compreender e não compreender.




os fumos, as névoas ou a sua contrapartida, as arestas, as placas, o gosto ácido da flecha através das névoas, cenografias de Turner,

a seda e a areia, a rocha e a lama,

a brancura do papel, de que devemos fruir como a carne desfruta o sol,

por um acaso de dados ou por um caminho raciocinado, a sementeira à toa de pontos, de linhas, de manchas,

estabelecer, descobrir ou deixar vir afinidades, antagonismos, conflitos, tensões,

compensações, oposições, correspondências,

tentando organizá-las em sistemas coerentes (que quererá isto dizer?),

(...)

Não me apetece continuar: este carreiro corria o risco de nunca chegar a um fim, visto que as imagens que o compõem se renovam com uma prática dia a dia retomada e questionada. E com a matéria da palavra a seduzir o acto de escrever, assim como a memória que lhe serve de suporte, suspeito de que o meu discurso ameaça deslizar para esse olvido que nos de má vista deve fazer as vezes da preguiça do olhar.



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  • As palavras são excertos ao acaso e não sequenciais de 'Da cegueira dos Pintores', Parte Escrita II, de Júlio Pomar - um livro fascinante.

  • As pinturas, como é bom de ver, são também de Júlio Pomar.
  • Lá em cima Oleta Adams interpreta Get Here.
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Permitam que vos convide a descer até aos dois posts seguintes: há um novo vídeo do Cine Povero com Gonçalo M. Tavarese, a seguir, Os outros falam de Herberto Helder.

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E, com isto, vou descansar para estar preparada para um dia que se espera animado. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado vivido em paz e, se possível com afecto.

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1 comentário:

Rosa Pinto disse...

Na obra de Flaubert: O Zaïmph trouxe a morte sobre aqueles que tocou.
A ambição pelo poder leva à morte, por esse Mundo fora, actualmente.